Europeias 2024

Campanha alemã marcada por atos de violência e discurso de ódio

24 de maio 2024 - 21:22

Os ataques a candidatos da esquerda são o resultado do aumento do discurso de ódio numa campanha em que o candidato da extrema-direita foi obrigado a retirar-se após defender que os membros das SS não eram criminosos.

PARTILHAR
iniciativa de campanha da AfD
Iniciativa de campanha da AfD. Foto Matthias Berg/Flickr

Segundo as últimas sondagens para as eleições europeias na Alemanha, a União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU), o partido de Ursula von der Leyen, conta com 30,3% das intenções de voto e a Alternativa para a Alemanha (AfD) com 18,3%. A direita tradicional conservadora e a extrema-direita lideram assim os resultados.

Num momento em que a relação de forças e a lógica de coligações se altera no Parlamento Europeu, a extrema-direita alemã é relevante para um possível reagrupamento da ala mais à direita.

Seguem-se o Partido Social-Democrata (SPD) com 15,6% e os Verdes 13%. Os dois pertencentes à coligação do governo, em conjunto com os liberais (FDP), têm vindo a ser castigados nas sondagens, perdendo votos face às previsões anteriores. Os liberais, por seu turno, têm vindo a recuperar votos e representam a sexta força política com 4,7%.

O novo partido Aliança de Sarah Wagenknecht, ala mais conservadora que saiu do Die Linke, é a quarta força política com 5,9% e o Die Linke, pertencente ao grupo d’A Esquerda, prevê atualmente um resultado de 2,1%, o que significa entre 3 a 5 eurodeputados.

Violência aumenta nesta campanha, bem como contra-mobilização

A campanha na Alemanha está a ser marcada por ataques recentes a candidatos de todo o espectro político. O escalar da violência tem alimentado a discussão sobre a ameaça séria para a democracia, bem como o aumento do discurso de ódio e da polarização contra a população migrante.

Por exemplo, no mês passado, Matthias Ecke, candidato do Partido Social-Democrata, foi espancado enquanto afixava cartazes, e Yvonne Mosler, candidata dos Verdes, foi cuspida e ameaçada enquanto fazia campanha.

Ao mesmo tempo, têm sido organizados vários protestos em massa contra a AfD desde que o consórcio de jornalistas Correctiv revelou que membros da AfD e nazis estavam envolvidos na discussão de planos de deportação massiva de migrantes. Apesar de serem a segunda força política para as europeias, os seus resultados têm sido gradualmente afetados.

AfD no centro do desentendimento da extrema-direita europeia

A AfD tem acumulado escândalos como a detenção de um assessor parlamentar de Krah, suspeito de espionagem para a China, ou a detenção de Björn Höcke, uma das personalidades mais radicais do partido, por ter usado um slogan que era usado pelos nazis: “Tudo pela Alemanha”. Para além disso, no início do ano avançaram com a ideia de um referendo para a saída da Alemanha da União Europeia, o “Dexit”, com pouca adesão política.

Esta quinta-feira, o grupo europeu Identidade e Democracia (ID) expulsou o AfD na sequência do Rassemblement National (RN) de Le Pen ter anunciado a recusa em partilhar bancada do Parlamento Europeu com o partido aemão. Em causa estavam as declarações dadas por Krah, líder do partido e cabeça de lista às europeias, numa entrevista ao La Repubblica em que admitiu que “nunca diria que alguém que usasse um uniforme das SS é automaticamente um criminoso”. Poucas horas depois, Krah decidiu afastar-se da campanha, mesmo que não abdicando do primeiro lugar na lista e do mandato.

O cabeça de lista do Chega às europeias, António Tânger Corrêa, no debate em conjunto com a AD, o PS e a CDU, admitiu que o Chega poderia abandonar o grupo ID, para integrar o grupo dos Conservadores e Reformistas (ECR), onde está Giorgia Meloni e Santiago Abascal, e com quem o Partido Popular Europeu (PPE) está disposto a coligar-se. Tânger Corrêa avançou ainda outra possibilidade: a fusão dos dois grupos. Segundo o jornal Expresso, estão a decorrer contactos nesse sentido.

Die Linke aposta na ativista Carola Rackete

Num momento em que o discurso de ódio e o racismo marcam o debate alemão, o partido de esquerda Die Linke escolhe como segunda candidata na lista às europeias a ativista Carola Rackete. Ficou conhecida internacionalmente em 2019 como capitã do barco Sea Watch por salvar migrantes e tentar atracar em Lampedusa, contrariando Salvini. Agora, como candidata, coloca como prioridades a defesa de direitos humanos depois da aprovação do pacto para as migrações e a política ambiental em interligação com as questões agrícolas.