Em entrevista à Cadena Ser, o procurador-geral contra os Delitos de Ódio e Discriminação defendeu mudanças à lei que trata destes crimes em Espanha. Miguel Ángel Aguilar sugere “a proibição de que pessoas que usaram a internet ou as redes sociais para cometerem um delito possam aceder ao meio através do qual cometeram esse delito”.
Em causa está a investigação às mensagens falsas difundidas nas redes sociais a apontar o dedo a menores migrantes pela autoria do assassinato de uma criança de 11 anos em Mocejón, perto de Toledo, no passado domingo. Mensagens com origem em grupos de extrema-direita, que desde os motins racistas de Inglaterra no fim do mês passado têm multiplicado as publicações de supostos crimes praticados por migrantes em Espanha. Particularmente ativo na montagem desta campanha de ódio esteve o recém-eleito eurodeputado Alvise Pérez, que goza agora de imunidade face a estes crimes, mas também dirigentes do Vox.
Espanha
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Aos seus quase 700 mil seguidores no Telegram, Alvise garantiu minutos depois de sair a notícia do esfaqueamento mortal da criança que o crime fora cometido “por cinco menas [menores não acompanhados]” e publicou a foto de um jovem racializado como sendo o suposto autor do crime. Desmentido pelos verificadores de factos, que mostraram que a foto era a de um condenado por crimes sexuais semanas antes em Inglaterra, Alvise apagou a publicação, entretanto disseminada em várias redes sociais. Horas depois dizia que no início do mês tinham sido alojados 50 migrantes africanos num hotel da localidade e citava supostos habitantes a dizerem que desde então se multiplicam roubos e violações. Nas 24 horas seguintes falava de uma avalanche de violações em grupo, espancamentos a idosos ou vários assassinatos em Espanha, sem dar mais detalhes, e publicou um mapa a mostrar a proximidade entre a mesquita e o polidesportivo onde ocorreu o assassinato.
Na verdade, a polícia demorou menos de 48 horas a deter o suspeito, um jovem espanhol residente em Madrid e a passar férias em Mocejón com o pai, que informou a polícia sobre a sua deficiência intelectual de 75% e o facto de não tomar medicação. Segundo o El País, na sua confissão do crime, este jovem de 20 anos disse que se sentiu “como num videojogo”, falou de si na terceira pessoa e mostrou comportamentos incoerentes. No depoimento do pai, ficou a saber-se que o jovem saiu como habitualmente para passear no campo de manhã e foi a casa da avó para esta lhe mudar a roupa. Às 11h, quando já tinha cometido o crime, foi à missa com o pai e voltaram a casa da avó, onde “almoçou tranquilamente”.
Enquanto de espalhavam as mensagens de ódio contra migrantes, a família da criança assassinada já sabia quem era o suspeito, mas não o podia revelar. E quando Asell Sánchez, porta-voz da família e jornalista que dirige um programa num canal televisivo católico sobre os trabalho dos missionários no mundo, fez um apelo público ao fim dos boatos e da criminalização dos migrantes, as hordas de extremistas nas redes passaram a ameaçá-lo de morte e a reproduzir as fotos das suas viagens a África, dizendo que os familiares da vítima “merecem o que lhes está a acontecer”.
O Vox também participou nesta campanha para ligar o crime à imigração, com o seu deputado Manuel Mariscal a partilhar notícias sobre o apoio do PP de Toledo ao acolhimento de menores migrantes e a presença de 50 estrangeiros num hotel de Mocejón, acompanhadas do comentário “Quem não caia no esquecimento”.
A espalhar ódio racista mais abertamente esteve outra rede da órbita do Vox e ligada à Fundação Disenso, que conta com o líder do partido, Santiago Abascal, entre os seus dirigentes. Logo a seguir às notícias sobre o assassinato a rede HrQles seguiu a linha de Alvise, apontando o dedo a menores migrantes e sublinhando a proximidade geográfica entre a mesquita e o polidesportivo de Mocejón. Dirigida por um dos organizadores dos primeiros protestos em Madrid contra a lei da amnistia no ano passado, César Planell, apresenta-se como uma “agência de notícias” e os conteúdos do seu site são exclusivamente publicações a ligar a criminalidade à migração. Também outra figura conhecida da extrema-direita, Daniel Esteve, criador do Desokupa, publicou um vídeo a fazer a ligação entre o crime de Mocejón e a imigração em Espanha.
O acolhimento de algumas dezenas de menores migrantes nas comunidades autónomas onde PP e Vox governavam juntos serviu de argumento para o partido de extrema-direita romper essas coligações poucas semanas após as eleições europeias onde viu uma parte do seu eleitorado optar pelo voto no partido criado por Alvise Pérez, denominado Se Acabó La Fiesta, que elegeu três eurodeputados face aos seis do Vox.