Investimento de vistos gold triplicou em maio

10 de junho 2020 - 12:57

Em plena crise gerada pela pandemia de covid-19, o investimento dos vistos gold, concentrado no imobiliário, triplicou face ao ano passado. Maria Manuel Rola lembra que o potencial “de criminalidade, branqueamento de capitais e corrupção” destes vistos é há muito conhecido.

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O investimento, no valor total de  146.168.473,40 euros, corresponde a um aumento de 192% face ao mês anterior.
O investimento, no valor total de 146.168.473,40 euros, corresponde a um aumento de 192% face ao mês anterior. Fotografia de Paulete Matos.

O mês de maio observou um enorme aumento do investimento captado através dos vistos gold. O valor quase que triplicou face ao observado em maio de 2019, para 146 milhões de euros. As contas são da agência Lusa que se baseou em dados disponibilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

O investimento total feito no âmbito da concessão de Autorização de Residência para Investimento (ARI) durante o mês de maio de 2020 foi de 146.168.473,40 euros. Este valor torna-se ainda mais elevado quando comparado com os 50 milhões de maio de 2019, um aumento de 192%. Este é mesmo o valor mais elevado desde março de 2017, mês em que foram angariados 192,4 milhões de euros em ARI. 

Em plena crise causada pela pandemia de covid-19, o investimento de vistos gold atinge um dos maiores valores de sempre. 

“Este é um instrumento que já se tinha concluído que tem sido ruinoso para o país, principalmente em Lisboa. Num momento de crise os abutres espreitam, este crescimento vem validar esta teoria”, comentou Maria Manuel Rola, deputada eleita pelo Bloco de Esquerda.

“A autorização legislativa que a Assembleia da República deu ao Governo para que os vistos gold deixassem de influenciar tão negativamente as cidades mais densamente povoadas e nomeadamente Porto e Lisboa tem de ser urgentemente implementada”, defendeu, lembrando que este tipo de vistos “são reconhecidos pelo potencial de criminalidade, branqueamento de capitais e corrupção”.

Como exemplo, usou a situação vivida pelo centro social de Arroios, o Seara, para explicar a necessidade de “não deixarmos a cidade entregue a quem não quer saber dela e de quem aqui vive”. 

“Ontem conhecemos a face de coação e agressividade, em Lisboa assistimos à insensibilidade e aos crimes cometidos por um fundo imobiliário que despejou um espaço comunitário de apoio a pessoas em situação de sem abrigo com recurso a seguranças privados, sem autorização judicial. Há muita gente sem rendimentos e sem habitação para deixarmos a cidade entregue a quem não quer saber dela e de quem aqui vive”, defendeu.

Segundo a Lusa, nos primeiros cinco meses de 2020, o total do investimento captado por via dos vistos 'gold' totalizou 293.903.059,01 euros, menos 1,7% do que em 2019. Entre janeiro e maio, foram atribuídos 529 vistos 'dourados', dos quais mais de metade no mês passado.

Os valores de maio traduzem-se na concessão de 270 vistos gold. Destes, 257 foram por via da aquisição de bens imóveis, dos quais 73 para reabilitação urbana, e 13 através do critério de transferência de capital. Ainda segundo as contas da Lusa, a compra de bens imóveis totalizou 136,9 milhões de euros (a reabilitação urbana ascendeu a 26,2 milhões de euros) e a transferência de capitais 9,2 milhões de euros.

68 das concessões de vistos gold em maio foram a cidadãos provenientes da China, 30 do Brasil, 19 dos Estados Unidos, 19 da Índia e 17 da Turquia. A China, Brasil e Turquia são mesmo os países de origem das três principais nacionalidades a quem são concedidos vistos gold: 4.586, 925 e 418, respetivamente. No total, até maio foram concedidos 8.227 vistos 'gold' por via da compra de imóveis e atribuídas 14.936 autorizações de residência a familiares reagrupados.