“Em reconhecimento do seu legado na arte, cultura, educação e emancipação das mulheres”, o presidente da Câmara de Lisboa será o anfitrião de uma cerimónia em homenagem a “Sua Majestade a Shahbanou Farah Pahlavi”, a realizar-se no Salão Nobre dos Paços do Concelho ao final da tarde de 24 de junho.
No seu casamento com o então Xá do Irão, Reza Pahlavi, Farah foi coroada “Shahbanou”, a “imperatriz consorte” do país. A repressão aos opositores políticos e a corrupção entre a elite que dominava o Irão levaram ao colapso do regime e à revolução que levou ao poder os clérigos liderados por Khomeini. No exílio, a família Pahlavi manteve o estilo de vida faustoso entre os EUA e Paris e nunca desistiu de regressar ao poder: os monárquicos iranianos gozam de apoio estadunidense e israelita.
A proximidade política da monarquia iraniana a Israel é antiga. O xá Mohammad Reza Pahlavi fez do Irão um dos primeiros países a reconhecer o Estado de Israel em 1948 e alimentou a economia emergente israelita com o petróleo iraniano, recebendo em troca formação militar para as Forças Armadas e técnica para o setor agrícola, entre outros.
Fundação Shahbanou Farah Pahlavi teve Lacerda Machado na administração
Farah Pahlavi constituiu em Lisboa uma fundação para preservar livros e obras de arte que acumulou ao longo dos seus 87 anos. A escolha do país, disse há dois anos em entrevista ao Expresso, não derivou da sua relação pessoal, resumida a uma estadia no Algarve “há muitos anos”, mas da “vocação de Portugal para receber fundações estrangeiras” de sucesso, como a Gulbenkian ou a Aga Khan.
A fundação foi constituída em 2021 e o governo português reconheceu-a em dezembro de 2022, mas ainda não tem um espaço físico - a sede é na sociedade de advogados PLMJ. Na administração da fundação, escolhida em janeiro de 2023 e com mandato até 2027, estava o consultor Diogo Lacerda Machado, em tempos o melhor amigo de António Costa. A mesma “Operação Influencer” que levou Costa a demitir-se do cargo de primeiro-ministro afastou Lacerda Machado de administrador da fundação após ser constituído arguido. Ficaram o presidente Bruno Ferreira, sócio-gestor do escritório de advogados PLMJ e o gestor e consultor Bernardo Múrias Afonso, que agora integra o Conselho de Supervisão do Crédito Agrícola e foi assessor de um Secretário de Estado do Tesouro do governo de Passos Coelho - Joaquim Pais Jorge (que se demitiu um mês após tomar posse por causa do escândalo dos swaps). O fiscal único da fundação, que foi o procurador da ex-imperatriz junto dos notários no processo de constituição legal, é André Figueiredo, também ele sócio da PLMJ, onde coordena as áreas da banca e mercado de capitais.
Até agora, a fundação tem servido essencialmente para recolher donativos para financiar atividade futura. As únicas atividades públicas anunciadas no seu site foram um concerto em Los Angeles em 2023 e uma exposição no ano passado em Paris da coleção de arte de Farah Pahlavi, que tem residência fiscal no Mónaco.
Na mesma entrevista, a ex-monarca exilada diz que a primeira coisa que faria se pudesse voltar ao Irão era levar as cinzas do marido. Atribui a queda do regime aos muitos inimigos do Xá: “de um lado, os comunistas, que queriam destruir a monarquia, e do outro os religiosos, que condenaram todas as reformas que estavam a ser feitas”. Sobre a polícia secreta, as prisões, torturas e execuções dos adversários do regime, ou os gastos sumptuosos dos monarcas, responde que “nunca disse que não cometemos erros, mas não havia esse excesso de que fomos acusados”. Na entrevista concedida após o levantamento contra o atual regime — provocado pela morte de Mahsa Amini numa esquadra para onde foi levada por não usar corretamente o véu islâmico — disse que “a única coisa que posso fazer é mandar mensagens de apoio e dar entrevistas. O meu filho está a trabalhar intensamente pela liberdade no Irão, mas sobre esse assunto ele é que deve falar”.
“Esta é a melhor oportunidade para nos livrarmos do regime”
O seu filho, neste caso o mais velho, é Reza Pahlavi, residente nos Estados Unidos. Em reação aos bombardeamentos israelitas dos últimos dias, o homem que reclama um trono que deixou de existir em fevereiro de 1979 declarou que “esta é a melhor oportunidade para nos livrarmos do regime” e que está em conversações para instalar um governo interino.
Logo após a posse de Donald Trump, em janeiro, Reza Pahlavi escreveu uma carta ao presidente dos EUA a dizer que este tinha a oportunidade de “ir além dos inovadores Acordos de Abraão”, assinados no mandato anterior e que normalizaram as relações entre Israel e países árabes como os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos. Isso significaria “unir Israel, as nações árabes e um Irão livre” e assim “transformar o Médio Oriente e o Mundo”.
Em maio, Reza Pahlavi elogiou o primeiro mandato de Trump por aumentar a pressão sobre o regime e criticou a administração Biden por ter recuado nessa pressão. O monarca diz que os exemplos fracassados de “mudança de regime” à força pelas armas dos EUA no Afeganistão e no Iraque não se aplicam no caso iraniano. “Os iranianos não têm nenhuma animosidade para com os estadunidenses”, prometeu Pahlavi. O monarca que fugiu do país quando era adolescente diz acreditar que a “geração Z iraniana está alinhada com os valores ocidentais”.
O homem que Netanyahu quer ver à frente do Irão
Num discurso feito em setembro do ano passado na conferência do Israeli-American Council, Reza Pahlavi apelou aos israelitas nos EUA para que financiassem os movimentos de desobediência civil no Irão. “Penso que uma parceria estratégica com um país como Israel oferece uma enorme quantidade de oportunidades para a partilha de conhecimentos tecnológicos. Uma das razões da minha deslocação a Israel [em abril de 2023] foi explorar as possibilidades de utilizar os seus conhecimentos especializados na gestão da água para a agricultura”, disse na altura à Voice of America.
Meses antes da visita a Israel, numa entrevista ao canal israelita i24, Pahlavi defendeu a inutilidade da diplomacia, pois a ameaça nuclear iraniana ia manter-se enquanto o regime estiver de pé. Por isso, eliminar o regime seria no seu entender “um cenário win-win: os iranianos serão libertados e o mundo ficará aliviado por não ter de lidar com essa ameaça”.
A visita oficial a Israel contou com um encontro de Reza e da esposa Yasmine com o casal Netanyahu, onde o monarca elogiou “o apoio continuado de Israel às aspirações democráticas do povo iraniano” e esperou que “irá chegar em breve o dia em que a nação iraniana e Israel desfrutarão de relações normais e de um intercâmbio cultural, científico e económico mutuamente enriquecedor e benéfico”.
A análise do think-tank israelita Jerusalem Center for Security and Foreign Affairs destacou a presença junto de Pahlavi durante a sua estadia no país da ministra de Informações Gila Gamliel, que tinha a tutela dos serviços secretos e no mesmo ano defendeu a “emigração voluntária” da população de Gaza.
Luta pelo poder na oposição passou por ataques à Nobel da Paz presa pelo regime
Se a visita de Reza a Israel foi criticada pelos governantes iranianos, acabou por ser Yasmine a provocar polémica junto dos opositores aos aiatolás, ao publicar nas suas redes sociais uma foto de uma militar israelita em Jerusalém Leste com a legenda “Mulher, Vida, Liberdade!”. Segundo a Al Jazeera, outros acompanhantes do monarca na visita a Israel foram o seu conselheiro Amir Etemadi e Saeed Ghasseminejad, funcionário do think-tank sionista Foundation for Defense of Democracies, ambos adeptos de ataques militares a Teerão e que também usaram as redes sociais para apelar à morte da Palestina.
Outra das polémicas a envolver Yasmine, que apoia publicamente o genocídio israelita em Gaza, foi o ataque à vencedora do Prémio Nobel da Paz, Narges Mohammadi, ativista pelos direitos das mulheres e presa política no Irão. A pretendente a princesa do Irão insinuou que Narges seria uma marioneta do regime, o que explicaria ter podido dar uma entrevista telefónica a Angelina Jolie a partir da prisão. Os ataques à Nobel da Paz foram replicados pelos monárquicos iranianos, que invadiram as redes sociais do comité Nobel com mensagens que repetiam que ela não representa o povo do Irão, ao contrário do homem a que chamam rei. O discurso de ódio obrigou a academia sueca a desativar os comentários.
Ao contrário dos Pahlavi, Narges Mohammadi opõe-se às sanções sobre o seu país, que considera terem fortalecido os elementos da linha dura do regime.