Europeias 2024

Cinco anos para mudar tudo

23 de maio 2024 - 20:05

As deputadas e deputados que forem agora eleitas irão tomar decisões existenciais, não só sobre o futuro deste continente como do resto do planeta, dada a importância económica, política e até militar da UE no contexto global. Isto numa década que é absolutamente crucial para travar as piores consequências da emergência climática.

por

Luís Fazendeiro

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manifestação pela justiça climática
Manifestação pela justiça climática. Foto de Linh Do/Flickr

As eleições europeias de 9 de junho têm o potencial de mudar a nossa vida. A composição do próximo Parlamento Europeu vai ser decidida numa altura de guerra na Europa, genocídio na Palestina, agravamento da crise ecológica e escalada da extrema-direita um pouco por todo o mundo. As deputadas e deputados que forem agora eleitas irão tomar decisões existenciais, não só sobre o futuro deste continente como do resto do planeta, dada a importância económica, política e até militar da UE no contexto global. Isto numa década que é absolutamente crucial para travar as piores consequências da emergência climática.

Transição ecológica: a chave para uma prosperidade futura

A discussão em torno da crise climática tem estado demasiado centrada em discursos catastrofistas e nos piores cenários que poderão ocorrer ainda neste século. Sejamos claros: a situação dificilmente poderia ser mais dramática, com a meta de não ultrapassar os 1,5 ºC de aquecimento completamente pulverizada, as emissões a continuarem a subir e os eventos extremos a aumentar de intensidade a cada ano. Mas também importa dizer que enfrentar esta crise é talvez a maior oportunidade de que dispomos para refazer a economia e a sociedade, com base em princípios de maior justiça social e equidade. Ao taxar os maiores poluidores, ao promover sistemas fiscais mais progressivos, ao quebrar os grandes monopólios e oligopólios privados, temos também a hipótese de melhorar a qualidade de vida da maioria da população e de reduzir as drásticas desigualdades económicas existentes. Até porque são precisamente os mais ricos os principais responsáveis pela grande maioria das emissões.    

É preciso dizer de forma muito clara que a luta contra o colapso climático é também a luta por uma vida melhor! Por cidades mais limpas, descongestionadas e com melhor qualidade do ar. Por transportes públicos acessíveis e de boa qualidade. Por um melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, sendo a redução do horário laboral uma das medidas que pode trazer reais benefícios ambientais e climáticos. Por uma alimentação saudável, que não esteja refém dos grandes lóbis agroindustriais, com a sua ênfase na proteína animal e nos alimentos processados. Por florestas diversas, que garantam o sequestro de carbono de longo prazo, ao mesmo tempo que promovem a qualidade de vida, o turismo de natureza, a preservação do património cultural e comunitário. Por uma agricultura sustentável, que regenere os solos, promova a biodiversidade e produza alimentos com elevado teor de nutrientes; em vez de poluir rios e aquíferos e contribuir para a desertificação.

Por tudo isto devemos promover uma transição climática e ecológica, de matriz fortemente ecossocialista, que critique a lógica do crescimento a todo o custo e a delapidação de recursos naturais e da nossa humanidade. Por oposição a uma transição meramente “energética”, que até pode substituir uma fonte de energia por outra mais sustentável, mas sem ter em conta os impactos sociais e ambientais dessa escolha, bem como as enormes injustiças históricas criadas pelo capitalismo e as desigualdades que este gera.

Se é fácil cair no desespero em relação à crise climática, importa também realçar que o curto de tempo de vida médio do metano na atmosfera (cerca de 12 anos, sendo o segundo gás com efeito de estufa mais importante) implica que medidas rápidas na redução das suas emissões terão um impacto igualmente rápido, permitindo cumprir a meta de não ultrapassar os 2 ºC de aquecimento global. A classificação do gás fóssil (dito “natural”) como uma energia “limpa” por parte da UE, quando este é constituído em média por 90% de metano, é assim um dos erros que urge reverter rapidamente. Além disso, a estrutura marginalista de formação de preços leva a que em Portugal seja o gás fóssil quase sempre a ditar o custo da eletricidade, inflacionando assim os custos para os consumidores.

De igual modo, a urgência da crise climática não nos pode precipitar via a soluções tecnocráticas, só porque aparentam ter baixas emissões. As centrais nucleares podem não emitir dióxido de carbono durante o seu funcionamento, mas é preciso não esquecer que a sua construção, a mineração de urânio, o seu transporte e processamento, e o próprio encerramento das centrais implicam enormes emissões ao longo de todo o seu ciclo de vida. Isto para não falar do permanente risco de acidentes e de não haver qualquer solução de longo prazo para armazenar resíduos radioativos com a duração de muitos milhares de anos. Por tudo isto, o nuclear não pode ser visto como uma energia “limpa” – e muito menos sustentável.

A pressão de manter o estatuto socioeconómico a todo o custo está a empurrar a sociedade para a adoção do carro elétrico e para a explosão na mineração de lítio. Ainda que, face à emergência climática, os veículos elétricos façam parte de uma solução de mobilidade mais sustentável e não devam ser diabolizados, a prioridade absoluta deve ser no aumento e na melhoria da rede de transportes públicos, que é mais eficiente em termos energéticos e de uso de materiais, cria mais emprego e contribui para criar comunidades mais ricas e interligadas. Em locais mais afastados da malha urbana, outras soluções terão de ser consideradas, desde a conversão de veículos a combustão interna para elétricos, à mobilidade ligeira partilhada, de modo a garantir justiça social e não deixar ninguém para trás.

Portugal e os retrocessos

Em Portugal têm-se visto alguns retrocessos nos últimos anos, apesar da retórica do Partido Socialista em torno da “transição energética”. O relatório mais recente da Agência Portuguesa do Ambiente sobre esta matéria dá-nos conta que em 2022 se verificou um ligeiro aumento de 0,1% das emissões nacionais, face ao ano anterior. Isto numa altura em que estas deveriam estar a cair entre 4 a 5% todos os anos sem exceção, de modo a cumprir as metas com que o país se comprometeu para 2030. Apesar do aumento na capacidade de energia renovável, este está a acontecer de forma excessivamente centralizada, contra a vontade das populações locais, e muitas vezes com enormes impactos ambientais, como se tem visto no caso das mega centrais solares ou das novas barragens. Neste contexto urge dar prioridade às comunidades energéticas e ao combate à pobreza energética, instalando solar fotovoltaico em áreas que já estejam artificializadas (por exemplo, parques de estacionamento e os telhados de escolas, hospitais, estabelecimentos comerciais e escritórios) e nunca em zonas de reserva agrícola ou ecológica.

Outro erro que importa reverter com urgência é a exploração de lítio e outros minérios a céu aberto, com enormes impactos para as comunidades locais e para os ecossistemas. Garantir uma moratória para a mineração em mar profundo, bem como o fim dos Projetos de Interesse Nacional, que ameaçam a península de Tróia e outras áreas sensíveis. Em vez de resorts turísticos de luxo e novos campos de golfe, a prioridade deve ser a expansão rápida da ferrovia, dos transportes públicos e da área florestal, bem como o fim do aumento do eucaliptal e das monoculturas de caráter intensivo e extrativista.

Ganhar o futuro

Todas estas medidas implicam a criação de milhões de novos empregos, ao nível europeu, e de várias centenas de milhares em Portugal, quer nas áreas que permitem a redução rápida das emissões, quer no setor da adaptação aos efeitos da crise climática que já estão hoje connosco – e aos que já não é possível evitar. Nesta nova economia, a prioridade absoluta deve ser dada aos trabalhadores das indústrias mais poluentes, de modo a garantir uma transição justa e que não deixe ninguém para trás.   

O investimento para esta enorme transição deverá ser maioritariamente público, o que implica uma revisão das regras orçamentais impostas atualmente pela União Europeia e um alargar do que é considerado possível. As fontes para este financiamento incluem o fim de todos os subsídios aos combustíveis fósseis (salvaguardando sempre eventuais impactos nas camadas mais desfavorecidas da população), o fim dos paraísos fiscais e a forte taxação das empresas mais poluentes. Não é à toa que estas estão a financiar abundantemente as forças reacionárias de extrema-direita: tendo perdido a discussão em termos científicos e sendo incapazes de abdicar dos lucros astronómicos que o capitalismo fóssil continua a permitir, só mudando o assunto e minando todo o sistema político é que poderão manter o poder de que têm beneficiado ao longo de décadas.

Nos últimos anos, o Bloco de Esquerda foi a força política portuguesa que teve, de longe, o melhor desempenho no Parlamento Europeu ao nível das políticas climáticas e ambientais. Neste barómetro, o PS surge num distante segundo lugar, enquanto PSD e CDS são classificados como “pensadores pré-históricos” e claras forças de bloqueio. No próximo dia 9 de junho, dificilmente a escolha poderia ser mais clara: apenas uma forte maioria de esquerda no Parlamento Europeu poderá acionar a mudança de que precisamos nesta década crítica. Não temos mais tempo a perder.


Luís Fazendeiro é investigador em Sistemas Energéticos Sustentáveis