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Cláudia Simões foi “vítima de agressão”, dizem bombeiros

Os bombeiros que socorreram Cláudia Simões registaram na certidão que esta fora “vítima de agressão”, embora a PSP tenha chamado ajuda devido a “uma queda”. Para sábado estão convocadas manifestações de solidariedade para Coimbra, Lisboa e Porto.
Cláudia Simões foi “vítima de agressão”, dizem bombeiros
Foto de Cláudia Simões/Facebook.

A história de Cláudia Simões tem sido noticia na passada semana: a mulher acusa um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) de agressão na sequência de um desentendimento com o motorista do autocarro da Vimeca onde viajava com a sua filha de oito anos.

Agora é o jornal Público que faz saber que os bombeiros que a socorreram às 21:27 de dia 19 na Esquadra de São Brás registaram que esta fora “vítima de agressão”. Apesar da PSP ter qualificado a situação como resultante de “uma queda”, a certidão dos bombeiros apresenta uma análise bastante diferente.

O jornal teve acesso à certidão dos Bombeiros da Amadora e através desta sabe-se que a PSP contactou o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) com um pedido de auxílio resultante de uma queda. O CODU por sua vez contactou os Bombeiros da Amadora que acabaram por encaminhar Cláudia Simões para o Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra).

Ao chegarem à Esquadra de São Brás, os bombeiros encontraram a mulher “deitada de lado na rua perto do carro da PSP, sem estar algemada, exactamente a descrição que a própria fez do sucedido, com sangue e hematomas na boca e uma lesão no nariz, provocada ‘por uma pancada’”, de acordo com o relatado pelo comandante Mário Conde ao Público. Foi Cláudia que disse aos bombeiros ter sido agredida.

O que aconteceu naqueles 34 minutos?

Cláudia Simões foi constituída arguida com acusações de injúrias e por morder o polícia Carlos Canha. Os advogados de defesa fizeram uma cronologia dos acontecimentos de dia 19 de janeiro. Porém, estes afirmam que “há 34 minutos” entre o momento em que Cláudia é detida e a chegada à Esquadra de São Brás “em que não sabemos o que aconteceu”. Para a composição da cronologia os advogados recorreram aos vídeos do momento da detenção que possuem geolocalização e data, os dados da própria PSP e o registo dos Bombeiros da Amadora.

As linhas do tempo de Cláudia Simões e da PSP divergem. Se a polícia diz que o desentendimento no autocarro teve lugar às 20h30, a detenção às 21h16 e a condução para o hospital às 22h, Cláudia diz que apesar do vídeo em que se vê o polícia Carlos Canha em cima dela ter sido gravado às 20h52, a detenção tinha começado antes.

 

Ana Cristina Domingues, uma das advogadas de Cláudia Simões, defende que o segundo vídeo, onde se pode ver Carlos Canha a fazer um “mata-leão” à mulher, permite situar o fim da detenção às 20h58, “o que é uma divergência com a versão da PSP que fala na detenção às 21h16, hora a que diz que Cláudia Simões é colocada no carro”, refere ao Público. Não se sabe, contudo, o que aconteceu entre 20h58 e as 21h32, justamente o período de tempo em que Cláudia diz ter sido agredida e insultada.

“Só me dava socos na boca e na cara, por isso tenho a boca toda rebentada. Perdi os sentidos. Dizia: ‘grita agora sua filha da puta, preta, macacos, vocês são lixo, uma merda’”, descreveu Cláudia ao jornal Público. Disse ainda que quando pararam na esquadra da Boba, a deixaram cair e a largaram: “fiquei de barriga para cima, estava a deitar sangue e eles viraram-me de lado”, o que corresponde ao registo dos bombeiros.

Dias depois, foi o motorista da Vimeca envolvido no desentendimento que deu origem a este caso que foi vítima de agressões. A PSP está a acompanhar o caso, mas não existem até ao momento detidos, sabendo-se apenas que a agressão foi física, sem recurso a armas. A Vimeca permanece em silêncio sobre os dois casos.

Manifestações contra a violência racista

Estão convocadas para sábado, 1 de fevereiro, três manifestações contra a violência policial. O texto que as convoca exige “justiça para Cláudia e para todos os que são alvo desta violência”, expulsão “de todos os racistas e agressores da PSP” e pede “uma investigação séria e independente ao racismo em todas as forças de segurança, feita pelas nossas organizações” e “políticas firmes de combate aos discursos racistas nos meios de comunicação social”.

As manifestações terão lugar em Lisboa, no Marquês de Pombal, no Porto, na Praça dos Poveiros, e em Coimbra, na Praça da República.

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