Era uma vez a Mouraria

11 de dezembro 2023 - 16:49

José Smith Vargas acaba de lançar Vale dos Vencidos, livro de estreia. Neste romance gráfico, conta o início do processo de gentrificação da zona da Mouraria, em Lisboa, no ambiente social dos anos da troika. Entrevista de Jorge Costa.

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Alguns conhecem o estilo inconfundível do autor da última página do jornal Mapa, onde tem publicado ao longo dos últimos anos. Neste livro está todo esse estilo e uma ambiciosa investigação sobre a vida no centro de Lisboa entre 2010 e 2012. O resultado é um calhau político lançado sobre a gentrificação e a transformação da cidade e da sua memória num negócio, tudo a coberto de uma renovação que não deixa pedra sobre pedra. Pelo meio, encontramos o mundo do Smith, da cena punk, do movimento libertário daqueles anos, de experiências de resistência comunitária, dificuldades e contradições.

 

Viva, Smith. Parabéns por este trabalho: 350 páginas, muito preenchidas, que se lê com muita vontade. Começo por pedir-te que te apresentes como autor de BD: o teu percurso, o que costumas fazer, com quem e para quem. E como isso se liga com outras dimensões tuas - a música, a intervenção política.

A BD é uma paixão de infância que ficou lá na parte de trás do cérebro. Acabei por estudar artes plásticas nas Caldas da Rainha. Quando acabei o curso estava completamente confuso com o mundo da arte contemporânea e a banda desenhada era o único trabalho artístico que me apetecia fazer. Depois trabalhei em tudo e mais alguma coisa - incluindo produção e montagens de arte contemporânea - mas acabei por ir fazendo BD assim, devagarinho, até chegar a este projeto, que também acabou por demorar muito tempo, porque assim o exigiu. Há dez anos que publico uma prancha na última página do jornal Mapa e que colaboro com a Chili Com Carne, uma associação editorial, principalmente de BD, com quem eu sempre

tive uma cumplicidade.

 

Há no livro uma presença da música, do canto. Em diversas circunstâncias vão surgindo expressões de fado, de rap, de punk rock. És o vocalista dos Focolitos. Como é que ligas, se é que há uma ligação, a BD e a música?

As pessoas amandam-se para as coisas e, para mim, o que faz sentido é andar a saltar. Se calhar não faz sentido para toda a gente, mas para muita gente faz sentido. Expressas-te no desenho, depois transportas todo esse drive para a música. Muitas vezes incorre-se na questão de nada ser muito eficiente, da menor especialização. Mas acho que vale bastante a pena, porque as coisas influenciam-se umas às outras e é muito rico. Quando eu estava a fazer o esqueleto do livro, pensei na possibilidade de ir passando de vocalista para vocalista, como se o canto fosse uma maneira de organizar a narração. Essa ideia foi abandonada, mas ainda ficaram uns laivos. Passa-se de uma espécie de cantor indie para uma figura da performance, mas também com expressão vocal, até fadistas e rappers…

 

O livro conta as rápidas transformações vividas na Mouraria entre 2010 e 2012. É uma história de uma zona popular e empobrecida, com vidas muito precárias, a começar pelas pessoas imigrantes. Essa zona começará a ser cobiçada e o livro é a crónica dos primeiros tempos de uma apropriação. Como assististe a esse processo? Tiveste logo a ideia de contá-lo?

Eu assisti a esse processo na frequência da Casa da Achada e de outra associação que havia no Largo da Severa, na Mouraria, que era a Da Barbuda. A zona da Mouraria e do Intendente foi agarrada pela Câmara Municipal com um plano para a limpar de uma só vez. Foi um processo de certa forma inédito na cidade, aplicado numa última zona do centro abandonado e degradado, quando Lisboa já tinha uma atividade turística bem forte, no final da primeira década deste século. Era um sítio que tinha ainda população de nacionalidade portuguesa vinda de outros cruzamentos, que vieram das Beiras ou do Norte, até da Galiza, e, a partir dos anos 60 e 70, muita imigração, principalmente através de Moçambique. Imigração indiana, depois chinesa, depois do Paquistão, Bangladesh... Uma zona de habitação mais barata. Nesses anos de 2010-2012, António Costa, então Presidente da Câmara, mudou o seu gabinete para o Intendente e deu todo um élan para limpar aquela zona. Foi tão incrível assistir de perto a um processo daqueles que fiquei sempre com vontade de contar a história. Tive que falar com muita gente e ler muitos artigos de pessoas que estudam isto a fundo e que, em última instância, podem falar muito melhor do que eu. A marketização de Lisboa já vinha de antes, mas este foi um momento fundacional. Foi especial porque foi muito concentrado no espaço e no tempo.

 

Um dos aspetos a que dedicaste mais esforço descritivo é dos mais ambíguos: a forma como são cooptadas organizações populares locais (coletividades, marchas), envolvidas neste processo de gentrificação, valorização mercantil e substituição de populações. Há associações promovidas, novas associações criadas a partir do poder público como braços da administração ou até como forma de neutralizar potencial crítico ou de auto-organização que possa embaraçar o processo de gentrificação. Achas que isto seguiu um manual - que acontece assim em todo lado - ou aqui na Mouraria foi especial?

Estas remodelações urbanas são financiadas pelos os quadros de referência europeus, pelos QREN, e nesta fase decorreu uma transição em que já não era a Câmara a gerir tudo. A União Europeia passa a “financiar a sociedade civil”, associações de locais, conselhos de vizinhança que “decidem” como aplicar o dinheiro. Em Portugal, há sociedades recreativas e comerciais, mas não há associações de vizinhos fortes. E então criou-se, seduzindo os locais e associações. Havia já uma movida de jovens urbanos interessados em viver num bairro mais barato, onde se cruzam várias realidades, e assim foi criado - pela Câmara, um bocado sonsamente - uma plataforma artificial para tomar essas decisões sobre a reabilitação do espaço público e a coesão social.

 

A tua história conta a fase das boas intenções de renovação urbana. É a primeira etapa de um processo maior, em que depois dessa substituição das populações empobrecidas por uma jovem geração, chega a massificação do alojamento local e a turistificação total.

Apesar deste processo ter sido muito rápido, houve um período de uma certa convivência, a altura em que está toda a gente ao mesmo tempo. Está o jovem urbano, o artista, o imigrante, o morador mais antigo. Tudo acaba depois: a grande preocupação da Câmara era fazer estes pacotes de atração, com a ideia de que as cidades competem entre si, a história toda da inovação, da atração de investimento e a reformulação dos centros das cidades pela mão dos fundos imobiliários e não dos municípios. À medida que eu ia pensando como contar a história, estava a ver tudo a acontecer. Houve o boom de 2017, aqueles prémios “Lisboa, cidade mais não sei quê de não sei quê”. As cidades a competirem entre si pelos “expats”, os reformados do Norte da Europa e dos Estados Unidos. Caramba! O que é que eu vou dizer quando o livro sair? Isto vai estar tudo desatualizado…

 

No livro há uma comunidade mobilizada em torno do projeto Da Barbuda, a associação a que também pertenceste na altura e que procurava dialogar com as dificuldades do bairro, viver nele as suas vidas e acompanhar a transformação em curso. Os personagens mais centrais da narrativa pertencem a esse grupo. O processo enfrenta muitas contrariedades, desde as institucionais até às que vêm da própria população local com a qual se pretendia conviver. Conta-nos um bocadinho disso e do que tu retiraste dessa experiência.

Há muita coisa inventada. É aquele típico formato da autoficção, não é? Que é um bocado autobiográfico, um bocado realidade, mas inventa-se quando dá jeito. A associação Da Barbuda é central também por uma razão muito específica, são uns dos sacrificados da história, um bode expiatório. E isso também me deu vontade de fixar a história por essa perspectiva, porque foi um espaço que desapareceu completamente. Na altura, Lisboa vivia uma certa reformulação da esquerda juvenil e de rua. É o tempo da troika. Está toda a gente um bocado em bolandas, a perceber como é que resiste a isso. Uns a sofrerem mais, outros menos. Mas é um certo trauma também. E o próprio António Costa tira partido disso, porque já na altura ele dizia que governava a Câmara de Lisboa em contraciclo. O Passos Coelho agredia o país e ele fazia o discurso de “estou a fazer contraciclo, sou a resistência aqui em Lisboa”. Surgem então muitas associações, às vezes nem propriamente políticas, simplesmente o pessoal precisava de se orientar e às vezes era mais fácil sobreviver com uma associação do que com um negócio. Abriram muitos espaços e pessoas das periferias começam a descobrir e a reclamar o centro: afrodescendentes, pessoas vindas das margens da cidade, talvez não pela primeira vez, mas pela primeira vez daquela forma. As pessoas do centro, talvez mais habituadas à política, saíram um bocado das suas bolhas e pequenas teorias. Quanto à minha turma mais pessoal, um certo movimento anarquista e anti-autoritário, também a ficar mais maduro e menos enfiado na sua concha, começa a conversar mais e a procurar cruzamentos. O que o Da Barbuda tinha de especial era ser palco desses cruzamentos. Os próprios espaços cool da altura pareciam uma nova vida que estava a adaptar-se muito bem; hoje em dia estão todos a serem corridos pela nova fase de gentrificação, que é a do dinheiro puro e duro.

 

Nas últimas 50 páginas do livro juntas um conjunto de histórias que, sendo autónomas, estão ligadas aos ambientes locais ou aos temas políticos do livro. São vários textos do Miguel Castro Caldas e outros do Miguel Caldas e da Andreia Farinha, além de duas peças com base em prosa de Jean Baudrillard e Eça de Queiroz. O que junta este material ao livro?

Em 2011 eu ilustrei algumas peças do Miguel Castro Caldas sobre o bairro da Mouraria e o que lá estava a acontecer. Depois fui encontrando textos aqui e ali que podiam funcionar aos quadradinhos. Fui acumulando essas pequenas histórias, sempre na ideia de que não chegavam. Um dia enviei uma parte desse material como proposta para o concurso interno da Chili com Carne. Chama-se “toma lá 500 paus e faz uma BD” (os sócios reúnem-se, pagam as quotas e a associação usa-as assim todos os anos: se tens aí uma BD na gaveta…). Eu ganhei em 2014, mas depois falei com eles: “pá, isto pode ser um livro muito mais interessante, esperem aí um bocadinho…” E pronto, só tiveram que esperar dez anos!


Vale dos Vencidos é uma novela gráfica de 350 páginas, editada pela Chili com Carne e lançada a 17 de novembro numa sessão na Casa da Achada, depois de ter estado presente na exposição do festival de BD da Amadora deste ano. O livro está disponível na loja em linha da Chili com Carne e também nas melhores livrarias independentes, cujo nome merece ser dito: BdMania, Kingpin, Letra Livre, Linha de Sombra, Matéria Prima, Mundo Fantasma, Neat Records, Snob, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, Utopia, Vida Portuguesa e ZDB.