Ksenia Kagarlitsky apela à solidariedade com os presos políticos russos anti-guerra

30 de março 2024 - 12:23

A filha do marxista e sociólogo russo Boris Kagarlitsky, condenado a a cinco anos de prisão na vaga repressiva de Putin, fala da campanha internacional pela libertação do seu pai e dos restantes presos políticos russos.

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Boris e Ksenia Kagarlitsky
Boris e Ksenia Kagarlitsky.

Pouco tempo depois de o Presidente russo Vladimir Putin ter lançado a sua invasão total da Ucrânia, em fevereiro de 2022, as autoridades russas puseram a mira no académico socialista Boris Kagarlitsky, de 65 anos.

Em poucas semanas, o regime de Putin classificou oficialmente Kagarlitsky como "agente estrangeiro". A medida não só impôs inúmeras restrições aos seus direitos básicos, como também enviou uma mensagem clara a um dos mais destacados - e dos últimos que restam - críticos de esquerda contra a guerra na Rússia.

"Toda a gente sabe que o passo seguinte a ser rotulado de agente estrangeiro é ser preso", disse-me Kagarlitsky em julho de 2022.

"Rotularam-me de agente estrangeiro, imagino que com a intenção de me obrigarem a sair, mas eu não vou sair."

Embora tenha demorado algum tempo, as autoridades deram finalmente esse passo em fevereiro, quando ordenaram que passasse os próximos cinco anos na prisão.

É por isso que a filha de Boris, Ksenia Kagarlitsky, juntamente com outras pessoas dentro e fora da Rússia, está a liderar uma campanha global para exigir a libertação do seu pai.

No centro da campanha está uma petição - assinada por políticos, intelectuais, sindicalistas e muitos outros de todo o mundo [incluindo vários portugueses]  - que exige a libertação de Boris e de todos os presos políticos anti-guerra e apela às "autoridades da Federação Russa para que revertam a sua crescente repressão da dissidência".

Ao entrevistar Ksenia para a Green Left, perguntei-lhe porque é que o seu pai não aproveitou a oportunidade para deixar o país enquanto podia. "A razão pela qual ele decidiu ficar é porque está inocente", disse Ksenia. "Ele acredita firmemente que, como russo a viver na Rússia, porque é que tem de deixar o seu país se está inocente?

"Isto pode ser difícil de compreender, mas a menos que se seja o tipo de pessoa [que Boris é], nunca se compreenderá as suas convicções."

Foram essas convicções que levaram Kagarlitsky a permanecer na Rússia e a transformar o Rabkor, a revista online de esquerda que editava, numa importante voz de oposição à guerra.

Durante todo este processo, teve sempre o cuidado de evitar os censores - o que não é fácil num país onde é ilegal referir-se ao que o regime apelida de "operação militar especial" na Ucrânia como uma guerra.

Mas em julho de 2023, Kagarlitsky foi finalmente preso e detido por alegadamente "justificar o terrorismo". As acusações forjadas relacionavam-se com comentários inócuos feitos nove meses antes sobre o bombardeamento da ponte da Crimeia, que foram posteriormente desenterrados por um vereador local do partido Rússia Unida de Putin e levados ao conhecimento das autoridades.

Considerado culpado em dezembro, Kagarlitsky foi inicialmente condenado apenas a uma multa. Dois meses mais tarde, porém, um tribunal militar de recurso concordou com a acusação de que a sentença original de Boris era "excessivamente branda" e mandou-o para a prisão.

Perguntei a Ksenia porque é que ela achava que Boris tinha escapado inicialmente apenas com uma multa, uma vez que o regime de Putin está longe de ser conhecido pela sua excessiva clemência.

"Penso que a razão pela qual foi condenado a uma multa no primeiro julgamento é a mesma razão pela qual não foi preso muito antes, quando a guerra começou: porque tem muitos apoiantes em diferentes lados da política - na oposição e no governo".

Ao multá-lo, "penso que [as autoridades] pensaram que lhe estavam a dar uma oportunidade de sair do país. Toda a gente pensa isso".

"Mas quando viram que ele não ia sair, decidiram atirá-lo de novo para a prisão. A multa não era suficiente para a ditadura".

Kagarlitsky está atualmente preso no Centro de Detenção n.º 12 da cidade de Zelenograd. De acordo com Ksenia, "as suas condições são melhores do que eram antes. Inicialmente, foi colocado numa cela com 15 pessoas, mas a sua cela atual tem menos pessoas.

"No entanto, é preciso sublinhar que estamos a falar das condições de alguém que está na prisão apesar de estar inocente".

Boris está longe de ser a única pessoa inocente na prisão por questionar a guerra. Na altura da sua detenção, cerca de 21.000 pessoas já tinham sofrido represálias pelas suas opiniões contra a guerra, incluindo mais de 2.000 detidos, segundo a Amnistia Internacional.

Estes números só têm aumentado desde então.

Quanto à forma como o seu pai está a lidar com esta provação, Ksenia disse: "Durante todo o processo, ele manteve-se positivo. Ele é sempre positivo, independentemente das circunstâncias. Ele é assim".

Este otimismo refletiu-se numa nota que Boris enviou aos seus apoiantes através do canal Telegram da Rabkor quando recebeu a sua sentença de cinco anos.

Uma parte dizia assim: "Tenho a certeza de que tudo vai correr muito bem. E que nos voltaremos a ver no canal e em liberdade... Só precisamos de viver um pouco mais e sobreviver a este período sombrio para o nosso país".

Quanto à campanha, embora reconheça que o foco está no seu pai, Ksenia sublinha que se trata de uma luta pela libertação de "todos os presos políticos anti-guerra".

Boris escreveu em abril do ano passado: "Se queremos acabar com a perseguição política na Rússia e noutros países do mundo, temos de lutar por todos".

A petição já foi traduzida em 18 línguas e obteve mais de 8000 assinaturas em duas semanas, um indicador do nível de apoio que a campanha já obteve.

Ksenia disse: "O que toda a gente pode fazer agora, por todos os presos políticos contra a guerra, é assinar a petição".

Outra forma importante de ajudar é através de um donativo para a campanha. "Todas as campanhas precisam de angariar fundos, uma vez que envolvem muitos recursos para que se concretizem e se tornem verdadeiramente mundiais".

Ksenia também incentivou os apoiantes a organizarem eventos, como os que coordena no Montenegro com outros exilados russos, para escreverem coletivamente cartas aos prisioneiros políticos anti-guerra e lerem as suas respostas.

Esta atividade tornou-se popular entre os exilados russos e aqueles que, dentro da Rússia, querem expressar os seus sentimentos anti-guerra de uma forma menos suscetível de ser punida pelas autoridades.

Apesar das circunstâncias, Ksenia mantém o seu otimismo: "Esta campanha é uma oportunidade para todos fazerem parte de uma grande campanha de solidariedade e demonstrarem ao governo russo que somos muitos".

"Este é o momento em que a esquerda - e não apenas a esquerda - precisa de mostrar a sua solidariedade para com os presos políticos."


Federico Fuentes é ativista da Campanha Internacional de Solidariedade com Boris Kagarlitsky e pode ser contactado em [email protected]. A Green Left convida os leitores a assinarem a petição em change.org ou freeboris.info. Também é possível fazer um donativo para a campanha. Artigo publicado na Green Left. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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