Está aqui

G20: Estado de sítio e resistência na Argentina

Abre esta quinta-feira com uma sessão de ioga e de meditação promovida pelo presidente indiano. Mas não será certamente para meditar que 24 mil polícias foram convocados e que um verdadeiro estado de sítio foi declarado. “Radicais islâmicos” e anarquistas têm sido apresentados como o inimigo interno.
Cartaz No AL G20

Pode ser um feriado, pode ser um protesto. Patricia Bullrich, ministra da Segurança argentina, prefere uma cidade vazia. O governo decretou feriado por ocasião do G20 e a ministra convidou os habitantes de Buenos Aires para o aproveitarem. Longe da cidade de preferência.

Quem não aceitou este convite foram os movimentos sociais e partidos de esquerda. O tempo é de protesto e cerca de 80 organizações juntaram-se no Fuera G20 uma “confluência” criada para rechaçar a cimeira porque, dizem, “as políticas do G20 e do FMI significam o mesmo, ajuste, austeridade, pobreza, maior endividamento, saque, contaminação, precarização laboral, precarização das pensões”.

Em vez de tirar férias enquanto os governantes dos países poderosos dividem o bolo, calendarizaram um programa intenso para a sua “semana de ação”. Para esta quinta-feira está marcada uma “Cimeira dos povos” em Buenos Aires. Os movimentos sociais respondem com estas atividades pacíficas àquilo que denominam como “campanha de criminalização e de intimidação” do protesto.

Buenos Aires bloqueada

Por onde passa, o G20 fecha as cidades para tentar prevenir protestos. Na capital argentina vão existir zonas interditas, acessos bloqueados, corte nos transportes públicos em toda a área metropolitana. 22 mil polícias nacionais e mais 2 mil dos restantes países vão ocupar as ruas. Só Trump vai trazer 800 pessoas atrás de si para estar num dos dias da cimeira.

O país vai ter ainda 460 quilómetros de zona de exclusão aérea. A imprensa local refere mesmo a possibilidade de se ter deslocado para a zona um porta-aviões americano. O resto do dispositivo, é conhecido e inclui vários aviões de ataque, canhões anti-aéreos, entre muitos outros meios “anti-distúrbio”.

Não se espera que o dispositivo impeça os protestos. Enquanto a ministra Bullrich quer esvaziar a cidade e o presidente indiano quer esvaziar a mente de problemas, espera-se que as ruas encham num clima de conflito social marcado pela austeridade.

Libertadores, anarquistas e “fundamentalistas islâmicos”

O clima de tensão tem as suas distrações e os seus bodes expiatórios. As atenções do G20 foram roubadas nos últimos dias pela frustrada segunda mão da final da Taça Libertadores da América, suspensa depois de um ataque de adeptos do River Plate a um autocarro de rivais do Boca Juniors.

Antes disso, as parangonas mediáticas foram ocupadas pela construção de inimigos internos. Uma histeria anti-anarquista embalou o discurso conservador na sequência de dois atentados: o primeiro foi o rebentamento de uma bomba no mausoléu de um polícia assassinado por um anarquista no início do século XX, o engenho explodiu nas mãos da militante que o colocava, ferindo-a; o segundo foi uma bomba caseira, que não explodiu, descoberta em casa de um polémico juiz. A conspiração anarquista passou a ser tema predileto, a ligação entre os casos foi feita automaticamente, 13 pessoas foram detidas e o movimento anarquista é agora criminalizado.

Outro alvo tem estado na mira dos discursos conservadores e do securitarismo oficial: os “radicais islâmicos”. Com a colaboração dos serviços secretos israelitas, foram presos dois cidadãos argentinos de origem libanesa, acusados de pertencer ao Hezbollah na sequência de uma denúncia anónima.

Um país de resistências

A Argentina vive um “ajustamento estrutural” da responsabilidade do FMI. As mobilizações contra a austeridade têm sido imensas e diversas. Recolhas de alimentos, greves, bloqueios, concentrações, assembleias, iniciativas de solidariedade com as fábricas ocupadas, ocupações de terrenos para fins agrícolas.

E, em terra de piqueteros, o histórico de violência policial que as enfrenta é tudo menos zen. Os incidentes repetem-se. Recentemente, Rodolfo Orellana, trabalhador textil da CTEP, Confederação de Trabalhadores da Economia Popular, foi morto pela polícia na sequência de um desalojo policial violento de uma horta num terreno ocupado. Antes, noutro incidente, Marcos Soria, da mesma organização, foi igualmente assassinado. Ambos foram alvejado pelas costas. A CTEP é um grémio de trabalhadores da “economia popular” que se assume como “ferramenta da luta reivindicativa para a restituição dos direitos laborais e sociais”.

Por exemplo, em julho do ano passado, o alvo da violenta atenção policial tinha sido a Pepsico, uma fábrica ocupada pelos trabalhadores para impedir a venda ilegal do material. A Argentina tem sido, na sequência da onda de falências que a crise económica causou e sobretudo após 2001, o epicentro de uma movimento de ocupação e gestão de fábricas pelos trabalhadores. Segundo Andrés Ruggieri, professor da Universidade de Buenos Aires, no livro ¿Qué son las empresas recuperadas?, no final de 2013 existiam 311 fábricas recuperadas a funcionar na Argentina somando 13500 trabalhadores.

No clima social argentino e com a austeridade a empobrecer o país uma coisa é certa: não vai ser a meditação dos líderes a acalmar as tensões do povo.

Sobre o/a autor(a)

Professor.
(...)