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Eleições na Irlanda (2): vitória do Sinn Féin alicerçada na juventude

Foi a juventude que contribuiu para o triunfo do “sim” nos referendos para a legalização do divórcio, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto. E foi também ela que permitiu a vitória eleitoral do Sinn Féin e o crescimento de outras forças de esquerda. Por Jorge Martins.
Foi a juventude que contribuiu para o triunfo do “sim” nos referendos e foi também ela que permitiu a vitória eleitoral do Sinn Féin – foto de Ógra Shinn Féin (juventude do Sinn Féin)
Foi a juventude que contribuiu para o triunfo do “sim” nos referendos e foi também ela que permitiu a vitória eleitoral do Sinn Féin – foto de Ógra Shinn Féin (juventude do Sinn Féin)

Análise dos resultados (Ver quadro de resultados no final do artigo)

Sinn Féin (SF): Um triunfo baseado na juventude e na resposta aos problemas sociais

O Sinn Féin, designação gaélica que significa, literalmente, Nós Próprios (embora também seja traduzida para Nós Sozinhos) é o principal partido da esquerda nacionalista irlandesa. Foi fundado em 1905, pelo jornalista Arthur Griffith, a partir da fusão de três organizações que lutavam pela independência da Irlanda contra o colonizador britânico.

O partido foi, durante muitos anos, a ala política do Exército Republicano Irlandês (IRA), fundado em 1917, e que foi essencial na luta pela independência, obtida em 1922.

A guerra civil que se seguiu à conquista daquela enfraqueceu-o. Os seus dois grandes protagonistas (Michael Collins e Éamon De Valera) chefiaram as duas fações em conflito, acabando, cada um deles, por formar o seu próprio partido, tornando o SF uma força residual.

A partir dos anos 60, foi responsável pela luta armada na Irlanda do Norte. Se, até aí, era, essencialmente, uma formação republicana, tendo como grande objetivo a libertação desse território, ainda hoje parte do Reino Unido, com vista à reunificação irlandesa, alguns dos seus principais dirigentes começaram, então, a virar à esquerda, tendência que se consolidaria nos anos seguintes.

Durante muitos anos, o SF praticou uma política de abstencionismo, ou seja, os/as seus/suas eleitos/as recusavam-se a assumir os lugares conquistados nas eleições, tanto no Reino Unido como na República da Irlanda. A partir de 1986, esta apenas se manteve para as eleições gerais britânicas, pois os/as seus/suas deputados/as recusam-se a prestar o juramento de fidelidade à Coroa britânica.

Coerentemente com a sua defesa da reunificação, foi a primeira força política irlandesa a atuar de ambos os lados da fronteira, concorrendo tanto aos atos eleitorais da república irlandesa como aos do Norte da ilha, sob administração britânica.

Após os acordos de paz de Sexta-feira Santa, na Irlanda do Norte, tornou-se o principal partido da comunidade católica do território, partilhando o poder com os radicais protestantes do Partido Democrático do Ulster (DUP).

O SF tornou-se, assim, num partido da esquerda radical, que, para além do objetivo nacionalista de levar a efeito a reunificação da ilha, tem como meta a construção de um socialismo democrático e laico

O SF tornou-se, assim, num partido da esquerda radical, que, para além do objetivo nacionalista de levar a efeito a reunificação da ilha, tem como meta a construção de um socialismo democrático e laico, sendo a sua linha política muito semelhante à do Bloco de Esquerda nas questões económicas, sociais, ambientais e de costumes.

Apesar de ser crítico das políticas da União Europeia, apoiou o “remain” no referendo do Brexit. Com os protestantes divididos sobre a questão, viu nela uma oportunidade de estabelecer pontes com os setores pró-UE da comunidade protestante, de forma a conseguir o apoio desses a uma eventual reunificação da ilha.

O SF obteve uma vitória histórica, a primeira desde a independência, conquistada em 1922, com 24,5% dos votos nas primeiras preferências, que lhe valeram a eleição de 37 parlamentares. Uma subida significativa face às últimas legislativas, realizadas em 2016, onde se ficara pelos 13,8% e 23 deputados/as.

Contudo, os dirigentes do partido cometeram um erro estratégico, que lhe terá custado alguns lugares no Dáil. Tendo tido um fraco resultado nas últimas europeias, o Sinn Féin subestimou as suas possibilidades. Por isso, enquanto os seus adversários do centro-direita apostaram em mais de 80 candidatos/as, apenas apresentou 42 em 38 das 39 circunscrições. No final, apenas cinco falharam a eleição e, se tivesse tido mais concorrentes em alguns círculos eleitorais, poderia ter chegado a 40-42 mandatos.

A cautela que a direção do SF colocou na apresentação das suas candidaturas justifica-se, ainda, por saber que, dadas as suas posições políticas bem à esquerda do espetro político, não beneficia muito das transferências de outros partidos. E, não tivesse o resultado sido tão positivo, a apresentação de demasiados candidatos/as poderia levar a que, com a divisão dos votos, alguns/mas fossem eliminados/as nas primeiras contagens. Provavelmente, se as sondagens fossem mais positivas antes do início da campanha, o partido teria arriscado mais. E, no fim, “petiscaria” igualmente mais!...

O triunfo do Sinn Féin explica-se muito pela sua aposta numa campanha centrada nos problemas sociais concretos que mais preocupam as pessoas

O triunfo do Sinn Féin explica-se muito pela sua aposta numa campanha centrada nos problemas sociais concretos que mais preocupam as pessoas, como a habitação, o combate à pobreza e o reforço dos serviços públicos, em lugar de colocar o acento tónico na questão da reunificação.

Para tal, contribuiu a ascensão de uma nova geração de dirigentes, que não tomou parte ativa no conflito que dilacerou o Norte. Enquanto o histórico Gerry Adams, que foi presidente do partido entre 1983 e 2018, nasceu em Belfast e desenvolveu a maior parte da sua ação política na parte setentrional da ilha, tendo sido membro do IRA e estado preso pelos britânicos durante alguns meses, a nova líder, Mary Lou McDonald, é natural de Dublin e não teve qualquer participação na luta armada.

Do ponto de vista territorial, os seus melhores resultados ocorreram, como habitualmente, nas áreas situadas junto à fronteira com o Norte (os três condados do Ulster que ficaram integrados na República da Irlanda e mais alguns da região de Leinster, no Leste do país). Teve ainda bons resultados em Dublin, especialmente nas zonas setentrional, central e ocidental da sua área metropolitana, habitadas pelas classes médias e baixas, e no centro de cidades como Cork e Waterford. Ao invés, os mais fracos ocorreram nas zonas meridionais de Dublin, onde residem as classes mais altas, e em algumas áreas rurais do Sudoeste e do Oeste do país (correspondentes às regiões de Munster e Connacht, respetivamente).

Mas a variável que nos parece mais importante na votação do SF é a idade. Na verdade, o partido obteve as maiores percentagens de voto entre os eleitores menores de 35 anos, tendo sido, igualmente, a força política mais votada nessas faixas etárias, tendo atingido aí cerca de 33,8% dos votos. Ao invés, registou bastante menos adesão entre os maiores de 65 anos, onde apenas conseguiu à volta de 14,2% dos sufrágios, quedando-se num distante terceiro lugar. Entre os/as eleitores/as de meia idade (entre 35 e 64 anos), ficou próximo da média nacional e praticamente empatado com os dois partidos até aqui dominantes.

Em mais uma ironia, a forte influência da Igreja Católica, visível até ao final do século passado, levou a que a Irlanda tivesse uma das maiores taxas de natalidade da Europa e, consequentemente, uma população mais jovem que o resto dos seus parceiros da UE.

Ora, foi precisamente essa juventude, mais europeizada e mais aberta à modernidade, que contribuiu para o triunfo do “sim” nos referendos para a legalização do divórcio, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e do aborto, permitindo avanços civilizacionais que pareciam impossíveis no país há 30 ou 40 anos. E foi também ela que permitiu a vitória eleitoral do SF e o crescimento de outras forças de esquerda.

Relativamente ao género, o voto no SF é maioritariamente masculino (com 25,0% entre os homens e apenas 23,5% entre as mulheres).

Fianna Fáil (FF): Continuar a ser o “partido da crise” não ajuda

O Fiánna Fáil, nome gaélico que significa Soldados do Destino, é um partido conservador, formado em 1926, por Éamon De Valera. Oficialmente, acrescenta a designação O Partido Republicano (An Páirtí Poblachtánach).

Durante a guerra civil que dilacerou o país no período que se seguiu à independência, em 1922 e 1923, aquele liderou a fação do SF que se opunha ao Tratado Anglo-Irlandês, que determinava a partilha da ilha, mantendo seis condados do Ulster no Reino Unido, e estabelecia o Estado Livre Irlandês, tendo como chefe o/a monarca britânico/a, em lugar da república na totalidade do território, defendida pelos independentistas mais radicais.

Após a derrota, em 1923, o SF adotou uma política de abstencionismo face às instituições do novo Estado. De Valera tentou revertê-la, mas não conseguiu o apoio da maioria do partido. Abandonou-o e criou, então, o FF, que passou a beneficiar do financiamento da diáspora nos EUA, até aí dirigidos ao Sinn Féin.

O FF é um partido conservador e nacionalista, embora tenha apoiado a integração do país na CEE. Muito apoiado pela Igreja Católica, tem posições conservadoras no plano dos costumes. No plano económico, é uma formação tradicional de centro-direita, defensora do liberalismo, embora não rejeite alguma intervenção do Estado.

Republicano desde sempre, foi o seu governo que proclamou a República em 1937. Firme defensor da reunificação, pugna pela promoção da língua gaélica e das tradições celtas. É, ainda, defensor da neutralidade irlandesa, um dos pilares da política externa do país, adotada quando rebentou a 2ª guerra mundial. Recusa, assim, a integração do país na NATO, algo que tem a ver com a sua desconfiança histórica face ao Reino Unido. Por esse motivo, apesar das diferenças ideológicas, os/as seus/suas candidatos/as beneficiam de algumas transferências de algum eleitorado do SF e vice-versa.

É, em geral, o partido da burguesia rural e de alguns setores da pequena burguesia urbana, ou seja, da maioria dos agricultores e dos pequenos e médios empresários e comerciantes. Apesar disso, a pertença ao FF estará mais relacionada com fatores históricos (o lado em que a família se posicionou na guerra civil) que sociais.

Foi a força política que mais tempo esteve no poder. Desde que ascendeu a este, após o seu triunfo nas eleições de 1932, até 2011, em que sofreu uma enorme derrota, a sua presença na oposição soma apenas 16 anos. Após as eleições de 2016, deu apoio parlamentar ao governo do seu rival Fine Gael, numa espécie de “bloco central”.

Nestas eleições, o FF foi o segundo mais votado, tendo obtido 22,2% dos votos e elegendo 37 deputados/as (serão 38, se considerarmos o Ceann Comhairle, que estava eleito à partida). O histórico partido bateu os seus rivais do Fine Gael, mas perdeu votos e, se descontarmos o “speaker”, apenas igualou a bancada parlamentar do SF, apesar de ter apresentado o dobro dos/as candidatos/as daquele. Em 2016, obtivera 24,4% e elegera 44 representantes.

O facto de o rebentamento da “bolha imobiliária”, o resgate aos bancos e a intervenção da “troika”, com o seu cotejo de políticas austeritárias, terem ocorrido quando o partido se encontrava no poder não foi esquecido pelo eleitorado irlandês. Apesar de o primeiro-ministro de então, Brian Cowen, ter sido substituído pelo atual líder, Micheál Martin, o FF continua a perder votos nos sucessivos atos eleitorais. O apoio parlamentar ao executivo de Leo Varadkar não ajudou, já que contribuiu para aumentar a perceção (aliás, verdadeira) de que não existem grandes diferenças entre os dois maiores partidos até aqui dominantes.

Ao nível territorial, os seus melhores resultados ocorreram nas áreas rurais, em especial nas duas regiões do Sul (Munster e Leinster). Ao invés, e como é tradicional, os piores ocorreram em Dublin e na respetiva área metropolitana, onde ficaram invariavelmente abaixo da média nacional.

Em termos etários, o seu desempenho melhora com o aumento da idade dos/as eleitores/as. Assim, entre os maiores de 65 anos, obteve 29,7% dos votos, tendo sido o mais votado nessa faixa etária. Nos adultos maduros (dos 35 aos 64 anos) andou próximo da média nacional, mas o seu apoio entre os mais jovens foi muito menor, não passando dos 15,2% no escalão de entre 25 e 34 anos e dos 13,6% entre os menores de 25.

Do ponto de vista do género, o voto no FF é maioritariamente masculino, com cerca de 23,0% de homens e 21,3% de mulheres.

Fine Gael (FG): Pagou “fatura” da insensibilidade social

O outro partido histórico, o Fine Gael, designação gaélica para Família dos Irlandeses, deriva da Cumann na nGaedheal (Sociedade dos Gaélicos), criada por William T. Cosgrave, Arthur Griffith e Michael Collins, quando os apoiantes do Tratado Anglo-Irlandês abandonaram o SF, que se opôs aquele. Em 1933, fundiu-se com uma pequena formação centrista, dando origem ao FG.

É um partido liberal-conservador e pró-UE. Do ponto de vista económico, é abertamente liberal. Em matéria de costumes, a sua inspiração democrata-cristã levou-o, tradicionalmente, à adoção de posições conservadoras, embora menos que o FF. Nos últimos tempos, com a ascensão à liderança de Leo Varadkar, “gay” assumido, registou uma evolução progressista nesse particular, tendo, inclusive, criado um grupo LGBTQI+ no seu seio. Ao contrário do seu rival, não é antibritânico, tendo-se mostrado sempre crítico das ações do IRA, defendendo a reunificação da ilha apenas por meios pacíficos. Menos nacionalista, não favorece tanto a promoção do gaélico e das tradições celtas. Por seu turno, largos setores do partido questionam a neutralidade irlandesa, defendendo a integração do país na NATO.

A maioria do seu apoio vem da burguesia urbana, com destaque para a ligada ao setor financeiro, e das classes médias mais cultas, embora também tenha apoio em certos meios rurais, em especial entre os agricultores mais abastados. Mas, tal como o FF, é a guerra civil, mais que a classe social, que explica, ainda, a pertença a um dos dois partidos históricos.

Vencedor da guerra civil, a Cumann na nGaedheal esteve no poder até 1932, sob a liderança de William T. Cosgrave, quando foi derrotada pelo FF. A partir daí, e até 2011, o FG tornou-se a segunda maior força política, mas, nesse período, apenas ascendeu ao poder num total de 16 anos e sempre em coligação com os trabalhistas e, em alguns casos, outras formações minoritárias. Após a crise financeira, venceu folgadamente as legislativas de 2011 e tornou-se o maior partido. Nas de 2016, manteve a posição cimeira, mas perdeu votos e foi obrigado a fazer um acordo de incidência parlamentar com o rival FF.

O recuo eleitoral verificado levou, em 2017, à saída do então primeiro-ministro Enda Kenny, que foi substituído por Leo Varadkar, o primeiro de origem indiana e assumidamente “gay”, algo impensável há duas décadas atrás.

Nestas eleições, sofreu uma derrota ainda mais pesada, quedando-se pelos 20,9% e 35 eleitos/as, tendo sido relegado para terceira força política. Nas últimas eleições, conseguira 25,5% e 50 lugares.

O partido pagou pela impopularidade do governo, que foi incapaz de levar a recuperação económica às pessoas. O agravamento da crise habitacional e a incapacidade de reverter a degradação dos serviços públicos explica a sua derrota, em especial as quebras registadas nas áreas urbanas, à exceção das mais ricas.

Na distribuição territorial, o FG obteve os seus melhores resultados na região de Munster (Sudoeste), embora seja o partido cujo eleitorado mostra menores assimetrias regionais na sua votação. Apesar disso, nota-se o aumento do apoio em certas áreas rurais de Connacht (Oeste), em especial o condado de Mayo, e nos subúrbios mais ricos da zona meridional da área metropolitana de Dublin e de algumas cidades médias, como Limeirick, Galway ou, mesmo, Cork. Os piores ocorrem nas áreas urbanas habitadas pelas classes baixas, em alguns condados rurais da região do Leinster (Leste) e em certas áreas da fronteira setentrional, em Connacht e nos três condados irlandeses do Ulster.

Ao nível etário, a sua distribuição é muito semelhante à do FF, com a maioria do apoio entre os mais idosos (28,7%) e o menor entre os mais jovens (15,8% entre os 25 e os 34 e apenas 14,0% entre os menores de 25 anos).

Em termos de género, o seu eleitorado é, igualmente, maioritariamente masculino, mas a diferença entre homens e mulheres é menor que nos do SF e do FF: 21,1% nos primeiros contra 20,6% nas segundas.

Green Party (GP): um forte crescimento com sabor a desilusão

Ao contrário dos anteriores partidos, que têm as suas origens no início do século passado, o Green Party (GP) é recente, tendo sido formado em 1981 como Partido Ecologista. Em 1983, passou a chamar-se Aliança Verde e, em 1987, adotou o atual nome, mas manteve a anterior designação em gaélico (An Comhaontas Glas). O seu atual líder é Eamon Ryan.

É um partido ecologista, pró-UE, que podemos situar no centro-esquerda. Defende um serviço nacional de saúde universal e gratuito e opõe-se, terminantemente, à privatização da água. É extremamente liberal em matéria de costumes, defendendo o direito ao aborto, ao casamento homossexual e à eutanásia. Pugna por uma reforma do sistema político, que contemple a eleição direta do Senado e o voto aos 16 anos. Na questão nacional, defende o uso da língua gaélica e a reunificação por meios pacíficos, condenando a violência sectária. Desde 2006, integrou o partido verde norte-irlandês (GPNI), que se tornou num ramo do GP.

Os verdes integraram, em 2007, o executivo, em coligação com o FF, primeiro liderado por Bertie Ahern e, depois por Brian Cowen. Essa opção viria a revelar-se desastrosa, devido ao eclodir da crise. Nas eleições seguintes, em 2011, perdeu a representação parlamentar, que recuperaria em 2016.

Neste ato eleitoral, tiveram uma boa prestação, embora aquém do que previam algumas sondagens, ao obterem 7,1% dos votos, que lhes valeram a conquista de 12 lugares. Nas legislativas anteriores, não passaram dos 2,7% e a eleição de apenas dois parlamentares.

A emergência das alterações climáticas, em especial a mediatização da figura de Greta Thunberg, contribuiu para o crescimento eleitoral dos partidos verdes e a Irlanda não foi exceção. Contudo, ao colocar o acento tónico da campanha apenas nessa problemática, o GP desiludiu algum eleitorado mais à esquerda, cujas grandes preocupações eram a habitação e os serviços públicos. Daí que os resultados tivessem ficado aquém das expectativas.

É um partido cujos apoios radicam, essencialmente, na juventude urbana e nas camadas mais cultas da população.

Não surpreende, assim, que os seus melhores desempenhos tenham ocorrido na área metropolitana de Dublin, em especial nas zonas residenciais das classes altas, onde ficou muito acima da média nacional. No resto do país, os seus resultados foram mais fracos, à exceção de algumas áreas urbanas com características semelhantes em Cork, Limeirick e Waterford e do condado de Clare, no Oeste. Já os piores ocorreram nos três condados do Ulster situados junto à fronteira com o Norte.

Sem surpresa, o seu apoio é maior entre os mais jovens (13,6% entre os menores de 25 anos, onde praticamente empata com FF e FG). Este diminuiu entre os adultos, embora se mantenha acima da média nacional (cerca de 8,5% entre os 25 e os 49 anos) e é bastante menor entre os mais idosos (5,8% dos/as eleitores/as entre os 50 e os 64 anos e apenas 3,8% nos/as maiores de 65).

Ao nível do género, é um voto mais feminino: 6,7% nos homens e 7,6% nas mulheres.

Labour (LAB): O plano inclinado descendente continua

O Labour Party foi fundado em 1912, como ramo político da central sindical do país, o Trade Union Congress (TUC), pelos sindicalistas e republicanos James Larkin, James Connolly e William O’Brien. Ao contrário dos restantes partidos históricos, não tem origem no Sinn Féin.

É uma formação social-democrata, aparentada com os trabalhistas britânicos, que mantém uma forte influência no movimento sindical. Contudo, pelo facto de a República da Irlanda ter sido, durante muito tempo, um país essencialmente rural, apenas com alguma indústria significativa na capital e suas imediações, o Labour irlandês nunca logrou a projeção dos seus congéneres britânicos. Por outro lado, ao contrário de outros partidos social-democratas europeus, é relativamente conservador em matéria de costumes. Não coloca grande ênfase na questão nacional, embora tenha laços com o Partido Social-Democrata e Trabalhista (SDLP) da Irlanda do Norte, que defende a reunificação pacífica da ilha e tem o apoio entre os/as católicos/as moderados/as do território.

O partido, que esteve muito empenhado na Revolta da Páscoa de 1916, dividiu-se durante a guerra civil: se a maioria dos principais dirigentes apoiaram o Tratado, muitos militantes participaram nas forças irregulares do IRA, que se lhe opunham.

No período que se seguiu à independência, antes da entrada em cena do FF, em 1926, foi a principal força de oposição ao governo do Estado Livre. Em 1932, deu apoio parlamentar ao governo de Éamon De Valera, que prometera a adoção de políticas mais sociais que a Cumann na nGaedheal, no peder desde a independência, dez anos antes.

A partir de 1948, passou a servir de “muleta” ao FG, com quem se coligou sempre que este acedeu ao governo. Nos anos 90, tal como outros partidos congéneres, aderiu às teses neoliberais.

Nas eleições de 2011, a crise que deflagrara dois anos antes provocou um grande descontentamento com os partidos então no governo, em especial o FF e o GP. O Labour obteve, então, o seu melhor resultado desde a independência (19,5%) e coligou-se, mais uma vez, com o FG. Contudo, a desilusão com a governação da coligação de centro-esquerda, em especial após a adoção de uma reforma fiscal regressiva, provocou uma queda abrupta da votação no partido, que sofreu uma verdadeira hecatombe eleitoral.

O seu maior apoio vem das classes trabalhadoras, em especial do operariado, e de alguns setores da administração pública.

Nesta eleição, os trabalhistas, sob a liderança de Brendan Howlin, continuaram em queda e quedaram-se por uns modestos 4,4% e seis deputados/as, o seu pior resultado de sempre. Em 2016, tinham conseguido 6,6% e sete mandatos.

O seu fraco desempenho resulta da desilusão que constituiu a sua passagem pelo governo de Enda Kenny e pelo aparecimento de uma força política na mesma área, os Social-Democratas.

Na distribuição territorial do voto, foi na região metropolitana de Dublin que conseguiu os melhores resultados, bem como em algumas cidades de média dimensão do Leinster (Leste) e na zona operária de Cork, no Sudoeste. No Norte e Noroeste, o seu desempenho foi muito fraco, obtendo, aí, votações residuais.

Quanto à idade, o maior apoio ao Labour vem dos maiores de 65 anos e dos adultos entre os 35 e os 49 anos (4,9% e 4,8%, respetivamente), enquanto a sua percentagem está próxima da média nacional no eleitorado entre os 50 e os 64 anos e um pouco abaixo nos jovens adultos, entre os 25 e os 34. Já entre os mais jovens, menores de 25 anos, é residual, não indo além dos 2,4%.

Relativamente ao género, o voto trabalhista é um pouco mais masculino que feminino: 4,5% nos homens e 4,2% nas mulheres.

Social Democrats (SD): Tática inteligente dá mais representantes

Os Social Democratas (SD) são uma pequena formação de origem recente, criada por três parlamentares independentes: as dissidentes trabalhistas Catherine Murphy e Róisín Shortall, mais Stephen Donnelly. Este último, ligado a uma consultora financeira, deixou o partido em 2016 e aderiu, no ano seguinte, ao FF, pelo qual seria agora reeleito.

A primeira ganhou grande prestígio e popularidade ao denunciar, no Parlamento, um esquema de corrupção em que esteve envolvido o milionário Denis O’Brien, um dos homens mais ricos do país, quando este conseguiu obter uma providência cautelar para evitar que o caso fosse noticiado nos “media” irlandeses. Por seu turno, a segunda demitiu-se do governo que integrava após exigir explicações do então Ministro da Saúde por decidir a construção de uma nova unidade de cuidados primários no círculo por onde fora eleito.

Estamos em presença de uma formação de centro-esquerda, defensora do chamado “modelo nórdico”. É favorável a uma nova política urbanística que favoreça o acesso de todos/as a uma habitação digna, congele as rendas e penalize os proprietários de casas vazias e os especuladores imobiliários e à criação de um serviço nacional de saúde universal e gratuito. Opõe-se, ainda, à taxa da água, que suscitou grandes protestos populares. É progressista em matéria de costumes, defendendo a liberdade religiosa e a educação laica. Propõe a criação de uma agência nacional independente anticorrupção. É pró-UE e defende a reunificação da ilha, embora por meios pacíficos.

O seu eleitorado é esmagadoramente urbano, de classe média.

Nestas eleições, obtiveram 2,9% e elegeram seis parlamentares. Curiosamente, os 3,0% de 2016 apenas lhes valeram três lugares.

Esse fenómeno explica-se pela tática utilizada, apostando em figuras prestigiadas num número relativamente reduzido de circunscrições (20 em 39). Contudo, o seu êxito relativo deve-se, igualmente, ao bom desempenho parlamentar da sua colíder, Catherine Murphy.

Do ponto de vista territorial, os SD obtiveram os melhores resultados na área metropolitana de Dublin, em especial nas zonas setentrional e central, e na parte ocidental de Cork. O partido não apresentou candidatos/as no Ulster e na maior parte das circunscrições rurais, onde o seu desempenho é mais fraco.

Em termos de idade, tem maior apoio entre os adultos jovens, entre os 25 e os 34 anos (4,1%). Ainda consegue uma adesão superior à média na juventude (3,6% nos menores de 25) e nos adultos maduros (3,4% entre os/as eleitores/as com idades entre os 35 e os 49 anos). Ao invés, penetra pouco nos mais idosos, não indo além de 1,3% nos maiores de 65.

A sua preocupação com as políticas habitacionais ajuda a explicar a distribuição etária da sua votação.

Por seu turno, quanto ao género, estamos em presença de um eleitorado maioritariamente feminino (3,3% de mulheres contra 2,5% de homens), a que não será estranho o facto de os SD serem liderados por duas mulheres.

Solidarity - People Before Profit (S-PBP): Voto desviado para o SF explica perdas ligeiras

A aliança Solidarity - People Before Profit resultou da união entre várias formações da esquerda socialista.

O Solidariedade (S) tem como base o Partido Socialista (SP), uma formação de inspiração trotskista, filiada na Internacional Alternativa Socialista. Em 2014, criou a Aliança Anti Austeridade (AAA), registada como partido político.

Por seu turno, o PBP, fundado em 2005, tem origem noutra organização trotskista, o Partido Socialista dos Trabalhadores (WSP), ligado à Internacional Socialista Tendência, e que, desde 2018, adotou a designação Rede Socialista dos Trabalhadores (SWN).

Em 2015, após negociações entre ambas, deixaram cair os respetivos registos partidários e transformaram a aliança que criaram num novo partido, que concorreu às eleições gerais de 2016 e deste ano.

Contudo, mantém organizações separadas. Assim, apesar de ambas atuarem dos dois lados da fronteira irlandesa, concorrem separadas no Norte: o PBP sob a mesma designação, enquanto o Solidariedade apoia a lista da Alternativa Laboral Intercomunitária (CCLA).

Em setembro de 2019, surgiu o RISE (Radical, Internacionalista, Socialista e Ambientalista), uma dissidência do SP, que aderiu à aliança como terceira componente daquela.

Estamos em presença de duas formações anticapitalistas, que defendem a adoção de políticas socialistas. Contestam o estatuto da Irlanda como “paraíso fiscal”, propondo a taxação das transações financeiras, o aumento dos impostos sobre as grandes empresas e as grandes fortunas, consagrando uma maior progressividade fiscal, a par da abolição do imposto sobre a propriedade e da contestada taxa sobre a água. Defende, ainda, uma política de habitação social, que combata a especulação imobiliária e decrete o congelamento das rendas. Advoga, ainda, o aumento dos direitos laborais e sindicais. É favorável à reunificação irlandesa, embora considere que é necessário unir os trabalhadores católicos e protestantes contra o seu inimigo comum: o capitalismo. Ao contrário do SF, apelou ao voto “leave” no referendo do Brexit.

Tem apoio em alguns segmentos das classes média e baixa suburbanas e na juventude estudantil.

Nestas eleições, ficou-se pelos 2,6%, mas conseguiu eleger cinco deputados/as. Nas legislativas de 2016, tinha atingido os 4,0% e seis mandatos.

Essa quebra eleitoral ter-se-á devido, fundamentalmente, ao desvio de votos para o Sinn Féin, visto por algum eleitorado da esquerda radical como tendo hipóteses de, pela primeira vez, derrotar os dois partidos do centro-direita. Contudo, os/as seus/suas candidatos/as mais prestigiados/as beneficiaram das transferências do SF e de outras forças de esquerda, o que permitiu à aliança perder apenas um lugar.

Ao nível territorial, o S-PBP teve, como habitualmente, os melhores desempenhos em algumas periferias da área metropolitana de Dublin, em especial na zona ocidental e no porto de Dún Laoghaire, onde foi reeleito o histórico Richard Boyd Barrett. No resto do país, à exceção do centro de Cork, os seus resultados foram residuais.

Quanto à idade, estamos em presença de um voto essencialmente jovem. Com efeito, nos menores de 25 anos, a sua percentagem (6,6%) mais que duplica o valor da média nacional. Ainda é razoavelmente superior a ela no escalão entre os 25 e os 34 (3,9%), mas a adesão à aliança vai decrescendo com o aumento da idade, não indo além de 1,8% entre os maiores de 65.

Já em relação ao género, estamos em presença de um voto maioritariamente feminino: 2,4% nos homens e 3,2% nas mulheres.

Aontú (A): só conseguiu eleger o líder

Por seu turno, o Aontú, designação gaélica que significa Unidade, é uma formação nova, criada no início de 2019 por Peadar Tóibín, antigo parlamentar do SF, que discordou da posição favorável do seu antigo partido à despenalização do aborto.

Trata-se, assim, de um partido extremamente conservador em termos de costumes, mas que mantém as ideias progressistas do Sinn Féin em matérias de natureza económica, social e ambiental, bem como na questão nacional, apoiando expressamente a reunificação irlandesa.

Porém, neste ato eleitoral não foi além de 1,9% e apenas logrou eleger o seu líder.

Do ponto de vista territorial, recolhe mais apoio nas áreas rurais, tendo os piores resultados na área metropolitana da capital.

Ao nível etário, conquista a maior adesão entre os maiores de 65 anos (2,5%) e a menor entre os menores de 25 (1,2%).

Já quanto ao género, é um voto maioritariamente masculino (2,2% nos homens e 1,6% nas mulheres).

Independentes: menos votos, mas mais decisivos

Os/as candidatos/as independentes somaram 12,6%, tendo 20 sido eleitos/as. Em 2016, o conjunto destes/as atingiu os 20,0% e 23 parlamentares.

Entre eles/as, conta-se a deputada Joan Collins, do grupo de esquerda Independents 4 Change (I4C). Este, que conseguiu dois mandatos nas europeias, não apostou muito nas legislativas, apenas apresentando duas candidaturas, pelo que não foi além de 0,4%.

Os/as restantes são de diversas tendências, havendo alguns/mas com agendas próprias, pelo que não constituem um grupo homogéneo.

Ao nível territorial, a maioria destas candidaturas teve maior apoio nas áreas rurais do Oeste do país (em especial na região de Connacht, no Oeste, seguido de Munster, no Sudoeste). Em contrapartida, tiveram menos expressão em Leinster (Leste) e, especialmente, em Dublin.

Essa distribuição explica-se pelo facto de muitos/as desses/as candidatos/as serem figuras com prestígio ao nível local, o que lhes garante uma boa votação nas suas circunscrições.

Do ponto de vista da idade, obtiveram mais votos na faixa etária compreendida entre os 50 e os 64 anos (14,0%) e também nos maiores de 65 (12,6%). Ao invés, suscitaram menor adesão entre os mais jovens, não indo além dos 10,2% nos menores de 25.

Quanto ao género, estamos em presença de um voto maioritariamente feminino (13,3% nas mulheres e 11,8% nos homens).

Apesar de terem recebido menos votos que em 2016, os/as independentes serão mais decisivos/as para a formação do novo governo, como veremos já de seguida.

Participação: Desencanto e meteorologia explicarão descida

A participação eleitoral foi de 62,9%, contra os 65,0% de 2016.

Essa quebra estará relacionada com algum desencanto com as políticas seguidas pelo FF e pelo FG, o que terá levado muitos dos seus/suas eleitores/as a ficar em casa. Acresce a isso, as condições climáticas desfavoráveis, já que o tempo esteve bastante tempestuoso no dia da eleição.

A difícil formação do governo

A maioria parlamentar de centro-direita entre o FG e o FF, que assegurou a governação do país nos últimos quatro anos, não vai além de 72 lugares parlamentares (73, com o Ceann Comhairle). Por seu turno, o conjunto dos partidos da esquerda e centro-esquerda (SF, GP, Labour, SD, S-PBP e I4C) fica-se pelos 67. Daí a importância dos/as independentes para a formação do futuro executivo.

Na campanha eleitoral, tanto o FG como o FF rejeitaram aliar-se ao SF. Ao invés, o SF manifestou disponibilidade para negociar com todas as forças políticas, embora manifeste a sua preferência por um acordo à esquerda.

Contudo, a líder do SF, Mary Lou McDonald, terá dificuldade em formar um governo de esquerda, não apenas porque precisaria do apoio parlamentar de 13 independentes, mas também porque o Labour e certos setores do GP não parecem muito interessados nessa solução.

Entretanto, o líder do FF, Micheál Martin, admitiu a possibilidade de um acordo com o SF, decorrendo conversações entre os dois partidos. Contudo, dadas as diferenças ideológicas, em especial na área económica e social, será difícil, embora não impossível, a obtenção de um acordo. Até porque tal solução enfrentará, seguramente, fortes resistências no interior de ambos.

Por outro lado, o ainda primeiro-ministro e líder do FG, Leo Varadkar, manifestou o desejo do seu partido passar à oposição, embora não rejeite renovar a maioria parlamentar com o FF, com o apoio de alguns independentes. Resta saber se teríamos uma grande coligação entre ambos ou o inverso do que sucedeu nos últimos quatro anos: um governo minoritário do FF apoiado no Parlamento pelo FG.

Para já, tudo é possível. Mas uma coisa é certa: o SF já fez história nestas eleições. E mais faria se Mary Lou McDonald se tornasse primeira-ministra da Irlanda. Seria a primeira mulher e a primeira pessoa de esquerda a ocupar o cargo desde a independência, em 1922.

Artigo de Jorge Martins

Irlanda - resultados das eleições legislativas de 2020

Irlanda - resultados das eleições legislativas de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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