França

Macronismo entre jantares com extrema-direita, uma frente republicana e um governo de direita

10 de julho 2024 - 14:31

O presidente segurou o primeiro-ministro e ganhou tempo enquanto a esquerda discute um futuro governo. Mas o campo liberal mostra divisões. Enquanto ganha força a tese de uma coligação com a direita para se tentar apresentar como primeira força no Parlamento, vários deputados ameaçam bater com a porta.

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Assembleia Nacional Francesa.
Assembleia Nacional Francesa. Foto da conta oficial no Instagram.

A Nova Frente Popular promete apresentar uma proposta de elenco governativo até ao final da semana mas as movimentações nos outros campos não param. A extrema-direita concede que “ainda” não é tempo de governar porque não conseguiu força eleitoral suficiente para isso depois de ter ficado em terceiro lugar nas eleições de domingo. Mas vários liberais e centristas, depois de algumas tentativas do seu campo de dividir a esquerda e criar uma “frente republicana” com PS e Verdes excluindo a LFI, sonham ainda alcançar o governo com uma aliança com a direita.

Luís Leiria
Luís Leiria

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O presidente Macron vai ganhando tempo com a manutenção em plenas funções do primeiro-ministro Attal, que tinha pedido a demissão. Do lado socialista há até quem, como a presidente de Câmara de Paris, Anne Hidalgo, concorde com a manobra e diga que o governo se deve manter em funções por causa dos Jogos Olímpicos. Mas a linha oficial da Nova Frente Popular é clara. Em comunicado emitido esta terça-feira alerta-se contra “qualquer tentativas de desviar as instituições” e “apagar o resultado de domingo”. Pela França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon diz que o presidente da República “bloqueia a situação para manter o poder”.

Os jantares do macronismo com a extrema-direita

Uma revelação do Libération colocou entretanto em causa as declarações da ex-maioria presidencial sobre os perigos da extrema-direita e a necessidade de uma “frente republicana” para a combater.

O jornal francês revelou esta quarta-feira que Thierry Solère, conselheiro muito próximo de Emmanuel Macron, recebeu “em várias ocasiões” as mais altas figuras da extrema-direita, Marine Le Pen e Jordan Bardella, na companhia de Edouard Philippe, ex-primeiro-ministro de Macron e chefe do partido Horizons, que confirmou ter estado presente, ou do Ministro dos Exércitos, Sébastien Lecornu. Solère é apresentado com “agente de ligação” entre o campo presidencial e a União Nacional.

O último dos encontros foi três dias antes da dissolução do parlamento que levou às eleições legislativas que culminaram no domingo. Solère, apesar de não ter um cargo oficial, estava no dia da primeira volta entre o círculo restrito de Macron que analisava os resultados.

Manobras liberais: dividir à esquerda ou colocar a direita no poder?

Entretanto, o grupo parlamentar do Renaissance de Macron mostra fraturas. À proposta de ligação com a direita dos Republicanos respondem alguns ministros e deputados com a ameaça de saída. Sacha Houlié foi o primeiro a fazê-lo desde já, tendo justificado que fez campanha “contra tudo o que o governo trouxe”, como a lei da imigração e a reforma do subsídio de desemprego. E estão agora em conversações com “uma vintena” de deputados da chamada “ala esquerda do partido” sobre a possibilidade de construir um novo grupo parlamentar.

Ao mesmo tempo, vários notáveis do agrupamento liberal começaram a tomar posições em favor de um acordo à direita, na senda do que o ministro do Interior Gérald Darmanin tinha feito imediatamente após serem conhecido os resultados eleitorais, secundado por Edouard Philippe, que veio dizer que deveria haver um “acordo técnico” com “um primeiro-ministro que seja de direita” e por Aurore Bergé, ministra para a Igualdade de Género e Luta contra a Discriminação, que avança com o argumento de que um grupo parlamentar dos macronistas com a direita poder-se-ia apresentar como a primeira força política e assim aspirar a continuar a governar.

Do lado da direita, alguns dirigentes como Bruno Retailleau, Xavier Bertrand e Olivier Marleix produzem declarações no mesmo sentido.

O líder de outra das componentes da anterior maioria presidencial, François Bayrou, chefe do Modem, tinha feito as contas de maioria diferente para se manterem no poder, apelando a uma maioria “da esquerda sem a LFI até à direita sem e União Nacional”. Outras figuras de peso, como o ex-presidente do parlamento Yaël Braun-Pivet, concordam.

Este campo está assim em suspenso. Talvez por isso, como a BFMTV revela esta quarta-feira, apenas 40 dos 99 eleitos do Renascença se ligaram já oficialmente ao grupo parlamentar. Este passo, que seria habitualmente uma formalidade burocrática a cumprir até dia 18, fica em causa com várias hesitações acerca dos caminhos a seguir.

Esquerda, uma gravação destoa da unidade quase geral e há quem queira um novo grupo parlamentar

À esquerda, a resposta oficial tem sido quase unânime de que a Nova Frente Popular deve constituir o novo governo, estando longe ainda de ficar claro quem o liderará. O último a chegar-se à frente foi o presidente do Partido Socialista, Olivier Faure, que indicou “estar pronto a assumir o cargo”, procurando o “consenso” no interior da NFP. Isto apesar de existirem algumas vozes no seu partido, como a presidente socialista da região da Ocitânia, Carole Delga, que prefeririam uma coligação com os macronistas.

A agitar as águas deste consenso surgiu uma gravação publicada pela conta Aminatorux no X, na qual o secretário-geral do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, surge num comboio, a falar ao telefone e supostamente a admitir negociações com Gérald Darmanin e o ex-ministro Olivier Véran para excluir a França Insubmissa.

O ex-deputado explicou-se já, admitindo a veracidade do conteúdo, mas dizendo que naquele momento, entre as duas voltas, “havia uma maioria quase absoluta atribuída à União Nacional e todos avançavam cenários” para “não a deixar passar”, sendo “apenas isso”, garantindo estar a trabalhar num consenso com todas as componentes. A polémica continua, apesar de ser oficialmente minimizada.

Também aqui a constituição dos grupos parlamentares não está fechada, com os dissidentes da França Insubmissa a proporem ao Partido Comunista, aos Ecologistas e ao Génerations uma união. Numa carta enviada a estas forças políticas esta terça-feira, Clémentine Autain, Alexis Corbière, Hendrik Davi, François Ruffin e Danielle Simonnet propõem uma união de esforços para constituir um terceiro polo forte no interior da coligação de esquerda face a insubmissos e socialistas e garantem estar “extremamente ligados à dinâmica unitária e à NFP rica na sua diversidade”.

Ameaças de morte da extrema-direita

A página de Internet Réseau libre difundiu mais uma ameaça de morte. Depois de ter publicado uma lista de cerca de cem advogados “a eliminar”, porque tinham assinado uma tribuna contra a União Nacional, esta segunda-feira divulga as moradas de quatro pessoas de esquerda. Estas são o senador comunista Ian Brossat, o coordenador da LFI, Manuel Bompard, o deputado dissidente dos insubmissos, Alexis Corbière, a ex-deputada Rachel Keke. E também de Yassine Bouzrou, advogado que se tornou conhecido por representar as famílias de jovens como Nahel e Adama Traoré, ambos mortos pela polícia.

As moradas vêm acompanhadas pelo apelo a “neutralizar” estas pessoas. A página, alojada na Rússia, publicada anonimamente mas atribuída ao militante de extrema-direita Joël Michel Sambuis, apela a ataques “regulares a personalidades que assumem o seu estatuto de inimigos, como advogados, jornalistas e politiqueiros de segunda linha” e acrescenta que “não são necessárias obrigatoriamente armas de fogo” e que “uma boa faca de cozinha ou mesmo uma besta” podem fazer o trabalho.

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