"Devido às suas declarações [de Guterres], iremos recusar a emissão de vistos a representantes da ONU", afirmou o embaixador de Israel nas Nações Unidas à rádio do exército. "Já recusámos o visto para o subsecretário para os Assuntos Humanitários, Martin Griffiths. Chegou a altura de lhes darmos uma lição", acrescentou Gilad Erdan, que na véspera tinha pedido a demissão de António Guterres, acusando-o de justificar o terrorismo.
No seu discurso, o secretário-geral da ONU voltou a defender o cessar-fogo para permitir a entrada urgente de ajuda humanitária à população de Gaza. Guterres lembrou que "os ataques do Hamas não surgiram do vazio", tendo em conta que "o povo palestiniano tem estado sujeito a 56 anos de ocupação sufocante", e contrapôs que "as queixas do povo palestiniano não podem justificar os terríveis ataques do Hamas e estes não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”.
Nas redes sociais, o líder parlamentar do Bloco de Esquerda comentou as declarações do diplomata israelita, considerando que "há uma deriva irracional do Governo de Israel que quer "dar uma lição" à ONU, demitir António Guterres e negar vistos a representantes e funcionários da ONU".
"Quando a ONU passa a inimiga, quais são os valores que se pretendem impor ou as atrocidades que se querem cometer?", questiona Pedro Filipe Soares.
Esta quarta-feira, a agência da ONU para os Refugiados na Palestina (UNRWA) afirma que quase 600 mil deslocados procuraram abrigo nas 150 instalações da agência em Gaza. "Os nossos abrigos estão quatro vezes acima da sua capacidade e muitas pessoas estão a dormir nas ruas por causa da sobrelotação das instalações". 40 destas instalações já foram alvo dos ataques israelitas, acrescenta a UNRWA.
A Organização Mundial de Saúde também divulgou esta quarta-feira ter registado 171 ataques a instalações de saúde na Faixa de Gaza desde o dia 7 de outubro, ataques que provocaram 493 mortes, entre elas as de 16 profissionais de saúde em serviço nas instalações atacadas.
UNICEF confirma morte de 2.360 crianças em Gaza
Na véspera, a UNICEF alertou para as consequências devastadoras dos ataques à Faixa de Gaza, confirmando a morte de 2.360 crianças e os ferimentos em outras 5.364. Nos últimos 18 dias, "quase todas as crianças da Faixa de Gaza foram expostas a acontecimentos e traumas profundamente angustiantes, marcados por uma destruição generalizada, ataques implacáveis, deslocações e graves carências de bens essenciais como alimentos, água e medicamentos", sublinha a organização em comunicado.
"A UNICEF apela urgentemente a todas as partes para que cheguem a um cessar-fogo, permitam o acesso humanitário e libertem todos os reféns. Até as guerras têm regras. Os civis devem ser protegidos - especialmente as crianças - e devem ser feitos todos os esforços para os poupar em todas as circunstâncias", afirmou a diretora regional para o Médio Oriente e Norte de África.
"A situação na Faixa de Gaza é uma nódoa crescente na nossa consciência coletiva. A taxa de mortes e ferimentos de crianças é simplesmente aterradora", acrescentou Adele Khodr, concluindo que "a menos que as tensões sejam aliviadas e a menos que a ajuda humanitária seja autorizada, incluindo alimentos, água, suprimentos médicos e combustível, o número diário de mortes continuará a aumentar".