Israel começou esta guerra, não a vergonhosa e terrorista República Islâmica do Irão. O regime brutal, militarizado e de apartheid de Israel continua a violar o direito internacional — e países como os EUA e o Reino Unido estão a apoiar ativamente Israel nas suas ações.
Muitos países europeus estão a divulgar notícias como se não tivessem informação clara do Irão, quando já existem inúmeros vídeos e imagens da guerra no Telegram, Instagram, BBC Persian e outros. De certa forma, estão a inverter a história, fazendo parecer que Israel é a vítima nesta guerra.
Estamos a falar sobre a vida de 90 milhões de pessoas, que viveram sob opressão durante 43 anos e nunca deixaram de lutar pela sua liberdade. É preciso distinguir o povo iraniano do seu regime e dos seus apoiantes, que constituem menos de 10% da sociedade. O povo iraniano não quer esta guerra. Não quer este regime nem o desastre que ele provocou: assassinatos, corrupção, inflação, sanções e milhares de atos de incompetência e, agora, a guerra.
O mundo tem de finalmente ver-nos, não como inimigos, mas como vítimas de dois regimes violentos.
Os ataques israelitas aconteceram quando o regime do Irão tinha finalmente concordado em negociar com os EUA sobre o acordo nuclear. Israel assassinou muitos dirigentes do regime, pessoas que a maioria dos iranianos odeia. O povo iraniano vive aterrorizado, ouvindo bombas, vendo nuvens de fumo e explosões no céu.
Estamos profundamente preocupados de que o que aconteceu em Gaza — como ataques a hospitais e locais cheios de civis — possa também acontecer aqui. Israel não tem qualquer direito de visar tais locais por qualquer motivo.
É absurdo dizer “evacuar Teerão”. Para além dos bens financeiros e culturais, estamos a falar das vidas de 12 milhões de pessoas. Para onde devem elas ir? Muitos iranianos não têm casas noutras cidades nem podem pagar renda por um período indefinido. Estão a sugerir que morram só porque são pobres?
Outra preocupação é que, se os locais nucleares forem atingidos e houver fuga de materiais perigosos, poderemos enfrentar uma catástrofe pior do que Chernobyl ou Hiroshima.
Israel atacou enquanto os seus cidadãos tinham os abrigos prontos, mas o povo do Irão não teve aviso, nem sistema de defesa, nem locais onde se esconder, porque durante 43 anos os EUA e Israel disseram que atacariam o Irão e nunca o fizeram. As pessoas não esperavam uma guerra real. Quando havia esperança num futuro melhor através de um acordo nuclear, Israel lançou o ataque.
E o regime no Irão? Deliberadamente não fez qualquer plano para proteger as pessoas. Eles não se importam se civis morrerem, pelo contrário, beneficiam disso. Quando pessoas inocentes morrem, esperam que se inflame o ódio contra Israel e que isso ajude o regime a reconquistar o apoio público que há muito perdeu. Vivemos sob uma ditadura corrupta que nem sequer divulga o número real de vítimas. Mentem ao mundo e ao seu próprio povo. Este é o mesmo governo que derrubou um avião de passageiros (o voo PS752) sobre a sua própria capital, matando 176 pessoas inocentes, e que depois tentou encobrir o crime.
Mas a verdade mais importante é esta: o povo do Irão NÃO é este regime. A maioria dos iranianos, especialmente os jovens, opõe-se fortemente a este governo. Querem liberdade, paz, democracia e dignidade e não a guerra e nem a ditadura religiosa.Já provámos isto vezes sem conta. Aqui estão apenas alguns exemplos:
• Em 1999, estudantes protestaram pela liberdade de expressão. Dezenas foram mortos, centenas presos.
• Em 2009, milhões marcharam após uma eleição fraudulenta. Centenas foram assassinados, milhares torturados e presos.
• Em 2017–18, eclodiram novamente protestos. O regime matou centenas, mais uma vez.
• Em Novembro de 2019, após um aumento súbito no preço dos combustíveis, os protestos espalharam-se por todo o país. O regime cortou a internet e matou mais de 1 500 pessoas em apenas alguns dias. Milhares foram presos, torturados, ficaram cegos ou foram executados.
• Em 2022, o regime assassinou Mahsa Amini por não usar o hijab corretamente. Os protestos eclodiram novamente. Mais de 500 pessoas foram mortas, incluindo crianças. Mais de 20 000 foram presas. Muitas foram torturadas, violadas ou condenadas à morte.
Ainda assim, o mundo ignora-nos.
Milhões de nós marcharam no estrangeiro — em Berlim, no Canadá, e noutros locais — protestos pacíficos que receberam pouca cobertura mediática. Entretanto, os media ocidentais focaram-se nos extremistas mais barulhentos, embora sejam uma minoria ínfima.
O nosso pedido ao mundo foi sancionar os Guardiões da Revolução (IRGC) e os líderes do regime, e designá-los como terroristas, na esperança de que essa pressão pudesse melhorar a situação. Mas responderam-nos facilmente que “não há provas suficientes” — isto, enquanto durante anos foram os iranianos comuns, não o governo, que sofreram as mais duras sanções impostas por essas mesmas potências estrangeiras. Só esmagaram o povo.
Os líderes do IRGC e do regime enriquecem, mas as pessoas não têm medicamentos, vacinas, nem importações de bens essenciais. As pessoas morrem por falta de insulina, quimioterapia ou antibióticos.
Nós não somos o Talibã. Não somos o ISIS. Somos uma nação refém.
E sejamos honestos: o regime islâmico não nasceu da vontade dos iranianos. Foi um presente amaldiçoado do Ocidente. Khomeini foi transportado de Paris para o Irão por avião, aclamado pelos media ocidentais. Há vídeos e até documentos confidenciais da CIA recentemente divulgados. O regime que hoje sofremos foi criado com ajuda ocidental.
E agora? Enquanto Israel continua o seu genocídio brutal em Gaza — matando muitos civis, incluindo crianças, bloqueando a ajuda humanitária e mantendo presença militar no Iémen e na Síria, os vossos títulos de notícias concentram-se numa obsessão com o domingo arruinado de um israelita porque não conseguiu ir à praia. Estão a brincar? (referindo-se ao NOS holandês). Em Gaza, milhares de pessoas inocentes foram dizimadas. E temos medo de que o mesmo nos aconteça.
Sim — o Hamas e o IRGC cometeram crimes. Mas deixem de fingir que o governo israelita é inocente. Deixem de agir como se Israel fosse apenas uma vítima. Os governos — do Irão e de Israel — são assassinos. As verdadeiras vítimas são os civis inocentes — no Irão, em Israel e em Gaza.
Somos milhões. Não somos o vosso inimigo. Somos prisioneiros. E o vosso silêncio mantém-nos acorrentados. Quem serão os próximos alvos?
Gian é uma ativista iraniana refugiada em Portugal.