Os últimos dias na Faixa de Gaza têm sido marcados pelo frio e tempestades com chuva forte que destruíram milhares de tendas. As organizações humanitárias calculam que mais de um milhão de pessoas estejam a viver nestes abrigos, após as suas casas terem sido arrasadas pelos bombardeamentos israelitas dos últimos dois anos.
O regresso da entrada da ajuda, tal como prometido no texto do cessar-fogo assinado pelo governo israelita e o Hamas, nunca passou do papel. Os materiais de construção são retidos a pretexto de poderem ser usados para a reconstrução dos túneis do Hamas e muito material necessário aos hospitais também não entra com o argumento de que pode ser usado para fins militares.
Mas o final do ano trouxe ainda piores notícias para a população de Gaza, com o governo de Israel a anunciar que irá impedir a atividade de dezenas de organizações de ajuda humanitária no terreno já a partir de 1 de janeiro, dando-lhes 60 dias para fechar as operações não só em Gaza mas também na Cisjordânia. Em causa estão as novas regras impostas pelo executivo de Netanyahu, que obrigam as ONG a entregar ao ocupante dados pessoais detalhados dos seus funcionários locais para verificar “ligações ao terrorismo”.
Palestina
Nos montes da Galileia, as celebrações natalícias reavivam uma aldeia palestiniana despovoada
Samah Watad
As ONG em causa, que incluem os Médicos Sem Fronteiras, a ActionAid, o International Rescue Committee, a Care Internacional e os ramos locais da Caritas e Oxfam, contestam a decisão dizendo que além de violar as leis europeias de proteção de dados também põem em causa a segurança dos palestinianos que com elas trabalham.
Desde há muito que as organizações de apoio aos refugiados palestinianos são um alvo do governo de Israel e as acusações que agora faz aos Médicos Sem Fronteiras de ter empregado duas pessoas ligadas ao Hamas e à Jihad islâmica são semelhantes às que fez à agência da ONU para os Refugiados, a UNRWA. O Parlamento israelita aprovou na segunda-feira uma lei que obriga as companhias de água, eletricidade, comunicações e bancos a não prestarem serviços à UNRWA, após ter proibido o seu trabalho em Israel, isto apesar de a agência ter sido ilibada pelo Tribunal internacional de Justiça da acusação de falta de imparcialidade.
10 países alertam para situação catastrófica
Numa declaração conjunta, os ministros dos Negócios Estrangeiros do Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Islândia, Japão, Noruega, Suécia, Suíça e Reino Unido deram conta das suas “sérias preocupações com a renovada deterioração da situação humanitária em Gaza, que continua catastrófica”.
“Com a aproximação do inverno, os civis em Gaza enfrentam condições terríveis, com chuvas fortes e temperaturas em queda. 1,3 milhão de pessoas ainda precisam de apoio urgente para abrigo. Mais de metade das instalações de saúde estão apenas parcialmente funcionais e enfrentam escassez de equipamentos e suprimentos médicos essenciais. O colapso total da infraestrutura de saneamento deixou 740 mil pessoas vulneráveis a inundações tóxicas”, dizem os ministros, recorrendo a um relatório deste mês que aponta que a maioria da população de Gaza continua em situação de insegurança alimentar aguda.
“Embora a quantidade de ajuda destinada a Gaza tenha aumentado desde o cessar-fogo, a resposta continua severamente limitada por obstáculos persistentes ao acesso humanitário”, denunciam os governos. O comunicado apela ao Hamas que entregue rapidamente os restos mortais do único refém que ainda não devolveu e que o movimento se desarme e renuncie à violência no quadro da resolução do Conselho de segurança da ONU em apoio ao pleno para o fim do conflito.
Ao governo israelita, os dez países apelam a que assegure que as ONG internacionais podem trabalhar em Gaza “de forma sustentada e previsível”, criticando a iniciativa de banir algumas delas. “Isso teria um impacto grave no acesso a serviços essenciais, incluindo cuidados de saúde. Uma em cada três unidades de saúde em Gaza fechará se as operações das ONG internacionais forem interrompidas”, avisam.
Os governos querem também o fim à limitação da atividade das agências da ONU como a UNRWA na entrega da ajuda humanitária, o levantamento das restrições à entrada de material de uso médico, abrigos, e que sirva à reconstrução de infraestruturas críticas, bem como a abertura das passagens que continuam encerradas e que assim também limitam o fluxo da entrada da ajuda, como é o caso da passagem de Rafah.
“A meta de 4.200 camiões por semana, incluindo uma alocação de 250 camiões da ONU por dia, deve ser um mínimo, não um máximo. Essas metas devem ser aumentadas para que possamos ter certeza de que os suprimentos vitais estão a chegar na escala necessária”, defendem os governos dos dez países, instando Israel a cumprir o acordo que assinou.