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Israel invade e encerra sedes de grupos palestinianos de direitos humanos

Para tentar silenciar as denúncias sobre as atrocidades cometidas por Israel, o regime de Yair Lapid rotulou estas organizações de “terroristas”. A acusação foi rejeitada pela comunidade internacional, face à ausência de qualquer fundamento.
Foto de Ana Mendes.

Mais uma vez, Israel alegou que os grupos palestinianos de direitos humanos alvo de perseguição têm ligações com a Frente Popular para a Libertação da Palestina. Este foi o argumento mobilizado para justificar a invasão, nesta quinta-feira, das suas sedes. As autoridades israelitas arrombaram as portas, mexeram nos artigos, confiscaram material e selaram as entradas, proibindo a sua atividade.

Shawan Jabarin, diretor da al-Haq, um dos grupos visados, lembrou que estas acusações não são novas e que “Israel não conseguiu convencer nem mesmo os seus amigos”.

Ainda que as Nações Unidas, União Europeia, Estados Unidos e outros estados reconheçam que não existe qualquer fundamento para sustentar estas acusações, o gabinete do ministro da Defesa israelita, Benny Gantz, reiterou na quarta-feira que os grupos “operam sob o pretexto de realizar atividades humanitárias para promover os objetivos da organização terrorista FPLP, fortalecer a organização e recrutar agentes”.

A par da fundação al-Haq, foram igualmente visadas as organizações Associação de Direitos Humanos e de Apoio aos Presos – Addameer, o Centro de Investigação e Desenvolvimento Bisan, o Defesa para Crianças Internacional-Palestina (DCI-Palestine), a União dos Comités de Mulheres Palestinianas; o Sindicato das Comissões de Trabalho Agrícola e o Centro de Investigação e Desenvolvimento de Bisan.

"Israel não quer que ninguém o responsabilize pelos seus crimes”

Jabarin, citado pela Associated Press, garantiu que a al-Haq manterá a sua atividade: “Não recebemos permissão de nenhum oficial militar ou político israelita. Estamos a prosseguir, encorajados pela nossa crença na responsabilidade e na lei internacional”.

A al-Haq, criada em 1979, dedica-se a documentar violações de direitos humanos por parte de Israel e da Autoridade Palestiniana. Tahkeem Alyan, diretor de programas da fundação, afirmou, em declarações ao Middle East Eye, que o ataque do exército e a apreensão de materiais importantes eram "esperados à luz da contínua incitação israelita contra as instituições palestinianas, que visa demonizá-las e cortar a sua comunicação com o mundo".

Alyan referiu ainda que a al-Haq tem sido alvo de perseguição por parte das autoridades israelitas há muito tempo, mas que os ataques agravaram-se a partir do momento em que a fundação começou a enviar relatórios sobre as ações de Israel ao Tribunal Penal Internacional.

"Israel não quer que ninguém o responsabilize pelos seus crimes e ser levado a julgamento, e é isso que o incomoda e o motiva a tomar essa ação contra a instituição", frisou.

O diretor de programas da al-Haq também assegurou que a organização reabriu as suas portas e continuará a trabalhar.

A Defense for Children International-Palestine foi criada em 1990 com o objetivo de fornecer serviços jurídicos a crianças perante os tribunais militares israelitas.

Após 10 anos de trabalho, passou a documentar violações contra crianças palestinas por forças israelitas, especialmente detidos.

Ayed Abu Qutaish, diretor do programa de prestação de contas da DCI-Palestine, criada em 1990 com o objetivo de fornecer serviços jurídicos a crianças perante os tribunais militares israelitas, explicou ao Middle East Eye que o objetivo do governo israelita é silenciar as organizações de defesa dos direitos humanos e impedi-las de continuar “a documentar as violações da ocupação israelita contra os palestinianos e comunicá-las ao mundo". Abu Qutaish acrescentou que o exército está a rotular os grupos como organizações terroristas e a demonizá-los diante do mundo para separá-los da solidariedade internacional e do apoio que recebem.

Esta mesma ideia é reforçada pelos advogados dos grupos de direitos humanos, que são perentórios ao afirmar, em comunicado, que "Israel continua a perseguir grupos palestinianos de direitos humanos e da sociedade civil com o claro objetivo de silenciar qualquer crítica contra ele”.

“O esforço é liderado por um ministro da Defesa, Benny Gantz, suspeito de cometer crimes de guerra, numa tentativa de aterrorizar aqueles que vão testemunhar contra ele e as suas ações”, escrevem.

No mês passado nove países europeus – Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Holanda, Espanha e Suécia – anunciaram que continuarão trabalhando com estas organizações palestinianas porque Israel não conseguiu provar a sua acusação.

Grupo israelita B'Tselem solidário com organizações palestinianas

Em comunicado citado pelo Middle East Eye, o grupo israelita de direitos humanos B'Tselem disse estar solidário “com as organizações da sociedade civil palestinianas atacadas esta manhã pelo exército israelita".

"As falsas acusações contra eles foram rejeitadas pela União Europeia, Estados Unidos e outros estados", lê-se no documento.

"Continuaremos a trabalhar com os nossos colegas das ONGs palestinianas para desmantelar o regime do apartheid”, garante o B'Tselem.

O grupo acrescenta que o regime israelita “considera a repressão violenta uma ferramenta legítima para controlar os palestinianos, mas define a atividade civil não-violenta como terrorismo".

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