1. O relatório “Desenvolvimentos na Economia dos Territórios Palestinianos Ocupados”
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) publicou o relatório TD/B/72/3 intitulado "Desenvolvimentos na Economia dos Territórios Palestinianos Ocupados", apresentado na 72ª sessão do Conselho de Comércio e Desenvolvimento, que decorre entre 24 e 28 de novembro de 2025.
O relatório constitui uma análise abrangente e devastadora do impacto socioeconómico do genocídio e destruição territorial cometido por Israel nos territórios palestinianos ocupados, especialmente em Gaza, desde outubro de 2023, contextualizando-o no âmbito de uma ocupação prolongada de 58 anos e de um processo de subdesenvolvimento, ou anti-desenvolvimento (“de-development”), que já leva mais de uma década e meia. O documento defende que os acontecimentos recentes aceleraram um colapso económico e humanitário sem precedentes, empurrando os Territórios Palestinianos Ocupados (TPO) "do subdesenvolvimento para a ruína total".
Os objetivos principais do relatório são documentar a escala da devastação económica e humanitária resultante da guerra imposta por Israel, quantificar o retrocesso económico dramático (que apagou décadas de progresso), analisar os mecanismos estruturais (orçamentais, financeiros e de restrições de movimento) que perpetuam a crise e alertar a comunidade internacional para a gravidade da situação e a necessidade de intervenção urgente e coordenada.
Este estudo da UNCTAD traça um quadro não de uma simples recessão económica, mas antes de uma destruição sistemática e acelerada da economia palestiniana, um processo que denomina de "anti-desenvolvimento". Os acontecimentos desde outubro de 2023 atuaram como um catalisador catastrófico, levando este processo à sua conclusão lógica e devastadora.
2. Colapso económico histórico e reversão de décadas de progresso económico
O colapso económico documentado não é uma recessão típica; é um desmantelamento deliberado, por parte de Israel, da capacidade produtiva e do potencial humano da Palestina. O relatório é categórico ao afirmar que no ano de 2024 a economia palestiniana sofreu o seu maior declínio de sempre. Os dados são esmagadores.
“O Banco Mundial estima que o colapso económico em Gaza está entre as contrações económicas mais significativas da história recente. Com base num índice de gravidade do conflito que avalia a profundidade do choque económico (medido pela queda do PIB real per capita do pico ao vale) e a duração da recuperação para os níveis do PIB per capita pré-crise, a crise na Cisjordânia e em Gaza é classificada como a décima crise económica mais grave a nível global desde 1960. Se se considerar apenas a crise em Gaza, ela é a mais grave de sempre com base no conjunto de dados do Programa de Dados sobre Conflitos de Uppsala (Suécia)”.
O "grande apagamento" do progresso económico
A conclusão do relatório de que "22 anos de progresso económico [foram apagados] em apenas 15 meses" é uma das mais arrepiantes. Isto significa que a economia palestiniana foi atirada para um tempo anterior à absorção dos principais impactos da Segunda Intifada, com o PIB a regressar ao nível de 2010. A regressão do PIB per capita para os níveis de 2003 significa a perda de uma geração de desenvolvimento económico. Isto não é um efeito secundário da guerra imposta por Israel mas antes um resultado direto da destruição intencional dos próprios alicerces de uma economia: infraestruturas, instituições e capital humano.
Gaza: de enclave a “buraco negro” económico
A situação em Gaza é descrita em termos apocalípticos. A contração da sua economia para 16,7% do seu nível de 2023 indica uma cessação quase total da atividade económica formal. O facto de o seu PIB per capita ($161) ser agora 4,6% do nível da Margem Ocidental (uma descida face a uma situação de quase paridade em 1994) ilustra uma divergência económica catastrófica e a desintegração total de Gaza como uma entidade económica funcional. O PIB per capita caiu para $161, aproximadamente 6.4% do seu pico de 2005, situando-se "entre os mais baixos do mundo". O relatório classifica a crise em Gaza como "a mais severa de sempre registada" nos dados do Uppsala Conflict Data Programme.
A utilização pelo relatório de dados de luminosidade noturna — que mostram uma diminuição de 73% — fornece uma prova objetiva e uma imagem deste colapso. Uma Gaza às escuras é uma Gaza economicamente sem vida.
A catástrofe do Desenvolvimento Humano
O Índice de Desenvolvimento Humano palestiniano deverá regredir para o nível de 1999, apagando "um quarto de século de progresso arduamente conquistado". A regressão do Índice de Desenvolvimento Humano em 25 anos é uma métrica que vai para além da economia. Quantifica a perda de capacidades humanas — na saúde, educação e nível de vida. No que respeita a Gaza, a estimativa do retrocesso de mais de 69 anos de desenvolvimento humano é uma profunda condenação, sugerindo que as condições atuais levaram a população para uma era pré-moderna em termos de bem-estar humano. Isto é um resultado direto da destruição intencional e planeada, por Israel, de hospitais, universidades e do tecido social necessário para uma população saudável e educada.
3. Estrangulação financeira estruturada
O relatório descreve 2024 como "o pior ano orçamental da história do Governo Palestiniano". A crise orçamental não é um problema temporário de tesouraria, mas sim uma característica central da dependência estrutural da economia palestiniana face a Israel.
Genocídio
“A guerra acabou, porque é que eles não voltaram?”: A busca pelos desaparecidos de Gaza
Ahmed Ahmed e Ahmed Alsammak
O relatório sublinha que o Protocolo de Paris, originalmente um acordo interino de 5 anos (que deveria ter expirado em 1999), continua a ser o quadro de governação – e um verdadeiro instrumento de poder, submissão e controlo utilizado por Israel-, deixando a Autoridade Palestiniana (AP) fiscalmente manietada. Ao controlar mais de dois terços da receita fiscal palestiniana, Israel detém um poder de veto sobre a capacidade da AP para funcionar, criando assim uma dependência estrutural e uma vulnerabilidade crónica da economia palestiniana. As transferências mensais são um instrumento político e económico, não um mecanismo financeiro fiável.
Para esta crise económica contribui também a retenção estratégica de fundos palestinianos por parte de Israel. Os 1,76 mil milhões de dólares - um valor equivalente a 12.8% do PIB de 2024 – de fundos palestinianos retidos por Israel entre 2019 e abril de 2025 são uma política deliberada que fere de morte a AP. Este montante — equivalente a 44% do total das receitas líquidas palestinianas — mina diretamente a capacidade da AP para pagar salários, prestar serviços e manter a estabilidade. O relatório assinala que a AP foi forçada a pagar salários parciais (60-70% dos compromissos) desde 2021, uma política que, por si só, atua como um travão na economia ao suprimir a procura agregada, contribuindo assim para tornar ainda mais grave “o choque pelo dado da oferta no pós-outubro de 2023".
Segundo o relatório a AP tinha feito progressos significativos na redução do seu défice orçamental de 26,1% para 3% do PIB entre 2008 e 2023. No entanto, essas “reformas” tornaram-se insignificantes perante os choques externos e a retenção sistemática de receitas. O crescimento do défice para 9,5% do PIB em 2024 mostra que a estabilidade orçamental da AP está inteiramente à mercê de fatores fora do seu controlo.
4. Gaza: o resultado lógico da política de "anti-desenvolvimento"
O relatório traça a evolução de Gaza de um enclave sob bloqueio para um território em ruína completa, documentando meticulosamente como o bloqueio e as repetidas operações militares já tinham esvaziado a economia de Gaza antes de outubro de 2023, constituindo um processo que a atual guerra genocida veio completar.
Em Gaza a destruição física assume proporções avassaladoras. A destruição de 70% de todas as infraestuturas, incluindo 92% das unidades habitacionais, representa mais do que apenas danos físicos, constituindo a erradicação do ecossistema social e económico. A destruição é sistemática, visando não apenas áreas residenciais, mas também o comércio, a indústria, a agricultura (86% da terra arável) e as infraestruturas públicas. Isto impede não apenas a recuperação económica, mas a própria possibilidade de um regresso a uma réstia de vida normal. As infraestruturas vitais – hospitais, escolas, sistemas de água e agricultura – foram meticulosa e deliberadamente dizimadas por Israel.
Por outro lado, verifica-se em Gaza uma crise humanitária multidimensional. O relatório confirma a condição de fome (Fase 5), com mais de meio milhão de pessoas em condições catastróficas. O sistema de saúde está à beira do colapso absoluto, com o assassínio por Israel de mais de 1590 profissionais de saúde e os danos na maioria dos hospitais a provocarem uma crise de saúde pública que persistirá por gerações, com o aumento do nanismo infantil, a propagação de doenças e traumas psicológicos generalizados. Na educação o colapso total do sistema educativo para mais de 658 000 crianças cria uma "geração perdida". O relatório liga explicitamente esta perda de aprendizagem à redução de rendimentos futuros e a uma maior fragilidade social, provocando consequências negativas a longo prazo para qualquer que seja a futura economia.
Quanto à atividade económica, a destruição assume, como já foi referido, dimensões inimagináveis. O relatório refere estudos que apontam para uma diminuição de 73% na atividade económica e sugere uma contração do PIB per capita em 89%. A estimativa de 53,2 mil milhões de dólares para as necessidades de recuperação e reconstrução apenas em Gaza é um valor tão vasto que quase parece irreal, constituindo mais de quatro vezes o PIB palestiniano total. Isto realça um ponto crítico: não pode haver uma recuperação económica significativa sem um esforço internacional massivo, sustentado e politicamente garantido, de um tipo e nível sem precedentes. A conclusão sóbria do relatório é que mesmo com um crescimento otimista, "levará várias décadas para que Gaza regresse aos níveis de bem-estar anteriores a outubro de 2023".
5. A obrigatoriedade de intervenção da comunidade internacional
As recomendações do relatório, formuladas com um sentido de extrema urgência, vão para além da ajuda tradicional. A proposta de um "rendimento básico universal de emergência" deve-se ao reconhecimento de que toda a população foi empurrada para uma situação de "pobreza multidimensional extrema". A distribuição de ajuda padrão é insuficiente, propondo-se por exemplo um mecanismo de transferências diretas de dinheiro como a única forma de fornecer um apoio imediato e flexível para a subsistência básica.
O negócio do genocídio
Como os bancos e seguradoras internacionais financiam o genocídio em Gaza
Por outro lado, o relatório deixa claro que as soluções económicas são impossíveis de implementar sem uma resolução política. O "cessar-fogo imediato e permanente" é o pré-requisito fundamental para qualquer recuperação económica. O relatório defende implicitamente que o modelo atual de destruição cíclica e reconstrução insuficiente não apenas é insustentável como atingiu agora o seu ponto terminal, resultando numa "ruína total". Por isso defende que é urgente uma ação da comunidade internacional para garantir um cessar-fogo imediato e permanente, bem como que é "imperativa uma intervenção internacional imediata e coordenada" para responder às necessidades humanitárias e iniciar a reconstrução.
O relatório deixa ainda como um alerta severo para a comunidade internacional, cuja inação poderá tornar os danos permanentes: mesmo num cenário otimista, "levará várias décadas para que Gaza regresse aos níveis de bem-estar anteriores a outubro de 2023". As necessidades de reconstrução para Gaza são estimadas em $53.2 mil milhões, mais de quatro vezes o PIB palestiniano total. Sem uma intervenção urgente, os danos no capital humano (físico e psicológico) e na infraestrutura física tornar-se-ão permanentes, inviabilizando a possibilidade de uma economia palestiniana viável e, por extensão, de um Estado palestiniano viável. As "cicatrizes duradouras" que descreve não são apenas metafóricas. São a base da instabilidade e do sofrimento futuros.