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G20: Os países ricos encontram-se num mundo em tensão

Segundo a agenda oficial o debate é sobre “o futuro do trabalho, a infraestrutura para o desenvolvimento e um futuro alimentar sustentável”. Mas o que marca a cimeira é outra agenda que abrange o conflito entre Rússia e Ucrânia, a guerra no Iemen, a guerra comercial EUA-China e o regresso do protecionismo.
Cartaz No Al G20

Combinados, os países do G20 representam 85% do PIB mundial, 75% do comércio e 66% da população. São os gigantes económicos do planeta e criaram esta cimeira na sequência das recentes crises económicas. É um lugar de encontros entre as potências para discutirem as disputas. Os críticos não deixam de zurzir no seu caráter anti-democrático. Mas não terá sido certamente esse o motivo pelo qual o convidado do momento, Bolsonaro, recusou estar presente.

Guerra comercial EUA/China

Pode não ser o tema mais quente da atualidade mas é decisivo para a economia mundial. Vai dar azo a uma reunião bilateral à margem da reunião. As duas grandes economias mundiais estão em guerra comercial aberta, lançada por Trump. Quando 2019 começar, metade das importações que chegam aos Estados Unidos provenientes da China estarão a ser taxadas em 25%. A cada ofensiva de Trump, o governo chinês retalia em medida calculosamente idêntica. É uma guerra que pode não ter o fim à vista porque o protecionismo parece ser o novo credo do poder dos EUA. O máximo que se diz esperar é uma trégua. Mas com este presidente norte-americano tudo é instável. Até mesmo a instabilidade.

Disputa EUA/Rússia e conflito com a Ucrânia

Trump diz que nem há discussão e que se recusa a reunir com Putin. Os discursos estão inflamados sobre a Crimeia. A região, cuja maioria da população é de origem russa, foi anexada pela Rússia. A Ucrânia continua a considerá-la parte integrante do seu país. Esta semana os ucranianos tentaram fazer alguns barcos passar pelo estreito de Kerch. A marinha russa impediu a circulação e apresou-os. O presidente da Ucrânia decretou a lei marcial em parte do país. E proibiu a entrada de homens russos dos 16 aos 60 no país “para evitar a formação de exércitos privados”.

Há quem diga que o escalar do conflito é apenas fogo de vista. Putin provoca dizendo que tudo se resume a uma jogada eleitoral de um presidente em crise de popularidade.

Só que a questão não é menor para os interesses ucranianos. O mar de Azov é um ponto importante de passagem das exportações ucranianas e havia um acordo de partilha desde 2003. Os acontecimentos mais recentes vieram colocá-lo em causa. E o governo russo inaugurou em maio uma ponte que liga a Crimeia ao resto do território russo. Para além das capturas de barcos, essa ponte condiciona objetivamente a passagem de barcos de grande porte.

Em discussão, se a houver, estarão ainda as sanções económicas que EUA e União Europeia impuseram à Rússia na sequência do conflito com a Ucrânia.

A guerra na Síria

A guerra na Síria também divide as grandes potências do mundo do pós-guerra. O tom da disputa voltou subir uma vez que regressaram as acusações cruzadas sobre o uso de armas químicas. Os americanos parecem até conformados com o reforço da influência da Rússia na região. Só que o futuro do país está ainda em disputa enquanto uma trégua periclitante entre a Turquia e a Rússia cessou as hostilidades em Idlib, a última grande zona controlada pelos rebeldes que concentra três milhões de habitante.

Arábia Saudita, uma ditadura em guerra

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, é suspeito no assassínio do jornalista saudita Jamal Khashoggi. As ramificações deste caso atingem os mais altos níveis da ditadura familiar saudita. A ONG norte-americana Human Rights Watch chegou ao ponto de pedir a prisão dos responsáveis sauditas aquando da sua chegada à Arábia Saudita. Em causa está também a atuação da Arábia Saudita na guerra do Iémen provocando uma pouco mediatizada catástrofe humanitária.

+ 1 e Brexit

A União Europeia é o acrescento coletivo aos 19 países que compõem a cimeira. O Brexit é o tema do europeu do momento. Inevitavelmente May terá de discutir com Trump e os outros líderes acordos aduaneiros e outros pormenores significativos. Mas a Europa não ocupa o palco central deste espetáculo.

Não se esperam avanços tremendos nestes vários dossiers, fotos oficiais e juras de empenho à parte. Sobre o tema oficial do encontro uma posição final tem estado a ser cuidadosamente preparada. Se tiver o mesmo destino que as suas antecessoras, não ficará para a história. O futuro alimentar sustentável até é um dos temas centrais para o futuro da humanidade. Mas para o G20 o que interessa no mundo é o business as usual. E a continuação da guerra por outros meios.

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