“Impor a decência: Acesso à habitação acima do negócio ilimitado e de toda a especulação”

24 de fevereiro 2024 - 16:54

No Algarve, Mariana Mortágua frisou que as políticas públicas não podem sacrificar a maioria de um povo à custa de um negócio que vai para uma minoria, e sim garantir o acesso à habitação. Líder bloquista denunciou ainda como os milionários abriram a comporta para financiar os partidos da direita, que servem os seus interesses.

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Foto de Ana Mendes.

Num almoço em Boliqueime, Mariana Mortágua assinalou que o peso do turismo na economia no Algarve “traduz-se em muito emprego sazonal e em muito emprego mal pago”.

Nesta região, onde o salário médio é o mais baixo do país, os preços das casas são dos mais elevados de Portugal. Acresce que “a oferta de habitação é sazonal, e está desencontrada com atividade económica: quando há casa não há trabalho e quando há trabalho não há casa”, apontou a líder bloquista.

Às “vozes que seguem cartilha neoliberal ou liberal, que julgam que o problema da habitação se resolve construindo cada vez mais e em todo o lado”, Mariana Mortágua deixou um conselho: “Visitem qualquer um dos concelhos do Algarve, e vão encontrar construção contínua, por todo o lado, mesmo em áreas protegidas ambientalmente, mesmo em zonas saturadas de construção, e os problemas de acesso à habitação e de custo da habitação não se resolveram”, vincou.

A coordenadora do Bloco explicou que as casas construídas “não são para quem vive e trabalha no Algarve”, são para quem quer visitar o país por um curto período ou para fundos que consideram que ter casa nesta região é um investimento.

De acordo com Mariana Mortágua, se não se proteger o direito da habitação face à procura externa que “quer casas de luxo para especular, nem toda a construção do mundo pode garantir o acesso à habitação”.

“São precisas casas para viver, casas que os salários possam pagar”, vincou, assinalando que “há muitos setores económicos com potencial de investimento para apostarem o seu dinheiro” que não a habitação, bem como há muitos hotéis para acolherem os turistas”.

“As casas são para viver”, reforçou a dirigente bloquista. Mariana Mortágua realçou que “as políticas públicas têm uma responsabilidade, que não passa por sacrificar a maioria de um povo à custa de um negócio que vai para uma minoria”, e sim por “regular mercado de arrendamento e o mercado de compra e venda de casas através do preço do crédito, e assegurar direito constitucional Ao Governo cabe, conforme sublinhou a coordenadora do Bloco, “impor a decência: O acesso à habitação acima do negócio ilimitado e acima de toda a especulação”.

“O polvo de financiadores e da extrema-direita”

Mariana Mortágua lamentou que estas eleições estejam contaminadas “pela mentira e o ódio.

“Trump e Bolsonaro deram exemplo, e são imitados pela extrema direita, outros copiam o seu modelo em austeridade e liberalização económica”, apontou a líder bloquista.

“Liberais, Chega e toda a direita querem captar o Estado para empresas de saúde, entregar cidades ao turismo e criar verdadeira Disneylândias, que servem para quem não vive cá e são impossíveis para quem vive e trabalha neste país”, continuou.

Mariana Mortágua falou ainda sobre os “rios de dinheiro que correm de cofres milionários para partidos da direita, inclusive Chega e Iniciativa Liberal”.

A esse respeito, lembrou que o Chega nunca fez questão de referir, na comissão de inquérito à TAP, que recebia dinheiro dos acionistas privados da empresa, ou de esclarecer, no debate no Parlamento, que também era financiado por acionistas privados dos CTT que delapidaram o património da empresa.

Mas “o polvo de financiadores de André Ventura e da extrema-direita” não é exclusivo. A coordenadora do Bloco recordou, por exemplo, o financiamento da Iniciativa Liberal por parte do presidente da EDP, ou a doação de 600 mil euros que o instituto da IL recebeu, em dois anos, de dois empresários.

“O dinheiro jorra para os partidos clientelares. Os milionários abriram a comporta para financiar os partidos da direita”, enfatizou Mariana Mortágua.

“Não há vergonha e não há disfarce. Querem partidos a seu serviço e pagam-lhes à frente de quem queira ver”, acrescentou.

A dirigente do Bloco lembrou ainda as declarações de Pedro Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, que está “horrorizado com as candidaturas que só falam de impostos” e teme que Portugal seja “a Cuba da Europa”.

“A tradição de gente que gosta de dar pancada”

A par de uma das maiores fortunas do país, Pedro Soares dos Santos herdou de Alexandre Soares dos Santos “a tradição de gente que gosta de dar pancada”. Mariana Mortágua lembrou que o seu antecessor afirmou não gostar de sindicatos, pôs os trabalhadores a trabalhar no 1º de Maio, e apoiou o Governo de Passos Coelho durante a troika.

A coordenadora bloquista apontou que “os milionários querem proteger o seu privilégio”, e, por isso, sentem-se perturbados por haver quem defenda que os ricos paguem mais mais impostos que os outros, e quem defenda o fim dos benefícios fiscais injustificados aos ricos para pagar melhores salários.

Sobre Pedro Soares dos Santos reclamar para si o epíteto de criador de riqueza, Mariana Mortágua lembrou que o empresário ganha mais num ano do que trabalhador médio da empresa em 260 anos de trabalho e que o líder da Jerónimo Martins tem um “exército de trabalhadores mal pagos” e compra barato aos produtor e vende caro no supermercado. Ou seja, ao invés de criar riqueza, “tira à economia, aos agricultores, aos salários”.

“Vencer o esquecimento crónico” a que é sujeito o Algarve

O cabeça de lista do Bloco no Algarve, José Gusmão, falou sobre a “catástrofe da água” na região, sublinhando que, “no caso da seca, a desigualdade é a regra”.

Para o candidato, é preciso “resolver o problema da água e da desigualdade”, o que não passa pelos cortes cegos para famílias e agricultores impostos pelo Governo e poder local. José Gusmão considera que esta é uma medida “ineficaz e injusta”, cujo efeito é “penalizar as famílias, e particularmente as famílias com menores rendimentos”.

A par de medidas de emergência, o dirigente bloquista defende que é necessário “pensar o que fazer no futuro”, apostando num modelo económico compatível com a realidade ambiental do Algarve. Para tal, são preciso “escolhas corajosas e que responsabilizem aqueles que definem o modelo económico no Algarve”.

José Gusmão criticou a “política de ainda maior concentração de apoios” e aqueles que prometem investimentos e nunca os concretizam.

O candidato referiu ainda que o Algarve tem sido esquecido pelos poderes políticos e, principalmente, pelo Governo central, e que é preciso “vencer este esquecimento crónico” e garantir o necessário investimento estruturante.

“A porta que Abril abriu não pode ser encerrada”

Guadalupe Simões, segunda candidata nas listas do Bloco como independente, acredita que é preciso voltar a ter representação parlamentar do Bloco de Esquerda no Algarve, em defesa da região e dos algarvios.

“A porta que Abril abriu não pode ser encerrada”, vincou.

A enfermeira recordou o que o setor privado fez durante a pandemia da covid-19, recusando pessoas infetadas com o vírus, e defendeu que é preciso investir no Serviço Nacional de Saúde.

Pessoas que ficam à porta do Bloco operatório porque a intervenção não está contratualizada, pessoas que são recusadas pelo privado porque têm patologias complexas, foram alguns dos exemplos mobilizados por Guadalupe Simões para defender que o SNS é aquele que serve os interesses e as necessidades da população portuguesa.

Escolas transformadas em “depósitos a tempo inteiro para crianças”

João Afonso, quinto candidato, fez a defesa do investimento na Escola Pública. O professor explicou que o desinvestimento a que a Educação tem sido sujeita resultou, nomeadamente, “em profissionais desconsiderados e sem carreiras dignas e rácios absurdos, para não dizer abusivos”. João Afonso fez referência específica aos Assistentes Operacionais que, segundo defendeu, merecem ter uma carreira. Sobre os alunos estrangeiros, o candidato frisou que “não estamos a integrar, estamos a discriminar”.

De acordo com o professor, estamos a criar “depósitos a tempo inteiro para as crianças” e a apostar numa “escola uniformizada sem a riqueza do convívio entre alunos das diferentes classes sociais”. João Afonso alerta que a escola pública não está atualmente a assegurar condições e oportunidades iguais a todos os nossos alunos. “Se continuarmos a desinvestir na escola pública, a famosa função de elevador social que tantos apregoam deixará de existir”, realçou.

“Só maioria absoluta das esquerdas pode atacar problemas mais urgentes do país”

O mandatário da candidatura bloquista, António Branco, “sem qualquer experiência de militância político-partidária”, e que se considera “um independente de esquerda”, afirmou que o período em que teve “mais esperança na possibilidade de termos políticas públicas resultantes da convergência dos partidos que representam a esquerda no Parlamento foi o da geringonça”.

António Branco assinalou que o resultado do voto útil nas últimas eleições foi “uma maioria absoluta inesperada e indesejada”. Desse resultado tirou algumas conclusões. Por um lado, “a concentração de votos num só partido em nome do medo provoca resultados indesejados e elimina a riqueza e a produtividade à esquerda para definição de políticas públicas”.

Por outro lado, “a geringonça ensinou-nos que só uma maioria absoluta das esquerdas tem condições de desenvolver políticas públicas que ataquem os problemas mais urgentes do país”.

O mandatário da candidatura destacou ainda a mais valia de eleger José Gusmão pelo círculo eleitoral do Algarve, afirmando considerar que o mesmo tem uma “enorme qualidade humana e intelectual, está muito bem preparado e é incansável na defesa das políticas públicas que defendem o Estado Social e o ambiente”.