No passado domingo, o Governo israelita aprovou novas regras destinadas a reforçar o controlo sobre a Cisjordânia ocupada, que mereceram mais uma condenação verbal das autoridades palestinianas.
A presidência da Autoridade Palestiniana (AP), através do gabinete de Mahmoud Abbas, apelou aos Estados Unidos e ao Conselho de Segurança na ONU para intervir de imediato e denunciar uma decisão “perigosa” e uma “óbvia tentativa de Israel de legalizar a expansão dos colonatos” e a confiscação de terras. Já o grupo palestiniano Hamas apelou à população da Cisjordânia para “intensificar a resistência contra a ocupação e os seus colonatos”.
De acordo com os media israelitas Ynet e Haaretz, os novos passos incluem o fim das regras que impediam judeus de comprar individualmente terra na Cisjordânia ocupada. As medidas também preveem que as autoridades israelitas possam assumir a gestão de diversos locais religiosos, para além do aumento do controlo e supervisão em áreas dirigidas pela AP.
Estas medidas já estão a ser consideradas por responsáveis palestinianos citados pela cadeia televisiva Al Jazeera como as mais perigosas no caminho da anexação, e a decisão mais crítica desde 1967, quando Israel ocupou a Cisjordânia e Jerusalém leste.
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Assim, colonos israelitas poderiam garantir individualmente terras que historicamente têm permanecido sob controlo palestiniano, uma medida incluída nos moribundos e nunca respeitados Acordos de Oslo de 1993, assinados pela Organização de Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat e Israel.
Num cenário paralelo, o ministro das Finanças israelita, Bezalel Smotrich, expressão do sionismo mais extremista e do messianismo, já anunciou o início do planeamento para a construção do colonato E1, que irá cortar a ligação terrestre entre Jerusalém leste ocupada e a Cisjordânia ocupada, mais uma medida destinada a impedir a formação do “Estado palestiniano”, uma ambição cada vez mais longínqua.
“Vamos prosseguir a destruição da ideia de um Estado palestiniano”, disse Smotrich em recente declaração, em consonância com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Consideramos os colonatos como parte inseparável da política governamental de Israel”, acrescentou o ministro da Defesa, Israel Katz.
Ataques devastadores e coordenados
Nos últimos dois anos, e em particular desde finais de 2025, a violência dos colonos e das Forças de Defesa de Israel (IDF, Forças Armadas) intensificou-se drasticamente, com o objetivo de promover a limpeza étnica da Cisjordânia.
Em 27 de janeiro, ao início da noite, colonos judaicos lançaram um dos mais devastadores ataques dirigidos às comunidades palestinianas de Masafer Yatta, ao investirem sobre três povoações em simultâneo, no que foi definido como um nível de coordenação sem precedentes com as IDF.
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A destruição de casas, de veículos, de oliveiras, de armazéns com produtos agrícolas, de plantações, o roubo de animais, as mortes indiscriminadas, incluindo de muitos adolescentes, têm-se multiplicado. Em novembro passado, o gabinete do Alto comissariado da ONU para os direitos humanos referiu que tinham sido registados no mês anterior 260 ataques de colonos, um número superior a qualquer outro mês desde 2006.
Ainda em janeiro, a população de Ras Ein al-Auja foi totalmente expulsa de suas casas no Vale do Jordão. A ação foi conduzida por Zvi Sukkot, deputado do Knesset e um dos dirigentes da formação de extrema-direita Partido Religioso Sionista – Sionismo Religioso.
Os acontecimentos de Ras Ein al-Auja são o reflexo do crescente desespero das populações palestinianas que vivem na Cisjordânia ocupada (cerca de 3,3 milhões), e confrontados com uma expansão incontrolada dos colonatos ilegais.
Desde 7 de outubro de 2023, quando ocorreram os ataques armados do Hamas na periferia do enclave de Gaza, pelo menos 45 localidades palestinianas na Cisjordânia ocupada foram alvo de limpeza étnica, deixando mais de 2.700 pessoas sem as suas casas e terras. Uma atuação que não seria possível sem o ativo envolvimento do Estado israelita e das IDF.
Os militares israelitas coordenam o estabelecimento de postos avançados ilegais, e estão na linha da frente da limpeza étnica. Num encontro com Orit Strook, o ministro para os Colonatos e Missões Nacionais, o chefe de estado-maior das IDF, general Eyal Zamir, encorajou pessoalmente a construção de novos postos, base decisiva para que sejam erguidos novos colonatos.
De acordo com diversos media, incluindo o diário The Guardian, as IDF têm ainda armado colonos violentos através do designado programa unidades de defesa regionais, ignora o terror dos colonos, protege-os no decurso dos pogroms, e por vezes associa-se às violências.
Condenações de circunstância
Cerca de 750 mil colonos judaicos já estão instalados na Cisjordânia ocupada, mas recentemente seis conselhos regionais de colonatos instalados neste território ocupado apelaram abertamente ao envio de mais um milhão de colonos e a imposição da “soberania de Israel”.
Nos últimos dois anos e quatro meses, as forças de segurança israelitas e colonos armados já mataram mais de 1.100 palestinianos na Cisjordânia ocupada, incluindo em Jerusalém leste, e não incluindo os palestinianos que também morreram nas prisões israelitas. Entre as vítimas, mais de 220 crianças.
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Numa reação habitual, mas sem consequências práticas, a Arábia Saudita, Jordânia, Egito, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Turquia e Paquistão condenaram a decisão do gabinete israelita que autoriza as IDF a atuarem em áreas civis da Cisjordânia controladas pela Autoridade Palestiniana (AP), considerada uma imposição de “soberania ilegítima” que provocará “mais violência, o agravamento do conflito e colocará em perigo a estabilidade e segurança regionais”. A União Europeia também se referiu a uma decisão “na direção errada”.
Na sequência dos acordos de Oslo, a Cisjordânia ocupada foi dividida em três Áreas (A, B e C). A primeira (18% do território) ficou sob controlo palestiniano, a segunda (22%) sob controlo conjunto israelo-palestiniano e a terceira (60%) sob controlo israelita.
Na sequência deste arranjo diplomático que deveria travar a implantação de novos colonatos, a Cisjordânia – que os palestinianos consideram parte integrante do de “Estado palestiniano” juntamente com Gaza e Jerusalém leste – permaneceu na sua maioria sob controlo militar direto israelita com uma limitada autonomia palestiniana em algumas áreas, governadas pela Autoridade Palestiniana (AP), apoiada pelo ocidente, muito dependente das decisões de Telavive e há muito assolada pela paralisia, o autoritarismo e a corrupção.
Com as recentes medidas do Governo, as autoridades israelitas poderão agora demolir casas nas Áreas B e C, que historicamente têm permanecido sob controlo palestiniano.
O mês de janeiro assinalou ainda o início da “Fase 2” do “plano de paz” de Donald Trump, que inclui o início da “reconstrução de Gaza”, a formação de um governo tecnocrático, e o desarmamento do Hamas.
Benjamin Netanyahu descoloca-se de novo a Washington esta semana para um encontro com Trump e no qual a ronda de conversações EUA-Irão será um dos temas a abordar, para além do designado “plano de paz” e do “Conselho de Paz”, que suscita crescente perplexidade.
Todas estas medidas permanecem muito indefinidas, mas avoluma-se os receios sobre a concretização de uma limpeza étnica paralela e dirigida a uma população palestiniana de mais de dois milhões que permanece num território totalmente arrasado.