Extrema-direita alemã: Reichsbürger compra terras, AfD ganha câmara

29 de dezembro 2023 - 10:16

Vários movimentos que rejeitam o Estado criado após a derrota do nazismo intensificam a compra de terras em zonas rurais para aí estabelecerem comunidades autónomas. Ao mesmo tempo, Pirna, na Saxónia, torna-se a primeira autarquia alemã presidida por um elemento da extrema-direita.

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Movimento Reichbürger. Foto do Escritório Federal para a Proteção da Constituição da Alemanha.
Movimento Reichbürger. Foto do Escritório Federal para a Proteção da Constituição da Alemanha.

A extrema-direita alemã está a comprar terrenos em zonas rurais com o objetivo de aí estabelecer comunidades autónomas. Os membros do movimento Reichsbürger, as diversas organizações que rejeitam a legitimidade do Estado criado depois da derrota do nazismo, estão também a tentar infiltrar-se em escolas, clubes e organismos públicos.

Esta estratégia está a ser monitorizada quer por várias organizações não governamentais quer também pelos serviços secretos alemães indica o Guardian. A deputada Martina Renner do Die Linke fez já um pedido de informação sobre isto ao Ministério do Interior. No texto, revela-se que grupos de extrema-direita terão comprado, nos últimos dois anos, perto de 40 propriedades e que estas “são utilizadas para estabelecer sociedades paralelas e criar espaços de medo para todos aqueles que não partilham a sua visão do mundo”.

Este movimento parece estar a intensificar as suas ações mas tem mais de uma década. Ridicularizado e negligenciado em grande parte deste tempo, tornou-se conhecido mundialmente em dezembro do ano passado quando as autoridades alemãs desmontaram um plano de tomada de poder, que incluía objetivos como assaltar o parlamento e raptar governantes e deputados, por parte de um dos seus grupos, a União Patriótica, liderado pelo príncipe Heinrich XIII de Reuss e por Birgit Malsack-Winkemann, ex-deputada da AfD.

No total, estima-se que estas organizações totalizem 23.000 pessoas muitas identificadas pelos serviços secretos alemães como sendo de extrema-direita e violentas. Uma das maiores, auto-denominada Königreich Deutschland (Reino da Alemanha, ou KRD)  foi fundada em 2012 por Peter Fitzek, um ex-cozinheiro e professor de karaté que se apresenta como “rei Peter I”. Terá entre dois mil a cinco mil seguidores, usa nos seus territórios uma moeda própria, um “banco”, segue uma “constituição” e emite “passaportes”.

As autoridades alemãs classificam-na como uma fraude que ganha dinheiro a vender seminários para “sair do sistema” e com a troca de dinheiro para a sua moeda, sendo impossível depois reaver as verbas trocadas. Tem uma forte componente new age que inclui ligações ao Anastasia, um movimento new age que nasceu na Rússia no final dos anos 1990 e o anti-semitismo é outra das suas vertentes.

Pirna, a primeira vitória autárquica da AfD

Ao mesmo tempo, assiste-se a um crescimento eleitoral do principal partido da extrema-direita alemã, a AfD, Aliança para a Alemanha. Na cidade de Pirna, na Saxónia, alcançou 38,5% na corrida eleitoral contra dois candidatos de direita, tornando Tim Lochner o primeiro-presidente de Câmara de uma cidade ganha por este partido.

Alice Weidel, dirigente da AfD, diz que o que se passou foi “histórico” e mira já as eleições de setembro próximo em três estados do leste alemão. O partido temresultados à volta dos 20% a nível nacional mas na zona da antiga RDA as suas votações são mais expressivas, alcançando mais de 30% em muitos lados.