Relatório da ONU

Palestina: Colapso da economia foi o resultado lógico da ocupação, bloqueio e guerra

27 de novembro 2025 - 10:26

Um novo relatório da ONU conclui que a economia palestiniana não foi apenas danificada, mas sim sistematicamente desmantelada. O caminho para a recuperação mede-se não em anos, mas em décadas.

por

Paulo Antunes Ferreira

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Capa do relatório sobre imagem de destruição de Gaza
Capa do relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento sobre imagem de destruição de Gaza.

1. O relatório “Desenvolvimentos na Economia dos Territórios Palestinianos Ocupados”

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) publicou o relatório TD/B/72/3 intitulado "Desenvolvimentos na Economia dos Territórios Palestinianos Ocupados", apresentado na 72ª sessão do Conselho de Comércio e Desenvolvimento, que decorre entre 24 e 28 de novembro de 2025.

O relatório constitui uma análise abrangente e devastadora do impacto socioeconómico do genocídio e destruição territorial cometido por Israel nos territórios palestinianos ocupados, especialmente em Gaza, desde outubro de 2023, contextualizando-o no âmbito de uma ocupação prolongada de 58 anos e de um processo de subdesenvolvimento, ou anti-desenvolvimento (“de-development”), que já leva mais de uma década e meia. O documento defende que os acontecimentos recentes aceleraram um colapso económico e humanitário sem precedentes, empurrando os Territórios Palestinianos Ocupados (TPO) "do subdesenvolvimento para a ruína total".

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Os objetivos principais do relatório são documentar a escala da devastação económica e humanitária resultante da guerra imposta por Israel, quantificar o retrocesso económico dramático (que apagou décadas de progresso), analisar os mecanismos estruturais (orçamentais, financeiros e de restrições de movimento) que perpetuam a crise e alertar a comunidade internacional para a gravidade da situação e a necessidade de intervenção urgente e coordenada.

Este estudo da UNCTAD traça um quadro não de uma simples recessão económica, mas antes de uma destruição sistemática e acelerada da economia palestiniana, um processo que denomina de "anti-desenvolvimento". Os acontecimentos desde outubro de 2023 atuaram como um catalisador catastrófico, levando este processo à sua conclusão lógica e devastadora.

2. Colapso económico histórico e reversão de décadas de progresso económico

O colapso económico documentado não é uma recessão típica; é um desmantelamento deliberado, por parte de Israel, da capacidade produtiva e do potencial humano da Palestina. O relatório é categórico ao afirmar que no ano de 2024 a economia palestiniana sofreu o seu maior declínio de sempre. Os dados são esmagadores.

“O Banco Mundial estima que o colapso económico em Gaza está entre as contrações económicas mais significativas da história recente. Com base num índice de gravidade do conflito que avalia a profundidade do choque económico (medido pela queda do PIB real per capita do pico ao vale) e a duração da recuperação para os níveis do PIB per capita pré-crise, a crise na Cisjordânia e em Gaza é classificada como a décima crise económica mais grave a nível global desde 1960. Se se considerar apenas a crise em Gaza, ela é a mais grave de sempre com base no conjunto de dados do Programa de Dados sobre Conflitos de Uppsala (Suécia)”.

O "grande apagamento" do progresso económico

A conclusão do relatório de que "22 anos de progresso económico [foram apagados] em apenas 15 meses" é uma das mais arrepiantes. Isto significa que a economia palestiniana foi atirada para um tempo anterior à absorção dos principais impactos da Segunda Intifada, com o PIB a regressar ao nível de 2010. A regressão do PIB per capita para os níveis de 2003 significa a perda de uma geração de desenvolvimento económico. Isto não é um efeito secundário da guerra imposta por Israel mas antes um resultado direto da destruição intencional dos próprios alicerces de uma economia: infraestruturas, instituições e capital humano.

Evolução do PIB dos territórios ocupados palestinianos
Evolução do PIB dos territórios ocupados palestinianos. Fonte UNCTAD

Gaza: de enclave a “buraco negro” económico

A situação em Gaza é descrita em termos apocalípticos. A contração da sua economia para 16,7% do seu nível de 2023 indica uma cessação quase total da atividade económica formal. O facto de o seu PIB per capita ($161) ser agora 4,6% do nível da Margem Ocidental (uma descida face a uma situação de quase paridade em 1994) ilustra uma divergência económica catastrófica e a desintegração total de Gaza como uma entidade económica funcional. O PIB per capita caiu para $161, aproximadamente 6.4% do seu pico de 2005, situando-se "entre os mais baixos do mundo". O relatório classifica a crise em Gaza como "a mais severa de sempre registada" nos dados do Uppsala Conflict Data Programme.

Evolução do PIB per capita (em dólares) em Gaza
Evolução do PIB per capita (em dólares) em Gaza. Fonte: UNCTAD

A utilização pelo relatório de dados de luminosidade noturna — que mostram uma diminuição de 73% — fornece uma prova objetiva e uma imagem deste colapso. Uma Gaza às escuras é uma Gaza economicamente sem vida.

Luminosidade noturna em Gaza
Luminosidade noturna em Gaza. Fonte: UNCTAD

A catástrofe do Desenvolvimento Humano

O Índice de Desenvolvimento Humano palestiniano deverá regredir para o nível de 1999, apagando "um quarto de século de progresso arduamente conquistado". A regressão do Índice de Desenvolvimento Humano em 25 anos é uma métrica que vai para além da economia. Quantifica a perda de capacidades humanas — na saúde, educação e nível de vida. No que respeita a Gaza, a estimativa do retrocesso de mais de 69 anos de desenvolvimento humano é uma profunda condenação, sugerindo que as condições atuais levaram a população para uma era pré-moderna em termos de bem-estar humano. Isto é um resultado direto da destruição intencional e planeada, por Israel, de hospitais, universidades e do tecido social necessário para uma população saudável e educada.

 

3. Estrangulação financeira estruturada

O relatório descreve 2024 como "o pior ano orçamental da história do Governo Palestiniano". A crise orçamental não é um problema temporário de tesouraria, mas sim uma característica central da dependência estrutural da economia palestiniana face a Israel.

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O relatório sublinha que o Protocolo de Paris, originalmente um acordo interino de 5 anos (que deveria ter expirado em 1999), continua a ser o quadro de governação – e um verdadeiro instrumento de poder, submissão e controlo utilizado por Israel-, deixando a Autoridade Palestiniana (AP) fiscalmente manietada. Ao controlar mais de dois terços da receita fiscal palestiniana, Israel detém um poder de veto sobre a capacidade da AP para funcionar, criando assim uma dependência estrutural e uma vulnerabilidade crónica da economia palestiniana. As transferências mensais são um instrumento político e económico, não um mecanismo financeiro fiável.

Para esta crise económica contribui também a retenção estratégica de fundos palestinianos por parte de Israel. Os 1,76 mil milhões de dólares  - um valor equivalente a 12.8% do PIB de 2024 – de fundos palestinianos retidos por Israel entre 2019 e abril de 2025 são uma política deliberada que fere de morte a AP. Este montante — equivalente a 44% do total das receitas líquidas palestinianas — mina diretamente a capacidade da AP para pagar salários, prestar serviços e manter a estabilidade. O relatório assinala que a AP foi forçada a pagar salários parciais (60-70% dos compromissos) desde 2021, uma política que, por si só, atua como um travão na economia ao suprimir a procura agregada, contribuindo assim para tornar ainda mais grave “o choque pelo dado da oferta no pós-outubro de 2023".

Evolução das verbas retidas por Israel dos impostos que cobra às importações palestinianas.
Evolução das verbas retidas por Israel dos impostos que cobra às importações palestinianas. Fonte: UNCTAD

Segundo o relatório a AP tinha feito progressos significativos na redução do seu défice orçamental de 26,1% para 3% do PIB entre 2008 e 2023. No entanto, essas “reformas” tornaram-se insignificantes perante os choques externos e a retenção sistemática de receitas. O crescimento do défice para 9,5% do PIB em 2024 mostra que a estabilidade orçamental da AP está inteiramente à mercê de fatores fora do seu controlo.

4. Gaza: o resultado lógico da política de "anti-desenvolvimento"

O relatório traça a evolução de Gaza de um enclave sob bloqueio para um território em ruína completa, documentando meticulosamente como o bloqueio e as repetidas operações militares já tinham esvaziado a economia de Gaza antes de outubro de 2023, constituindo um processo que a atual guerra genocida veio completar.

Em Gaza a destruição física assume proporções avassaladoras. A destruição de 70% de todas as infraestuturas, incluindo 92% das unidades habitacionais, representa mais do que apenas danos físicos, constituindo a erradicação do ecossistema social e económico. A destruição é sistemática, visando não apenas áreas residenciais, mas também o comércio, a indústria, a agricultura (86% da terra arável) e as infraestruturas públicas. Isto impede não apenas a recuperação económica, mas a própria possibilidade de um regresso a uma réstia de vida normal.  As infraestruturas vitais – hospitais, escolas, sistemas de água e agricultura – foram meticulosa e deliberadamente dizimadas por Israel.

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Por outro lado, verifica-se em Gaza uma crise humanitária multidimensional. O relatório confirma a condição de fome (Fase 5), com mais de meio milhão de pessoas em condições catastróficas. O sistema de saúde está à beira do colapso absoluto, com o assassínio por Israel de mais de 1590 profissionais de saúde e os danos na maioria dos hospitais a provocarem uma crise de saúde pública que persistirá por gerações, com o aumento do nanismo infantil, a propagação de doenças e traumas psicológicos generalizados. Na educação o colapso total do sistema educativo para mais de 658 000 crianças cria uma "geração perdida". O relatório liga explicitamente esta perda de aprendizagem à redução de rendimentos futuros e a uma maior fragilidade social, provocando consequências negativas a longo prazo para qualquer que seja a futura economia.

Quanto à atividade económica, a destruição assume, como já foi referido, dimensões inimagináveis. O relatório refere estudos que apontam para uma diminuição de 73% na atividade económica e sugere uma contração do PIB per capita em 89%. A estimativa de 53,2 mil milhões de dólares para as necessidades de recuperação e reconstrução apenas em Gaza é um valor tão vasto que quase parece irreal, constituindo mais de quatro vezes o PIB palestiniano total. Isto realça um ponto crítico: não pode haver uma recuperação económica significativa sem um esforço internacional massivo, sustentado e politicamente garantido, de um tipo e nível sem precedentes. A conclusão sóbria do relatório é que mesmo com um crescimento otimista, "levará várias décadas para que Gaza regresse aos níveis de bem-estar anteriores a outubro de 2023".

5. A obrigatoriedade de intervenção da comunidade internacional

As recomendações do relatório, formuladas com um sentido de extrema urgência, vão para além da ajuda tradicional. A proposta de um "rendimento básico universal de emergência" deve-se ao reconhecimento de que toda a população foi empurrada para uma situação de "pobreza multidimensional extrema". A distribuição de ajuda padrão é insuficiente, propondo-se por exemplo um mecanismo de transferências diretas de dinheiro como a única forma de fornecer um apoio imediato e flexível para a subsistência básica.

Por outro lado, o relatório deixa claro que as soluções económicas são impossíveis de implementar sem uma resolução política. O "cessar-fogo imediato e permanente" é o pré-requisito fundamental para qualquer recuperação económica. O relatório defende implicitamente que o modelo atual de destruição cíclica e reconstrução insuficiente não apenas é insustentável como atingiu agora o seu ponto terminal, resultando numa "ruína total". Por isso defende que é urgente uma ação da comunidade internacional para garantir um cessar-fogo imediato e permanente, bem como que é "imperativa uma intervenção internacional imediata e coordenada" para responder às necessidades humanitárias e iniciar a reconstrução.

O relatório deixa ainda como um alerta severo para a comunidade internacional, cuja inação poderá tornar os danos permanentes: mesmo num cenário otimista, "levará várias décadas para que Gaza regresse aos níveis de bem-estar anteriores a outubro de 2023". As necessidades de reconstrução para Gaza são estimadas em $53.2 mil milhões, mais de quatro vezes o PIB palestiniano total. Sem uma intervenção urgente, os danos no capital humano (físico e psicológico) e na infraestrutura física tornar-se-ão permanentes, inviabilizando a possibilidade de uma economia palestiniana viável e, por extensão, de um Estado palestiniano viável. As "cicatrizes duradouras" que descreve não são apenas metafóricas. São a base da instabilidade e do sofrimento futuros.