Obituário

Faleceu o historiador Álvaro Arranja

02 de junho 2025 - 20:00

Professor, dedicou-se intensamente à investigação da memória histórica, nomeadamente a de Setúbal e de Bocage. Nas páginas do Esquerda.net encontram-se muitos traços dessa paixão pela divulgação do saber.

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Álvaro Arranja
Álvaro Arranja na apresentação de um livro em 2022. Foto do Centro de Estudos Bocageanos

Faleceu esta segunda-feira o historiador Álvaro Arranja, aos 65 anos. Nascido em Setúbal, foi dirigente estudantil da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa, antes de mudar a área de estudos para História, que ele descrevia como a sua verdadeira paixão.

Foi ainda membro do Conselho Nacional da União da Esquerda para a Democracia Socialista nos anos 1980. Depois disso, foi fundador do Bloco de Esquerda e seu dirigente ao nível concelhio e distrital em Setúbal. Por este partido foi deputado municipal em Setúbal.

Álvaro Arranja trabalhou como professor de História em Palmela, trabalho no qual era admirado e respeitado pelas crianças de 12, 13 , 14 anos com quem trabalhava e quem trabalhava ao lado conta que não resistia à sua simpatia, generosidade e camaradagem.

Foi ainda dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa e dedicou-se à investigação de temas ligados ao movimento operário e à resistência à ditadura em Setúbal, mas também à Primeira República.

Foi autor de vários livros sobre Bocage, tendo sido vice-presidente do Centro de Estudos Bocageanos e a partir desta instituição desenvolveu um trabalho abnegado de divulgação cultural. Escreveu ainda muitos mais livros, entre os quais A República e os Operários – a Greve Geral de 1912 na imprensa da época e História(s) da Ditadura e da Revolução de 25 de Abril. E inúmeros artigos. Uma lista detalhada da sua produção pode encontrar-se na sua página da Wikipédia.

Estudou extensivamente a forma como Setúbal vivenciou diferentes acontecimentos históricos, desde a implantação da República, ao crescimento da indústria e às greves até à revolução do 25 de Abril.

Sobre a investigação dizia, numa entrevista ao Guia de Eventos de Setúbal reproduzida no seu blogue, em tom de brincadeira que era “como uma droga. Quero mais, mais e mais”.

Esta intensidade colocou-a também ao serviço do Esquerda.net, com o qual colaborou consistentemente ao longo dos anos, como colunista e assinando artigos aprofundados. Escreveu sobre os mais variados tópicos, da política à história da esquerda e do movimento dos trabalhadores. O trabalho dele foi um pilar da secção Esquerda com Memória.

Nas suas últimas colaborações, dedicou-se sobretudo à memória da resistência antifascista e da revolução de Abril a pretexto dos 50 anos do 25 de Abril. Escreveu sobre o 11 de março, “golpe falhado contra o MFA”, e sobre o assassinato de Humberto Delgado às mãos da PIDE. Debruçou-se também sobre a Frente Popular em França numa altura em que as convergências à esquerda voltaram a ser tema de debate por toda a Europa.

Para além da atividade de resgate da memória anti-fascista, anti-colonialista e de múltiplas lutas pela justiça social, Álvaro Arranja destacou-se igualmente como um exemplo de solidariedade ativa e de cuidado.

A todos os familiares, amigos e camaradas de Álvaro Arranja, a direção do Bloco de Esquerda e a redação do Esquerda.net transmitem as suas sentidas condolências.

A cerimónia fúnebre irá decorrer no dia 6 (sexta-feira) às 11h no cemitério de Algeruz/Setúbal. Às 12h será a cremação.