Direito de retorno

Demissões na Human Rights Watch após bloqueio a relatório crítico de Israel

04 de fevereiro 2026 - 15:07

Autores do relatório consideraram a negação israelita do direito de retorno dos refugiados palestinianos como um crime contra a humanidade. A direção bloqueou a publicação, alegando ser necessária mais análise.

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Omar Shakir
Omar Shakir, investigador agora demissionário da HRW. Foto Human Rights Watch

Uma das organizações de direitos humanos mais prestigiadas do mundo, a Human Rights Watch (HRW), está no centro da polémica após a saída dos dois investigadores que compunham a equipa para Israel e a Palestina.

A razão apontada nas cartas de demissão de Omar Shakir, que liderou a equipa por mais de uma década, e Milena Ansari, assistente de investigação, referem o bloqueio à publicação de um relatório a concluir que a negação por parte de Israel do direito de retorno dos refugiados palestinianos constitui um crime contra a humanidade. E consideram que a organização pôs o receio dos ataques políticos por parte do governo israelita à frente do seu compromisso com a lei internacional.

“Perdi a minha confiança na integridade da forma como realizamos o nosso trabalho e no nosso compromisso com a reportagem baseada em princípios sobre os factos e a aplicação da lei”, escreveu Shakir na sua carta de demissão. “Como tal, não sou mais capaz de representar ou trabalhar para a Human Rights Watch“, acrescenta o investigador, citado pelo Jewish Currents.

Em comunicado, a HRW afirmou que o relatório “levantou questões complexas e importantes. No nosso processo de revisão, concluímos que alguns aspetos da pesquisa e a base factual para as nossas conclusões jurídicas precisavam de ser reforçados para atender aos elevados padrões da Human Rights Watch”. Afirmaram ainda que “a publicação do relatório foi suspensa enquanto se aguarda uma análise e pesquisa mais aprofundadas” e que o processo está “em andamento”.

Omar Shakir afirma que a organização queria fazer regressar o relatório à estaca zero, dando oportunidade aos seus dirigentes para o distorcerem e abafarem as conclusões ao longo das diversas fazes da execução. E saliente que apesar de os últimos anos terem testemunhado uma mudança no discurso, com os conceitos de apartheid, limpeza étnica e genocídio a serem agora geralmente aceites, a questão do direito de retorno continua a enfrentar resistência, com os apoiantes de Israel a defenderem que isso seria o fim do estado judaico.

O relatório em causa teve um primeiro rascunho elaborado em agosto passado e seguiu os trâmites normais de validação e revisão por parte de oito departamentos diferentes da HRW, com os alertas a surgirem por parte de vários colegas de Shakir. Num email recebido a 21 de outubro, um dos principais responsáveis da HRW, Bruno Ugarte, fez saber da sua preocupação com o largo universo abrangido pelo relatório, que na sua opinião englobava toda a diáspora palestiniana. Em alternativa, sugeriu centrar a investigação nos deslocamentos forçados de Gaza e da Cisjordânia. Ugarte temia que as conclusões “serão treslidas por muitos, a começar pelos nossos detratores, como um apelo a extinguir demograficamente o judaísmo do Estado israelita”.

Outro responsável da HRW, Tom Porteous, afirmou estar preocupado com a forma “como iremos apresentar este argumento nas nossas campanhas sem que pareça que a HRW está a rejeitar o Estado de Israel e sem que isso prejudique a nossa credibilidade enquanto um observador neutral e imparcial dos acontecimentos”.

A HRW tem defendido o direito de retorno em várias ocasiões a propósito de outros relatórios, mas nunca designou a negação desse direito ao longo de décadas por parte de Israel como um crime contra a humanidade, o que poderia ser usado num processo no Tribunal Penal Internacional. O bloqueio à divulgação do relatório surpreendeu os autores, tanto mais que surge no momento da chegada à liderança executiva da HRW de Philippe Bolopion, que foi um dos autores principais do relatório de 2021 que acusou Israel de cometer o crime de apartheid contra os palestinianos.

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