Cuba: Um ano depois dos protestos, a crise continua

11 de julho 2022 - 22:09

Foi a 11 de julho do ano passado que saíram à rua os maiores protestos das últimas décadas em Cuba. O governo cubano conseguiu derrotar os que se lhe opuseram, mas as suas vitórias são também ilusórias, porque as questões de fundo não se resolvem. Por Luís Leiria.

porLuís Leiria

PARTILHAR
Polícias patrulham as rua de Havana no primeiro aniversário do 11 de julho. Foto Ernesto Mastrascusa/EPA

Esta segunda-feira, 11 de julho de 2022, marca o primeiro aniversário dos protestos espontâneos que levaram às ruas milhares de cubanos em mais de 50 cidades de toda a ilha, incluindo a capital, Havana. Os manifestantes criticavam a escassez de alimentos, de medicamentos e de bens de consumo essencial, criticavam a gestão da pandemia de Covid-19 e exigiam uma mudança, gritando por liberdade e por “Pátria e Vida”, o tema de uma canção de rappers cubanos, lançada em Miami, e que ganhara enorme popularidade.

Naquele dia, os vídeos dos protestos em San Antonio de Los Baños, logo de manhã, espalharam-se pelas redes sociais e provocaram novos protestos durante todo o dia, ocorrendo alguns já no dia 12.

O Governo reagiu cortando a Internet e chamando à mobilização dos “revolucionários” para o defender. Os ditos “revolucionários” não passavam de agentes da Segurança do Estado vestidos com trajes civis e armados de tacos de beisebol, que se juntaram ao aparato da polícia e até a operacionais do Exército para forçar a dispersão das manifestações e a detenção de manifestantes. Até à intervenção policial e paramilitar, os protestos decorriam pacificamente; diante da repressão, houve confrontos nalguns lugares e registou-se a morte de um manifestante. Lojas de vendas exclusivas em MLC (a “moeda livremente convertível” cotada em dólar e que só pode ser depositada, não podendo ser levantada em dinheiro) foram apedrejadas.

O maior protesto desde 1959

Foi o maior protesto contra o governo ocorrido desde a Revolução de 1959. O presidente Miguel Díaz-Canel denunciou que os protestos tinham sido organizados anteriormente por agentes dos Estados Unidos e nada tinham de espontâneo. O seu objetivo seria o de pôr em movimento uma “revolução de veludo”, à semelhança de algumas ocorridas no Leste europeu nos anos 1990 e que levaram à queda dos regimes do então chamado “socialismo real”. Díaz-Canel apontou o bloqueio dos EUA a Cuba como a origem da falta de alimentos, medicamentos e matérias-primas, asfixiando a capacidade de exportar e de receber divisas para importar e investir, bem como a capacidade de produzir bens e serviços.

As acusações do Governo ao suposto caráter pró-imperialista das manifestações, infelizmente, encontraram eco na esquerda, principalmente a latino-americana. Amigos de longa data no Brasil tentaram convencer-me de que os manifestantes em Cuba tinham exibido bandeiras dos Estados Unidos. Passei longas horas à procura das ditas bandeiras, sem sucesso. A história dos manifestantes cubanos com bandeiras norte-americanas era inverosímil. Mesmo que fossem agentes da CIA, não iam autodenunciar-se dessa forma tão infantil. Claro que naquele dia houve manifestações de cubanos exibindo bandeiras dos EUA, mas eram os cubanos de Miami.

Aliás, os defensores dessa tese não se dão conta da armadilha em que caem: se o 11-J fosse obra da CIA, então Washington já teria conseguido uma implantação considerável em todo o território cubano, a ponto de poder pôr na rua o maior protesto antigovernamental desde a Revolução de Fidel e Che.

Grave crise

Na verdade, as manifestações foram fruto da mais grave crise económica que a Ilha vive desde os anos 1990 do século passado, quando Cuba perdeu o apoio económico da União Soviética, que se dissolveu.

Desta vez foi a pandemia, que atingiu devastadoramente o setor do turismo, a principal responsável pela crise que arrastou o país para uma retração de 11% em 2020. Já as projeções para 2021 apontam para crescimento anémico, entre 0,5% e 2%.

O bloqueio promovido pelos EUA tem responsabilidades por estes dados? Tem, sem dúvida, mas também o tem, e mais, a política do governo cubano. Em tempos de pandemia, com a maioria dos hotéis às moscas, Havana continua a gastar a esmagadora maioria do orçamento de Estado na construção de novos hotéis, relegando a saúde e a educação para despesas ridículas. Para se ter uma ideia, em 2014, o investimento estatal em serviços empresariais, atividades imobiliárias e de aluguer era 21,4% e na Saúde era 2,2%, uma diferença já absurda. Pois em 2021, passou, respetivamente, para 50,3% e 0,3%!

Onda de ativismo

A força do 11-J provocou uma onda de ativismo através da Internet que deu origem a uma organização, a Arquipélago, de funcionamento inédito. Declarava-se totalmente horizontal nas suas decisões, sempre, se possível, tomadas por consenso. Um dramaturgo, ator e encenador, Yunior García, assumiu como porta-voz do movimento. O seu objetivo era organizar as primeiras manifestações de oposição legalizadas, ao abrigo da nova Constituição, que estabeleceu a liberdade de manifestação. Assim, foram entregues às autoridades os requerimentos, devidamente assinados por dezenas de pessoas, pedindo a autorização para a realização de manifestações no dia 15 de novembro, em Havana e outras cidades.
Entre os ativistas da Arquipélago o entusiasmo era tão grande que não se aperceberam que estavam a entregar todas as suas informações ao Governo. Este enviava os seus espiões às redes, onde se travavam todas as discussões, para identificar os ativistas e preparar as medidas de repressão individualizadas que permitissem neutralizá-los.

Quando o Governo negou as autorizações e os responsáveis decidiram manter a convocatória, a possibilidade de sucesso passou a ser cada vez mais ténue. No dia marcado, não houve qualquer manifestação. Desordeiros organizados pela Segurança do Estado foram fazer “manifestações de repúdio” na frente das residências dos principais ativistas, impedindo-os de sair. O medo espalhou-se. Yunior García acabou por negociar a sua saída, com a família, para Madrid, espalhando a desmoralização.

Condenações absurdas

Ao mesmo tempo, decorriam os julgamentos dos envolvidos no 11-J, com os tribunais a ditarem condenações absurdas, perante acusações igualmente absurdas. Sentenças de 30 anos, pela acusação de “sedição”, muitas penas de 25 anos, de 19 anos, de 18 anos. Houve jovens com penas de seis anos por terem convocado a manifestação nas redes sociais! De acordo com a Procuradoria Geral da República, um total de 790 pessoas foram processadas, incluindo 55 entre 16 e 17 anos.

Um ano depois do 11 de julho, o Governo conseguiu derrotar os que se lhe opuseram. Mas as suas vitórias são também ilusórias, porque as questões de fundo não se resolvem. Cada vez mais jovens cubanos procuram fora do país as oportunidades que não encontram ali. A crise demográfica aperta a ilha e deixa-a cada vez mais pobre.

“A minha opinião é que estamos a assistir ao esgotamento definitivo de um modelo económico e político, o do socialismo burocrático. Quem lidera não consegue fazer a nação progredir com os velhos métodos, mas não consegue aceitar formas mais participativas, com maior peso da cidadania na tomada de decisões” analisou já há algum tempo a historiadora e ensaísta Alina Bárbara López Hernandez, coordenadora da publicação digital de esquerda La Joven Cuba. Tem razão.

Luís Leiria
Sobre o/a autor(a)

Luís Leiria

Jornalista do Esquerda.net