Entrevista

“Isto é feito com toda a frieza”. Sindicato critica despedimento na Teleperformance

16 de outubro 2025 - 16:24

A Teleperformance despediu mais de 240 trabalhadores em Portugal de forma brusca, através de um vídeo gravado. José Abrantes, dirigente do SINTTAV, fala ao Esquerda.net sobre este processo.

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Teleperformance
Fotografia de Ana Mendes.

Na passada terça-feira, foi noticiado um despedimento de mais de 240 trabalhadores pela Teleperformance. Os visados foram informados por videoconferência do CEO da empresa e ficaram de imediato sem acesso à rede informática que usam para o trabalho. Entre os alvos do despedimento coletivo estão trabalhadoras grávidas e de baixa, bem como trabalhadores de chefias intermédias em com alguns anos de casa

O Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual (SINTTAV) acompanha o caso e José Abrantes, dirigente do sindicato e trabalhador da Teleperformance, fala ao Esquerda.net sobre este despedimento e sobre a situação concreta da empresa.

Como é que o SINTTAV tem acompanhado o caso desde o início?

Ao fim da tarde de sexta-feira, foi-nos solicitada uma reunião online por parte da Teleperformance para segunda-feira logo ao início da manhã desse dia. Aceitámos porque para estarem a enviar um pedido para reunir com o sindicato tão em cima da hora é porque deveria ser algo urgente. Foi uma reunião muito curta e da parte da Teleperformance só estava presente o advogado da empresa. Foi-nos comunicado então que a Teleperformance iria recorrer a um processo de despedimento coletivo.

E indicaram quantos trabalhadores seriam despedidos?

O advogado da Teleperformance indicou-nos que seria para abranger pouco mais de 200 trabalhadores. E que os motivos pelo qual, na ótica da empresa, seria necessário o despedimento coletivo seria a reestruturação para controlar custos no contexto da incerteza no atual panorama empresarial. A Teleperformance em Portugal é muito grande. Para termos noção, em Portugal emprega 15.000 pessoas e quisemos saber quais eram os tipos de contratos que estavam inseridos neste processo coletivo e foi-nos informado que não seriam apenas agentes. Os agentes são os trabalhadores de base, pessoas que normalmente trabalham nos call centers a atender ou fazer chamadas ou a fazer tarefas normais de backoffice. Portanto, o despedimento envolve pessoas das chefias intermédias e até pessoas do nível sénior.

Portanto, o despedimento coletivo foi transversal e teve como alvo trabalhadores de várias áreas diferentes.

Exato. É uma empresa muito grande, e desses 15.000 trabalhadores que emprega em Portugal, mais de metade são trabalhadores estrangeiros, que vêm nas mais variadas nacionalidades viver e trabalhar em Portugal. É uma empresa de alto outsourcing, que os clientes contratam para ser seus representantes. Clientes que vão desde as maiores marcas das big tech até à área da banca e seguros.

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Como é que o SINTTAV se posicionou face ao facto de os trabalhadores terem sido notificados do seu despedimento numa videoconferência?

Há aqui várias dimensões. Neste caso, uma delas é a dimensão, à falta de melhor palavra, moral. Que é, como é que os trabalhadores em questão envolvidos neste processo foram informados através de um vídeo previamente gravado pelo CEO, que os informa que se estão a ver este vídeo é porque estão envolvidos no processo. Não tem nada que ver contigo pessoalmente, não tem nada que ver com questões de produtividade ou falta dela. Foram selecionados e nos próximos dias serão convocados para ir pessoalmente às instalações da Teleperformance, a fim de ser apresentadas todas as condições deste processo. Isto é feito com toda a frieza. Em segundo lugar, os trabalhadores ficaram logo sem acesso ao sistema da empresa, isso está relacionado com as regras de compliance. Até aí, tudo bem. Mas tudo isto é muito brusco para uma pessoa que, por exemplo, possa trabalhar há mais de dez anos na empresa. Portanto, independentemente do tempo que a pessoa tenha na empresa ser maior ou menor, o facto de ser informado desse modo, com essa frieza, com essa brusquidão, à falta de melhor palavra, deixa logo qualquer pessoa nervosa e até com algum sentimento de culpa.

Achas que este processo de despedimento coletivo é sintomático da forma como as grandes empresas lidam com o despedimento coletivo em Portugal?

Este processo prova várias coisas. Em primeiro lugar, que é muito fácil em Portugal fazer um processo de despedimento coletivo. E o governo atual pretende fazer uma alteração profunda à lei do trabalho, que em muitas medidas facilitam estes processos. Estamos a falar de uma empresa multinacional, presente nos cinco continentes, em mais de 90 países, que emprega praticamente meio milhão de pessoas no mundo inteiro. Em Portugal, pode fazer um processo de despedimento coletivo apenas alegando aquilo que está no próprio Código de Trabalho, que é a necessidade de reestruturação devido a alterações de mercado. O fundo da questão aqui, a par de qualquer outra situação mais legalista, é que já é fácil despedir em Portugal. E prova também como empresas destas, que veem possivelmente a sua margem de lucro baixar daquilo que seria expectável na ótica dos acionistas e da administração, poderem recorrer a esta figura. Na minha ótica, uma empresa só deveria poder fazer um despedimento coletivo em situação de insolvência.

Nos últimos dois anos, a Teleperformance teve uma greve histórica e teve processos de luta mais dinâmicos. Que balanço é que se faz desses processos em relação a este despedimento?

A greve de que falas foi mesmo uma greve histórica. Na Teleperformance em Portugal nunca tinha havido uma greve daquela dimensão. Nesse seguimento, com muitos altos e baixos, o diálogo entre sindicato e Teleperformance tem existido. Isto demonstra que até essa greve, pelo menos, a Teleperformance sempre teve muito cuidado com a sua imagem cá para fora. E este despedimento mostra que esta atual administração já não se preocupa com isso. Porque era impossível abafar um processo desta dimensão. Já tinham saído chamuscados anteriormente, por causa dos motivos que levaram à greve de fevereiro de 2024. E agora eles próprios ainda dão mais esse passo negativo. É importante também que se diga que a Teleperformance, ainda em 2023, adquiriu uma das empresas chamadas concorrentes, que era a Majorelle. Isso nota uma força financeira muito grande.

O SINTTAV já disse que quem tem responsabilidades de governação deve usar essa responsabilidade para governar e decidir a favor de quem trabalha. Em que é que isso se traduz?

Na rejeição da contrarreforma laboral. Há uma necessidade de reforma laboral, mas não é esta que o Governo pretende fazer.