Lóbi das “big tech” convenceu Bruxelas a esconder impacto ambiental dos centros de dados

17 de abril 2026 - 12:33

Uma cláusula de confidencialidade inscrita da diretiva de eficiência energética segue à letra a proposta da Microsoft e outras companhias para não revelar as emissões de cada data center nos países da UE.

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Data center
Foto de Andrew.T@NN/Flickr

Uma investigação do consórcio de jornalistas Investigate Europe revela como a Microsoft e o grupo de lóbi DigitalEurope, que inclui a Amazon, Google e Meta, conseguiram incluir uma cláusula de confidencialidade na legislação europeia para manter em segredo informação sobre o impacto ambiental dos centros de dados.

Especialistas consultados pelos jornalistas, como o professor Jerzy Jendrośka, com 19 anos de experiência na comissão de supervisão da Convenção de Aarhus, que garante a transparência no acesso à informação ambiental, afirmam que esta cláusula não respeita a comissão e que nunca viu um caso que se possa comparar. O mesmo diz Bram Vranken, do Corporate Europe Observatory, apontando mais um exemplo de uma indústria que usa o seu lóbi para desenhar a legislação europeia. O ex-presidente do Tribunal Constitucional belga também está convicto de que a cláusula viola a Convenção de Aarhus e as regras de transparência da UE. Por seu lado, a Microsoft afirma que apoia maior transparência sobre os data centers e que irá dar passos para a aumentar, protegendo a confidencialidade da informação comercial.

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por

James Görgen

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Na primeira revisão da diretiva de eficiência energética, em 2023, os donos dos data centers eram obrigados a reportar dados como o uso de energia e água. Uma emenda posterior propunha que esses dados fossem tratados de forma agregada e não individual. Mas quando abriu o processo de consulta pública, o lóbi das “big tech” interveio para recomendar que a informação individual fosse tratada como confidencial e mantida em segredo mesmo que houvesse requerimentos ao abrigo das regras europeias de acesso à informação. A recomendação entregue pela Microsoft foi transcrita na íntegra para o texto final proposto pela Comissão.

A Comissão Europeia chegou mesmo a avisar os Estados-membros no ano passado que estes eram obrigados a manter em segredo toda a informação e indicadores de desempenho individual de cada centro de dados.

Desta forma, só é possível conhecer os dados do conjunto de centros de dados em cada país e não de cada um em concreto.

Nos próximos cinco anos, a UE pretende triplicar o número de centros de dados para acompanhar a procura da inteligência artificial, em investimentos que rondam os 176 mil milhões de euros. Mas o uso intensivo de energia, as emissões poluentes e a ameaça aos habitats e comunidades tem feito crescer a oposição a estes projetos.