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Há 150.000 incêndios no mundo a deteriorar a qualidade do ar

Turquia, Grécia, EUA, Sibéria, por exemplo, sofrem mega-incêndios com consequências imediatas dramáticas e evidentes. Mas um especialista do CNRS avisa sobre outro tipo de consequências: como o fumo libertado afetada a saúde humana e a qualidade do ar e não só nos locais afetados.
Skepasti na ilha de Evia. Foto de PANAGIOTIS KOUROS/EPA/Lusa.
Skepasti na ilha de Evia. Foto de PANAGIOTIS KOUROS/EPA/Lusa.

Seria difícil escolher um local ou imagem que simbolize a vaga de incêndios atual. Na Sibéria, os incêndios duram há semanas, há uma imensidão de campos de cinzas no chão e o smog cobre cidades inteiras. É o terceiro ano consecutivo de temperaturas altas e mega-incêndios num local conhecido por ser frio. Mas este verão é o mais seco dos últimos 150 anos.

Na Grécia, a batalha contra as chamas chegou aos arredores de Atenas que está coberta de fumo. Milhares de pessoas tiveram de ser deslocadas nos subúrbios da capital. Há 56 incêndios ativos e o país atravessa a pior onda de calor em trinta anos. Na altura em que decorrem os Jogos Olímpicos em Tóquio, as imagens da zona à volta da antiga Olímpia, o local dos primeiros Jogos, que correm o mundo são de cinzas e animais mortos.

Na vizinha Turquia, há dez dias que se vivem “os piores fogos de sempre”, como o dizem as próprias autoridades. Estes afetam sobretudo o sudoeste do país. Dezenas de milhares de pessoas tiveram de ser evacuadas, 36.000 só na província de Mugla, onde um incêndio ameaça agora uma central elétrica que também já foi evacuada.

Nos EUA, as imagens icónicas são de Greenville, uma pequena cidade da zona montanhosa do norte da Califórnia. A zona central da cidade, criada na época da corrida ao ouro e constituída por muitos edifícios de madeira, foi devorada pelas chamas que destruíram igrejas, hotéis, museus, bares. Os 800 habitantes foram avisados a tempo e evacuaram o local. Também nos Estados Unidos, as ondas de calor se juntaram à seca e os incêndios também duram há semanas. Em 13 estados do país, mais de 20.000 bombeiros combatem 97 fogos.

Consequências globais

Há cerca de 15.000 incêndios ativos em todo o mundo, calcula o especialista em incêndios florestais Toussaint Barboni, do CNRS e da Universidade da Córsega, que adverte que o fumo daí resultante compromete a qualidade do ar e a saúde da população.

Em entrevista ao Libération, Barboni esclarece que “a frequência dos incêndios e a sua potência aumentam com as alterações climáticas”, que a sua sazonalidade também se altera, com o possível surgimento de fogos no inverno em alguns pontos, e que a área que é afetada também aumenta. Assim, há países que não estavam habituados nem preparados para lidar com incêndios que passaram a ser afetados.

E se o seu aumento é fruto das alterações climáticas, os incêndios também contribuem por sua vez para agravar este mesmo problema: “5% a 10% do CO2 lançado para a atmosfera está ligado aos fogos florestais”. São “entre 300.000 e 900.000 toneladas de fumaça de fogos florestais emitidos para a atmosfera todos os anos”.

Como o fumo destes incêndios pode deslocar-se milhares de quilómetros, há a possibilidade de degradar a qualidade do ar ou do solo em caso de chuva em locais longínquos. Mas “quer venha de perto ou de longe, o fumo é sempre perigoso”, sublinha o especialista. Isto porque os incêndios libertam gases com efeito de estufa como CO2, metano e óxidos de azoto e aerossóis: a fuligem contém partículas extrafinas com componentes que podem ser tóxicas. Aumento de risco de doenças cardiovasculares são um problema detetado num estudo canadiano. Os bombeiros, por estarem mais expostos e por mais tempo, arriscam ainda mais: “podem potencialmente desenvolver doenças como cancros”.

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