Irão

Feministas condenadas a prisão, manifestante executado

09 de agosto 2024 - 10:18

Os grupos de defesa dos direitos humanos falam em tortura para extrair “confissões” e em julgamentos sem garantias de defesa. Num só dia, o sistema judicial iraniano executou 29 presos, elevando a 345 o número de execuções só este ano.

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Protesto contra execuções no Irão.
Protesto contra execuções no Irão. Foto de David Shankbone/Wikimedia Commons.

Onze mulheres e um homem que faziam parte de um grupo feminista iraniano na província de Guilan foram condenadas a penas de prisão que, no total, somam 60 anos.

Na mesma província, noutro caso, a ativista dos direitos dos trabalhadores, Sharifeh Mohammadi, de 44 anos, tinha sido condenada à morte no início de julho por “rebelião armada contra o poder islâmico”. Outra mulher, Pakhshan Azizi, jornalista e militante curda, foi condenada à morte em meados do mês passado pelo “tribunal revolucionário de Teerão”.

No caso do grupo feminista, as prisões tinham ocorrido em agosto de 2023. Este funcionaria sobretudo pelo Telegram para ajudar famílias de pessoas mortas ou presas pelo regime iraniano na sequência das manifestações de setembro de 2022 causadas pela morte em detenção de Mahsa Amini que tinha sido presa por usar o véu de forma considerada incorreta.

Em Março, a primeira delas, Zohreh Dadras, tinha sido condenada a nove anos e seis meses de prisão por “fundar um grupo com o objectivo de minar a segurança nacional” e por “reunião e conluio”. Depois foi a vez de outras oito, Forough Saminia, Sara Jahani, Yasmin Hashdari, Shiva Shahsiah, Negin Rezayi, Matin Yazdani, Azadeh Chavoshian e Zahra Dadras, serem condenadas a seis anos e três meses de prisão por “reunião e conluio” e “pertencerem a um grupo [dissidente].” Finalmente, Jelveh Javaheri e Houman Taheri, o único homem do grupo ficaram a saber que vão passar um ano na prisão por “propaganda” contra a República Islâmica do Irão.

De acordo com o Le Monde, nos últimos meses, “os serviços secretos do Irão, auxiliados pelo poder judicial, têm levado a cabo uma campanha de assédio e repressão contra os ativistas dos direitos das mulheres”, tentando prevenir uma nova onda de protestos agora que se aproxima o segundo aniversário do assassinato de Mahsa Amini. Isto apesar da vitória nas eleições presidenciais do “reformista” Masoud Pezeshkian contra a linha mais dura do regime.

O jornal francês acrescenta que várias delas contaram que foram vítimas de maus tratos na prisão. Falam de tortura, prisão psicológica e violência sexual nas detenções antes do julgamento que teriam como finalidade tentar extorquir “confissões”.

Execução secreta de manifestante esta quarta-feira

O mesmo se passou no caso Gholamreza Rasaei, um homem na casa dos trinta anos que tinha sido preso durante os protestos de 2022. Os grupos de defesa dos direitos humanos dizem que foi alvo de tortura e que a sua “confissão” de ter morto um coronel da “guarda revolucionária” durante o movimento foi obtida através de tortura.

Na madrugada desta terça-feira, secretamente, tornou-se no décimo manifestante daquele movimento a ser executado. Só depois o sistema judicial do país tornou pública a morte e a família foi avisada, tendo sido obrigada a enterrar o corpo numa área remota longe da sua casa, de acordo com a Amnistia Internacional.

O curdo, pertencente à minoria religiosa iarsanista, foi alvo, de acordo com esta organização de defesa dos direitos humanos de um “julgamento grosseiramente injusto que se baseou nas “confissões” forçadas obtidas sob tortura e outros maus tratos, incluindo espancamentos, choques elétrico, sufocamento e violência sexual”.

No dia seguinte, esta quarta-feira, houve pelo menos mais 29 execuções, 26 das quais em grupo na prisão de Ghezelhesar em Karaj. As acusações não tinham, ao que se conhece, motivações diretamente polícias sendo casos de assassinato, tráfico de drogas ou violação. Ao todo, já terão sido executadas 345 pessoas no país este ano.