Saint-Brevin-les-Pins, uma localidade do Departamento de Loire-Atlântico, no noroeste de França, tornou-se centro das atenções a nível nacional a 22 de março quando a casa e os carros de Yannick Morez, o presidente da Câmara, foram alvo de fogo posto.
Por essa altura, há já algum tempo que a extrema-direita se tinha voltado para a pequena localidade de menos de 15 mil habitantes, organizando manifestações e disparando ameaças de morte. A razão? O então presidente de Câmara, de direita, apresentou um projeto para a reinstalação de um centro de acolhimento de refugiados.
Esta terça-feira, Morez acabou por se demitir invocando “razões pessoais, nomeadamente no seguimento do incêndio criminoso perpetrado no meu domicílio e por falta de apoio do Estado” como informou na página da autarquia.
Saint-Brevin-les-Pins não foi alvo único. Antes dela, Callac, um pouco mais a norte, no Departamento de Côtes-d'Armor, decidiu em janeiro renunciar a um projeto de um centro de acolhimento de refugiados, este privado, devido ao assédio da extrema-direita. Figura de destaque nesse processo, Bernard Germain, ex-candidato a deputado do Reconquista, partido de extrema-direita liderado por Éric Zemmour, que voltou a marcar presença nas manifestações em Saint-Brevin-les-Pins, onde em 30 de abril foi um dos oradores.
O centro de acolhimento que já existia
Na verdade, a história remonta ao final de 2016. Nessa altura, a “selva” de Calais, o grande acampamento de migrantes, foi desmantelada. Cerca de 50 requerentes de asilo foram colocados em Saint-Brevin-les-Pins num Centro de Alojamento de Urgência para Migrantes. Então acontecem as primeiras tentativas de desestabilização da extrema-direita que tentou utilizar os argumentos do costume: falava numa “invasão”, agitava os fantasmas da criminalidade. Chegaram a ser disparados tiros contra uma das janelas do centro de férias da EDF onde o centro seria instalado.
Seis anos depois, sem “invasão” ameaçadora nenhuma nem sinais de qualquer problema de integração ou de criminalidade associada à presença dos migrantes, os ânimos pareciam serenados. Mas é precisamente a “vitória” da extrema-direita no caso de Callac que a mobiliza para nova batalha. O projeto do ex-presidente de Câmara limitava-se assim a ser uma mudança de instalações. Uma reportagem do Mediapart falou com um vizinho de Morez que dizia que a oposição a essa reinstalação era residual e “quando viram que eram pouco numerosos apelaram a partidos políticos como a Reconquista e a União Nacional para terem apoio”. Segundo ele, nas manifestações “há uma pequena minoria que é da comuna e o resto vem de outros lados”.
No Parlamento, os deputados homenageiam o presidente da Câmara, a extrema-direita fica sentada
Depois de ter sido conhecida a notícia da demissão, na quarta-feira à noite, no parlamento francês os deputados levantaram-se em sinal de respeito. E se os da Renascença de Emmanuel Macron também o fizeram, apesar da acusação de falta de apoio do Estado parecer ter um destinatário preciso, os do partido de Marine Le Pen ficaram sentados gerando indignação. Manuel Bompard, coordenador da França Insubmissa, falou em “vergonha”.
L’Assemblée nationale se lève en hommage à Yannick Morez, maire de Saint-Brevin-les-Pins, qui vient de démissionner après l’incendie de son domicile et des menaces de l’extrême-droite.
Mais les députés du Front National restent assis. La honte. https://t.co/ct6YjSZPl6
— Manuel Bompard (@mbompard) May 10, 2023
Mas o partido do atual presidente francês também não se livra de críticas. Nomeadamente pela resposta tardia à demissão. Depois de muito ser notado o silêncio do campo governamental, foi só na manhã desta quinta-feira que a primeira-ministra francesa, Elisabeth Borne, reagiu assegurando, segundo o Libération, que o Governo dá “apoio” ao ex-presidente de Câmara e alegando que Dominique Faure, a ministra encarregue das coletividades territoriais, “contactou” Morez, o que segundo ela mostraria a vontade do Governo de “proteger melhor os presidentes de Câmara, de responder mais eficazmente quando há ameaças”. Contudo, a governante não perdeu a ocasião para atacar à esquerda, referindo que este caso “mostra que há uma ascensão do extremismo no nosso país”, que seria preciso “estar muito vigilantes sobre isto” porque “o extremismo existe dos dois lados”.