A reunião, noticiada pela primeira vez esta quarta-feira pela plataforma de jornalismo de investigação Correctiv, teve lugar num hotel rural nos arredores de Potsdam, em novembro do ano passado. No encontro, estiveram presentes dois políticos estaduais e municipais da Alternativa para a Alemanha (AfD), Gerrit Huy, do Bundestag, bem como Roland Hartwig, um ex-deputado que é, desde setembro de 2022, assessor pessoal de Alice Weidel. Os representantes da AfD reuniram-se com Martin Sellner, figura chave na “Nova Direita” pan-europeia e que, em 2019, foi permanentemente impedido de entrar no Reino Unido devido às suas opiniões extremistas. A este último coube apresentar o plano de deportações em massa de migrantes.
O Movimento Identitário, cuja filial austríaca Sellner costumava liderar, opõe-se abertamente à ideia de sociedades multiculturais e expõe a teoria da conspiração de uma “grande substituição”, que, no seu entender, passa por substituir a população branca da Europa por pessoas de África e do Médio Oriente. O Movimento Identitário está numa lista de organizações cuja adesão a AfD considera incompatível com a filiação partidária, tendo o partido negado qualquer ligação ao coletivo no passado. No entanto, nos últimos anos, e tal como refere o The Guardian, a AfD pouco fez para se distanciar da rede ativista.
Sellner é o mentor da ideia de “remigração”, leia-se, o regresso forçado dos migrantes aos seus países de origem através de deportações em massa. Tais deportações visariam não apenas os requerentes de asilo, mas, como Sellner especificou num artigo recente para o jornal da Nova Direita Sezession, também os cidadãos titulares de passaportes alemães que, segundo ele, “formam sociedades paralelas agressivas e em rápido crescimento”.
De acordo com a Correctiv, a “remigração” esteve na ordem do dia durante o encontro entre os políticos da AfD e os ativistas extremistas de direita, com Sellner a apresentar a extradição forçada de cidadãos alemães “não assimilados” como o maior “desafio” se a AfD assumir o poder.
A plataforma de jornalismo de investigação detalha que foi discutida, no âmbito desta reunião, a deportação para um estado não identificado no norte de África, com capacidade para receber até 2 milhões de pessoas.
Sellner terá mesmo sugerido que os ativistas pelos direitos dos refugiados também poderiam ser enviadas para este local.
Num esclarecimento enviado ao The Guardian, Sellner assumiu que apresentou a ideia de “remigração” na reunião. Ainda assim, sublinhou que não se tratava de um plano secreto e que os seus comentários foram abreviados e retirados do contexto.
Sellner clarificou ainda que “a remigração inclui não apenas deportações, mas também assistência local, Leitkultur [‘cultura orientadora’] e pressão para assimilação”, e que “a exigência faz parte de uma política alternativa de migração e família, cujo objetivo é controlar a imigração para que não exceda os limites de receção da Alemanha”.
Em declarações ao jornal britânico, Gerrit Huy, representante da AfD no Bundestag, confirmou a sua presença na reunião e que a discussão sobre a “remigração” esteve na ordem do dia.
Huy lembrou que, em 2017, apresentou ao seu partido planos para um programa de remigração para cidadãos não alemães que não conseguem entrar no mercado de trabalho, e que os mesmos não foram acolhidos. “Ainda mantenho essas propostas”, garantiu.
A AfD está em primeiro lugar nas sondagens em todos os cinco estados do leste da Alemanha, três dos quais irão realizar eleições ainda este ano.