A recente turbulência no Irão marca a quarta grande onda de protestos desde 20171. Desencadeada por comerciantes em Teerão que fecharam as suas lojas em protesto contra a forte queda da moeda, a agitação logo se espalhou por todo o país, atraindo uma ampla gama de pessoas—de estudantes a empresários e a população urbana mais pobre—que entraram em confronto com autoridades estatais cada vez mais repressivas. Nas três semanas após as primeiras manifestações, a turbulência pareceu apenas intensificar-se: um apagão na internet, um número crescente de mortos e a aparente infiltração dos protestos pela Mossad, além de ameaças de bombardeamentos e de mudança de regime por parte de Washington.
Então, em questão de dias, o ímpeto perdeu força e o governo pareceu recuperar o controlo por meio de uma “estratégia sistemática para cercar e desgastar o movimento de protesto”, como descreveu um analista no Financial Times. Por enquanto, parece que o establishment religioso permanecerá no poder: a oposição interna não é forte o suficiente para derrubá-lo e os EUA não estão dispostos a arriscar uma intervenção significativa neste momento.
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Human Rights Activists in Iran – HRANA
A repressão, no entanto, não fez nada para resolver as origens da agitação, que residem na economia política e na estrutura social do país. Estas foram remodeladas, nas últimas décadas, por duas forças principais: a neoliberalização do Estado pós-revolucionário desde o início da década de 1990 e a expansão dramática das sanções internacionais desde 2012. Esses processos reconfiguraram os modelos de acumulação do Irão e permitiram que um grupo restrito de atores — principalmente o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) e as fundações religiosas revolucionárias conhecidas como bonyads — consolidasse o poder.
Para os demais iranianos, entretanto, as condições deterioraram-se. A desigualdade e a pobreza estão a aumentar e a precarização e a repressão salarial são omnipresentes. O sistema de bem-estar social foi corroído, a classe média foi esvaziada e uma camada crescente de jovens com formação técnica está desempregada ou subempregada. O resultado é uma crise secular de legitimidade, que agora irrompe rotineiramente. A seguir, mostrarei como profundas transformações político-económicas criaram o contexto para os eventos deste mês e questionarei o seu significado para o futuro do regime iraniano. Abalado internamente e ameaçado externamente, quais são suas hipóteses de sobrevivência?
Estado de bem-estar-bélico
Após o derrube do Xá em 1979, as forças islâmicas, leais ao carismático ayatollah Khomeini e apoiadas por uma ampla parcela da população, passaram a esmagar os seus rivais revolucionários, usando métodos violentos para reprimir comunistas, liberais nacionalistas e minorias nacionais. O recém-criado Estado revolucionário islâmico tinha três poderes principais: o Líder Supremo, o Presidente e o Primeiro-Ministro. Embora o Presidente fosse eleito diretamente pelo povo, o verdadeiro poder executivo estava nas mãos do Primeiro-Ministro, que liderava o governo.
Esse aparato governamental passou a traçar uma agenda económica com dois objetivos principais: alcançar a independência dos Estados Unidos e redistribuir a riqueza para promover justiça social aos “oprimidos” (mostazafan). Uma vez que a nacionalização era considerada essencial para a implementação do projeto, o Conselho Revolucionário lançou uma onda de aquisições estatais, confiscando e redistribuindo os bens das antigas elites. Esses ativos foram classificados como propriedade governamental (dolati), administrada diretamente pelos ministérios do Estado, ou como propriedade pública (omumi), subordinada à autoridade do Líder Supremo.
Os ativos dolati — que abrangiam desde bancos privados e seguradoras até indústrias pesadas — passaram, assim, a ser controlados por ministérios revolucionários recém-criados, como Petróleo, Minas e Metais, Indústria e Indústria Pesada, todos integrantes do poder executivo, com líderes nomeados pelo primeiro-ministro. Os ativos omumi, no entanto, foram transferidos para fundações conhecidas como bonyads: órgãos nominalmente públicos que operavam sob a autoridade pessoal do líder supremo e, portanto, estavam totalmente fora da supervisão do governo. Essas bonyads — como a Fundação Mostazafan, a Fundação dos Mártires, o Comitê de Ajuda ao Imã Khomeini, a Fundação Quinze Khordad e Setad (Execução da Ordem do Imã Khomeini) — tinham como objetivo declarado promover a causa da justiça social, elevando os mostazafan.
A autonomia em relação ao governo e o acesso a recursos das bonyads permitiram que essas instituições crescessem rapidamente. Durante a Guerra Irão-Iraque, suas atividades expandiram-se para abranger esforços de ajuda humanitária e reconstrução em grande escala. Em poucos anos, elas transformaram-se em monopólios semipúblicos em franca expansão, que exerciam influência económica e social significativa. Isso resultou numa divisão faccional no bloco de poder revolucionário.
De um lado, havia os burocratas que controlavam as empresas estatais sob a autoridade dos ministérios do governo. Essa fação estatal-burocrática defendia a subordinação dos direitos de propriedade individual aos interesses do Estado, tal como os concebiam. Politicamente, essa perspetiva era representada pela esquerda islâmica. Do outro lado, havia o grupo que se uniu em torno dos bonyads, com estreitos laços institucionais e sociais com a tradicional classe de comerciantes do bazar. O nexo bonyad-bazar favorecia uma interpretação conservadora da lei islâmica e das atividades beneficentes, e resistia à ampliação da intervenção governamental nos seus assuntos econômicos. Essa fação era representada pela direita tradicional.
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Ambas as fações disputavam o apoio das classes subalternas, reivindicando para si o cumprimento das promessas da revolução. No entanto, embora a revolução tivesse substituído os antigos governantes, não alterou de forma significativa a política de industrialização por substituição de importações (ISI) do Xá. A economia do Irão continuava fortemente dependente das indústrias nacionais produtoras de bens de consumo, que, por sua vez, precisavam de tecnologia e materiais importados para bens intermediários e de capital. Não demorou para que esse modelo enfrentasse sérios problemas. O conflito com o Iraque forçou o Irão a desviar grande parte da receita do petróleo para o esforço de guerra, ao mesmo tempo em que promovia uma redistribuição maciça de riqueza para os pobres, por meio de racionamentos de alimentos, subsídios em dinheiro e acesso mais amplo aos serviços públicos. O resultado foi a formação de um Estado de bem-estar-bélico (“welfare-warfare state”) expansivo, sem uma base económica sólida para sustentá-lo.
Com a infraestrutura petrolífera do país danificada pela agitação política e pelas sanções dos EUA, gerar divisas suficientes para financiar as importações tornou-se uma tarefa difícil. A produção agrícola ficou estagnada, a capacidade industrial foi subutilizada e o desemprego aumentou significativamente. O PIB real per capita caiu 46% entre 1976 e 1989. A crise de acumulação de capital levou um grupo poderoso da fação estatal-burocrática, liderado por Hashemi Rafsanjani, a defender a liberalização dos mercados e a integração à economia global do pós-Guerra Fria como única alternativa viável. Para isolar os burocratas ainda comprometidos com a ISI, Rafsanjani e seus aliados formaram uma forte aliança com o eixo bonyad–bazar e, a partir do início dos anos 1990, conseguiram marginalizar a esquerda islâmica e redirecionar completamente a política económica.
A viragem neoliberal
O primeiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento do Irão, aprovado em junho de 1990, marcou o início dessa era neoliberal. Sob o comando de Rafsanjani, que governou até 1997, e do seu sucessor Mohammad Khatami, cujo mandato durou até 2005, o país adotou uma série de políticas pró-mercado. As múltiplas taxas de câmbio que vigoravam para diferentes setores e transações foram substituídas por uma taxa única, baseada no mercado. O setor financeiro foi reestruturado, os preços foram racionalizados e os subsídios à energia foram gradualmente reduzidos para aliviar as pressões orçamentais. Procurou substituir-se as barreiras não tarifárias por tarifas e reduzir tarifa média, em conformidade com as normas emergentes da OMC. Reformas legais e institucionais foram introduzidas para atrair investimento estrangeiro direto; a Bolsa de Valores de Teerão foi reaberta e um conjunto de políticas foi desenhado para promover as exportações não petrolíferas.
Embora a privatização tenha sido apresentada como o pilar central dessa nova estratégia, ela sempre avançou de forma limitada. Procurou abrir-se parcialmente setores industriais sob controlo estatal às multinacionais ocidentais, com o objetivo de atrair capital, tecnologia e acesso a mercados para sustentar uma industrialização orientada para a exportação. Sob a presidência de Hashemi Rafsanjani, foram vendidas 391 empresas estatais; a maioria, contudo, foi simplesmente transferida para empresas de investimento do setor bancário e para fundos de pensão que se apresentavam como grupos empresariais não governamentais. Esses grupos vieram a tornar-se alguns dos maiores conglomerados diversificados do país, controlando dezenas de holdings e centenas de subsidiárias. Mohammad Khatami acelerou essa tendência ao privatizar outras 339 empresas e autorizar novas empresas privadas em setores competitivos. Além disso, mais de uma centena de empresas desmembradas da Companhia Nacional de Petróleo Iraniana foram constituídas como companhias formalmente privadas, que continuaram a operar com capital estatal.
Em vez da privatização total, portanto, o Irão viu a proliferação de empresas “semiprivadas”: subsidiárias de ministérios e organizações governamentais, muitas vezes ligadas a burocratas e seus familiares, que conseguiam fechar acordos com forças poderosas do governo. O resultado não foi o desmantelamento do controle estatal, mas sim sua reconstituição por meio de uma rede de conglomerados semiprivados. Isso permitiu que as elites políticas e burocráticas consolidassem seu poder sob o pretexto da reforma do mercado. O resultado foi a mutação da fação revolucionária estatal-burocrática original, que se transformou em uma nova fação ocidentalizada da elite. A sua principal preocupação era integrar o Irão nas redes financeiras, comerciais e institucionais das economias da OCDE, principalmente da Europa Ocidental e da América do Norte. Ela encontrou representação política na Nova Direita, particularmente no Partido dos Servos da Reconstrução, bem como em partidos reformistas como a Frente de Participação e a Organização Mujahidin do Povo Iraniano.
O complexo militar-bonyad
Ainda assim, a ascensão da fação orientada ao Ocidente logo esbarrou em rivais de peso. O regime neoliberal era novo, mas diversas instituições-chave da antiga ordem permaneceram intactas. O eixo bonyad-bazar manteve a sua influência e escapou da agenda de privatizações. O CGRI também reforçou o seu papel tanto no Estado quanto na sociedade civil, participando na reconstrução e noutras atividades económicas no rescaldo da guerra com o Iraque. Nem mesmo Khatami foi capaz de conter o poder desses atores autónomos — cuja orientação para o Oriente colidia com o programa estatal de abertura ao Ocidente. Essas forças enraizaram-se ainda mais após a ascensão de Mahmoud Ahmadinejad ao poder, em 2005, desencadeando uma profunda inflexão na economia política iraniana, que enfraqueceu politicamente tanto a direita tradicional quanto a nova direita.
Ex-comandante do CGRI, Ahmadinejad tinha laços estreitos tanto com a Guarda Revolucionária quanto com as bonyads. Forças do aparato militar e de segurança compunham quase dois terços do primeiro escalão do seu governo, composto principalmente por ex-oficiais do CGRI e do Basij (força paramilitar vinculada ao CGRI). Ao incentivar a transformação das bonyads em grandes conglomerados, Ahmadinejad criou as condições para a expansão do seu papel económico. Esses novos conglomerados não deveriam ser exclusivamente orientados à obtenção de lucros, mas também contribuir para o desenvolvimento nacional, segundo uma abordagem explicitamente inspirada nas grandes estruturas corporativas do Leste Asiático. Iniciava-se, assim, uma nova e mais agressiva fase da privatização.
Isto foi viabilizado pela reforma do artigo 44 da Constituição de 1979. Essa norma previa que a economia do Irão era predominantemente controlada pelo Estado, relegando os setores cooperativo e privado a papéis periféricos. Uma reinterpretação do artigo, ratificada pelo líder supremo em 2004, redefiniu o papel do governo, substituindo a propriedade e a gestão direta por funções de formulação de políticas, supervisão e fiscalização. Dois anos depois, esse entendimento foi ampliado para autorizar “entidades e órgãos públicos não governamentais, bem como os setores cooperativo e privado” a investir, deter e administrar até 80% das ações de grandes indústrias estatais, incluindo bancos, seguros, energia, telecomunicações, transporte e até mesmo defesa. Com isso, o governo de Ahmadinejad passou a dispor de um arcabouço legal para transferir ativos estatais substanciais de ministérios do governo para empresas afiliadas ao CGRI e às bonyads.
Embora a lei ainda exigisse que ativos estatais fossem vendidos de forma competitiva na bolsa de valores, o governo alegou a ausência de interessados e sustentou, por isso, a necessidade de realizar transferências diretas por meio de um mecanismo conhecido como “liquidação de passivos”. Na prática, isso implicou a transferência de grandes empresas para os seus credores — muitos deles bonyads e empresas afiliadas ao CGRI. Apresentado como liquidação de dívidas, o procedimento operou, na prática, como uma efetiva transferência de ativos.
Ativos também foram transferidos por meio das chamadas “ações de justiça” (“justice stocks”), pelas quais o governo destinou 40% das ações de grandes empresas a famílias de baixo rendimento, veteranos de guerra, familiares de mártires e membros do Basij. Embora apresentadas como política redistributiva — com ações concedidas gratuitamente ou a preços fortemente subsidiados e liquidadas ao longo de dez anos por meio dos lucros das empresas —, a sua gestão permaneceu concentrada em instituições ligadas às bonyads, como o Imam Khomeini Relief Committee e a Mostazafan Foundation. Cerca de 49 milhões de pessoas foram declaradas elegíveis, e 30 empresas provinciais foram criadas para administrar o programa. A política de bem-estar funcionou, assim, como mais um vetor de transferência patrimonial, aprofundando a concentração de poder económico nas bonyads e no aparato militar.
Entre 2005 e 2013, o governo de Mahmoud Ahmadinejad transferiu ativos a um ritmo quase cinquenta vezes superior ao da privatização sob Khatami. Essa dinâmica foi apresentada como continuidade do mesmo impulso de “liberalização” das administrações anteriores. Os seus efeitos, contudo, foram inteiramente distintos. Em vez de realizar o projeto da fação orientada ao Ocidente — que buscava remodelar o Irão como uma economia neoliberal exemplar —, as reformas de Ahmadinejad consolidaram o poder de atores paraestatais tradicionalistas e ampliaram seu peso económico, permitindo que os elementos conservadores, orientados a Leste, dentro da República Islâmica assumissem a primazia.
O CGRI moveu-se rapidamente para explorar essa nova fase da privatização através da sua rede de empresas financeiras afiliadas. Grupos como a Sepah Cooperative Foundation, a Ansar Financial and Credit Institution e a Armed Forces Social Welfare Organisation asseguraram posições acionistas estratégicas na Bolsa de Valores de Teerão. A Sepah assumiu o controlo de grupos de investimento como a Tose’eh E’temād Mobin; a AFSWO incorporou dezenas de empresas; e a Ansar expandiu-se até se tornar uma rede de crédito com cerca de 600 agências, com aproximadamente seis milhões de clientes. Até mesmo o Basij — outrora uma força paramilitar de rua — reinventou-se como ator do mercado acionista2. As receitas de todas as empresas vinculadas ao CGRI permaneceram isentas de tributação e fiscalização, sob o pretexto de financiar iniciativas de combate à pobreza.
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As bonyads seguiram uma trajetória semelhante. A Mostazafan Foundation reduziu seu portfólio de empresas menores e reinvestiu em setores estratégicos, estruturando o Sina Bank e a Sina Financial and Investment Company. Com dez holdings principais e mais de 200 subsidiárias, consolidou uma presença robusta em setores como agricultura, energia, mineração, construção, serviços e finanças. Num movimento análogo de diversificação, a Imam Reza Shrine Foundation estendeu seu controlo para mais de 150 empresas e cerca de 400 mil hectares de terras, enquanto a Martyrs’ Foundation aprofundou seus vínculos políticos sob Ahmadinejad e expandiu suas atividades nos setores financeiro e industrial. O Setad transformou-se numa vasta holding, com um braço de investimentos que abrangeu finança, farmacêutica e agricultura. Para preservar seus privilégios de isenção tributária, a entidade alegou contribuir para o desenvolvimento rural.
Assim, o que se promoveu como privatização, caridade e desenvolvimento nacional correspondeu, na prática, à consolidação de um vasto império paraestatal. Por meio de liquidações de dívida, isenções fiscais e redes opacas, o CGRI e fundações aliadas converteram a retração do Estado em poder monopolista, borrando a fronteira entre bem-estar e predação. Nesse processo, marginalizaram seus aliados tradicionais: as classes de comerciantes do bazar. As sanções também contribuíram para a reconfiguração dessas relações de poder: forçado a contornar restrições comerciais, o Irão desenvolveu rotas de contrabando, o que permitiu ao CGRI explorar portos e aeroportos sob seu controlo.
No final dos anos 2000, a ascensão desses conglomerados e subsidiárias interligados deu origem a uma fação extremamente poderosa: o complexo militar-bonyad, cujos representantes políticos são conhecidos como Principalistas (“Principlists”). Enquanto a Direita Tradicional manteve seus vínculos com o bazar, este novo grupo passou a dominar tanto a classe dirigente quanto o aparato estatal, estabelecendo laços estreitos com o próprio líder supremo.
Sanções e geopolítica
Há certa sobreposição entre a fação orientada ao Ocidente e o complexo militar-bonyad: ambos ascenderam ao poder explorando instituições estatais para canalizar ativos públicos a conglomerados “semiprivados”, apagando, na prática, a fronteira entre capital estatal e privado. A linha divisória entre elas, contudo, está na orientação em relação ao capital internacional e à política externa. A fação orientada ao Ocidente defende a ampliação do papel das corporações multinacionais — em especial as europeias — em setores estratégicos dominados pelo Estado, entendendo essa via como a fonte mais viável de financiamento, tecnologia e acesso a mercados de exportação para o Irão.
Essa perspetiva tende, naturalmente, a orientar a política externa numa direção mais favorável ao Ocidente, como demonstram as administrações de Hashemi Rafsanjani, Mohammad Khatami e, posteriormente, de Hassan Rouhani. Ela também se articula a uma leitura mais “democrática” do Islã, que enfatiza o “pluralismo” e a “boa governança” como eufemismos para a integração na ordem mundial do pós-Guerra Fria. No interior dessa fação, o apoio a eleições livres e a reformas institucionais é maioritariamente tático, e não ideológico: trata-se, essencialmente, de conter o poder excessivo do complexo militar-bonyad, que se beneficia da estrutura híbrida da República Islâmica, na qual diversos órgãos não eleitos — o Judiciário, o Conselho dos Guardiães, as bonyads e as forças armadas — permanecem sob o controlo do líder supremo3.
O complexo militar-bonyad, por sua vez, apresenta-se como o guardião da revolução de 1979, argumentando que um maior engajamento com o capital ocidental ameaçaria o ideal revolucionário de “autossuficiência”. Rejeita, ainda, a ideia de que empresas estrangeiras trariam tecnologia ou reduziriam custos de produção e retrata as políticas favoráveis ao investimento estrangeiro direto como instrumentos de dominação ocidental. Diferentemente das administrações de Rafsanjani e Khatami, que buscaram uma reaproximação com a Europa e os Estados Unidos, o governo de Mahmoud Ahmadinejad adotou uma política externa orientada pela Segurança, concebida para limitar uma integração mais profunda com o Ocidente. Ahmadinejad minimizou as novas sanções de Washington como um “pedaço de papel sem valor”, enquanto o líder supremo as apresentou como uma oportunidade para fomentar a independência económica.
O complexo militar-bonyad também vê a ascensão económica da China e a crescente assertividade geopolítica da Rússia como uma rutura bem-vinda com o período de dominação norte-americana sem freios, abrindo novas possibilidades para que o Irão explore sua posição estratégica. A administração Ahmadinejad procurou convencer Pequim da importância das reservas energéticas iranianas, promovendo o país como o único fornecedor regional “independente e seguro”, fora da órbita dos EUA. À medida que o complexo militar-bonyad ampliou sua presença nas grandes obras públicas — construção, contratos, desenvolvimento e telecomunicações — e passou a dominar grandes projetos de infraestrutura, como ferrovias, rodovias e barragens, apresentou-se como parceiro ideal para o capital chinês, no contexto da Belt and Road Initiative. Para os Principalistas, um Oriente em ascensão aumenta as chances de sustentar um Estado revolucionário sob pressão.
Declínio
Desde a saída de Mahmoud Ahmadinejad do poder, essas duas fações continuam a disputar o poder. Em 2012, as sanções sem precedentes impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia aos setores energético e bancário do Irão reduziram drasticamente as exportações de petróleo, lançando o país numa crise que abriu caminho para a vitória presidencial do “reformista” orientado ao Ocidente Hassan Rouhani e para o início do Joint Comprehensive Plan of Action com a Casa Branca de Barack Obama. Com a eleição de Donald Trump, contudo, tornou-se evidente que havia pouca margem para apaziguar Washington, que passou a conduzir uma campanha de “pressão máxima” contra Teerão, com o objetivo de desestabilizar e, em última instância, derrubar o regime. Isso provocou uma inflexão do pêndulo político contra os reformistas, estreitando o controle do complexo militar-bonyad e acelerando a estratégia de “Olhar para o Oriente”. Essa reorientação culminou na assinatura, em 2021, de um Acordo de Cooperação de 25 anos com a China; na adesão à Shanghai Cooperation Organisation em 2023; na entrada nos BRICS em 2024; e na celebração, em 2025, de um Tratado de Parceria Estratégica de 20 anos com a Rússia. Embora o presidente em exercício, Masoud Pezeshkian, pertença ao campo orientado ao Ocidente, ele tem se mostrado incapaz (e pouco disposto) a reverter essa trajetória, em razão tanto do equilíbrio interno de forças quanto da escalada promovida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão.
Ainda assim, nem o bloco orientado ao Ocidente nem o orientado ao Oriente conseguiram concretizar os seus projetos de transformação económica. Desde o início, persiste uma contradição entre a preservação dos privilégios dessas elites governantes e a promessa original da revolução de apoiar trabalhadores e pobres, dilema que se agravou à medida que a economia passou a operar sob severas restrições externas. Grupos de interesse profundamente enraizados, associados tanto aos reformistas quanto aos conservadores, bloqueiam qualquer resolução desse dilema em favor da população em geral.
Em vez disso, ambos os blocos ficaram presos a um programa de neoliberalização que redistribuiu riqueza para o topo. Sob a bandeira da reforma de mercado, ativos estatais foram transferidos a conglomerados paraestatais. Sob a pressão das sanções, o acesso ao comércio, às finanças e à infraestrutura foi monopolizado por instituições protegidas da fiscalização. Sob os rótulos de “autossuficiência” e “resistência económica”, o poder coercivo fundiu-se com o privilégio econômico. O conjunto dessas dinâmicas produziu uma reconfiguração estrutural das classes subalternas.
A desregulamentação do mercado de trabalho deu origem a um precariado que hoje constitui o maior segmento da força de trabalho: se, em 1990, apenas 6% dos trabalhadores estavam empregados sob contratos temporários, esse percentual chegou a 90% no final dos anos 2000. Em 2021, impressionantes 97% dos trabalhadores tinham contratos com duração inferior a seis meses. A reestruturação económica também elevou de forma acentuada o desemprego, sobretudo entre jovens de 15 a 30 anos com formação universitária. Num país com uma idade mediana de 32 anos, este grupo representa a maior parcela da população. A participação desse contingente emergente no total de desempregados cresceu continuamente: de 10% em 2001 para 20% em 2005; de 42% em 2015 para mais de 50% ao final da década de 2010.
A situação de privação das camadas tradicionalmente pobres da população também continua a aprofundar-se. Os cortes de subsídios a alimentos básicos e energia, a inflação persistente e a desvalorização da moeda nacional incidiram de maneira desproporcional sobre domicílios em áreas rurais, em pequenas cidades e entre migrantes rurais nas grandes metrópoles. Ainda que parte dessas pessoas continue a ter acesso a algum tipo de bem ou serviço ligado às organizações do Estado de bem-estar, a erosão dos subsídios e do poder de compra comprometeu fortemente os seus padrões de vida. O resultado tem sido um aumento acentuado da desigualdade. Desde 1994, os 10% mais ricos da população auferem, em média, cerca de quinze vezes mais rendimento do que os 10% mais pobres, enquanto os 20% do topo apropriam-se de quase metade do rendimento total, contra apenas 5,5% para os 20% da base. No fim da década de 2010, estimativas oficiais indicavam que 25% da população vivia abaixo da linha de pobreza extrema (um número amplamente considerado subestimado).
Ao longo do período neoliberal, os trabalhadores iranianos participaram em greves e protestos, lutando contra demissões, contratos temporários e de curta duração, más condições de trabalho e salários baixos. Também eclodiram motins como resultado dos cortes nos subsídios, da inflação e da queda do padrão de vida. No entanto, após 2017, verificou-se uma mudança qualitativa e quantitativa na oposição iraniana, marcada por um aumento da agitação laboral e pela eclosão de quatro revoltas a nível nacional.
A primeira onda, conhecida como Dey, começou em Mashhad e durou de dezembro de 2017 a janeiro de 2018, impulsionada por um aumento repentino de 40% nos preços dos alimentos básicos. Em seguida, os protestos Aban de novembro de 2019 começaram na província de Khuzestan, após o anúncio repentino do governo de aumento nos preços dos combustíveis. A terceira onda, o movimento Mulheres, Vida, Liberdade, em setembro de 2022, foi iniciado no Curdistão após a morte de Mahsa Amini enquanto estava sob custódia da Polícia da Moralidade. E, finalmente, a onda mais recente começou em 28 de dezembro de 2025 no bazar histórico de Teerão, precipitada pelo colapso da moeda.
De revolta em revolta, vimos aumentos tanto no alcance geográfico dos protestos quanto no nível de sentimento antigovernamental. Enquanto os protestos de 2017 ocorreram em cerca de 75 cidades, os mais recentes espalharam-se por 200 locais em todas as 31 províncias do país. Paralelamente, a escala da repressão estatal aumentou, acompanhada por um bloqueio quase total das comunicações. Enquanto em 2017 houve cerca de 20 mortos e 4.000 presos, as estimativas para 2026 giram em torno de 3.300 mortos e 24.000 presos. A tendência ascendente sugere uma crise estrutural crescente, causada por décadas de neoliberalização, má gestão económica e sanções internacionais. Esses processos fortaleceram um complexo militar-bonyad irresponsável, desmantelaram as proteções sociais limitadas do Estado pós-revolucionário e produziram uma vasta e precária população de trabalhadores e jovens vulneráveis a choques económicos.
Cada onda de protestos — seja desencadeada por aumentos nos preços dos alimentos e dos combustíveis, pela brutalidade da Polícia da Moralidade ou o pelo colapso da moeda — expressou a frustração social reprimida. Cada uma delas foi mais ampla, mais dispersa geograficamente e mais diversificada socialmente do que a anterior. A resposta da República Islâmica demonstrou sua formidável capacidade coerciva que, por enquanto, parece ter conseguido recuperar as ruas. No entanto, a repressão por si só não pode restaurar a estabilidade nem garantir a viabilidade do regime a longo prazo.
Kayhan Valadbaygi é investigador no Instituto Internacional de História Social (IISH) em Amesterdão e diretor executivo da Middle East Risk & Reform Advisory. Artigo publicado em Phenomenal World. Tradução de Diogo Machado.
Notas:
1 Os fundamentos empíricos deste artigo foram extraídos do meu livro Capitalismo no Irão contemporâneo: acumulação de capital, formação do Estado e geopolítica (Manchester University Press, 2024; edição em brochura, janeiro de 2026)
2 O conglomerado de construção Ghorb, afiliado ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), exemplificou esse processo de ascensão. Em 2017, a Khatam al-Anbia Construction Headquarters afirmava ter concluído mais de 2.500 projetos, abrangendo rodovias, linhas de metro, barragens, hospitais e empreendimentos agrícolas. Longe de enfraquecer sua posição, o regime de sanções contribuiu para sua consolidação. Quando a Shell e a Total se retiraram do campo de South Pars, subsidiárias da Ghorb receberam contratos sem licitação. Oculta por uma densa rede de subsidiárias, empresas de fachada e entidades de carácter filantrópico, a real dimensão de suas operações é difícil de medir; ainda assim, estima-se que, já em 2010, a Ghorb controlasse mais de 800 empresas registadas.
3 Vale a pena notar que, ao contrário do que aconteceu durante a primeira década da revolução, as reformas constitucionais de 1989 aboliram o cargo de primeiro-ministro e concentraram o poder executivo na presidência.