Cuba

Chefe da CIA recebido em Havana, governo divulga guia de sobrevivência à agressão militar

19 de maio 2026 - 16:12

Enquanto Donald Trump tenta obter algum tipo de vitória diplomática no meio do caos com o Irão, o governo cubano tem resistido sem ceder e, embora pudesse fazer mudanças internas sem grande custo político, não quer reconhecer os seus problemas perante a população.

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Elmer Pineda dos Santos

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O diretor da CIA John Ratcliffe e o brigadeiro-general Ramón Romero Curbelo, que exerce as funções de Chefe de Inteligência do governo cubano
O diretor da CIA John Ratcliffe e o brigadeiro-general Ramón Romero Curbelo, que exerce as funções de Chefe de Inteligência do governo cubano. Foto publicada em CLAE:

O diretor da agência de informações estadunidense, a CIA, John Ratcliffe, aterrou em Havana, poucas horas depois de o Governo cubano ter reconhecido que já não resta uma gota do combustível russo que foi descarregado no porto de Matanzas em abril. A visita foi precedida por um momento de forte tensão bilateral e pela ameaça latente de uma intervenção militar.

Antes de Ratcliffe pisar solo na capital da maior das Antilhas, em alguns bairros já se ouvia o barulho das panelas, expressão do mal-estar causado pelos prolongados apagões que as autoridades atribuem ao “cerco energético” imposto por Washington em janeiro passado para agravar o sufoco de uma economia em ruínas.

Na quinta-feira, realizou-se uma reunião entre John Ratcliffe e Raúl Guillermo Rodríguez Castro, “El Cangrejo”, neto de 41 anos de Raúl Castro, que tem vindo a estabelecer um diálogo com os Estados Unidos. As conversações anteriores tinham-se realizado em países terceiros, tendo agora sido transferidas para Havana. Segundo a CIA, Ratcliffe levou a Cuba a pressão de Trump: um apelo a mudanças fundamentais na ilha em troca de ajuda económica (também circularam rumores de que estava em cima da mesa a acusação de Raúl, que tem 94 anos, por factos ocorridos em 1996).

O responsável pelos serviços secretos dos EUA, que teve um papel relevante no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, no passado dia 3 de janeiro, encontrou-se cara a cara com representantes do ministro do Interior (Minint) e responsável pelos serviços secretos, Lázaro Álvarez Casas. A reunião realizou-se a pedido do Governo dos EUA e foi marcada “pela complexidade das relações bilaterais, com o objetivo de contribuir para o diálogo político entre ambas as nações, como parte dos esforços para enfrentar o cenário atual”, assinalou o jornal oficial Granma.

Num comunicado oficial, o governo cubano afirmou que a reunião teve lugar “com o objetivo de contribuir para o diálogo político entre ambas as nações”, rejeitando a acusação de ser um Estado que apoia o terrorismo, o rótulo que sustenta as já insuportáveis sanções. O exército cubano prosseguiu com os seus treinos para situações de catástrofe e, nesse contexto, foi publicado nas redes sociais um guia para famílias em caso de uma agressão militar, deixando entrever que essa continua a ser uma opção para a qual se preparam.

A reunião levou, por sua vez, à possibilidade de uma cooperação em questões de inteligência, desde que, segundo a Casa Branca, Havana deixe de ser um refúgio para adversários dos EUA. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tinha afirmado no início da semana que essa situação é intolerável, porque a distância entre os Estados Unidos e a ilha é de apenas 90 milhas. Enquanto Washington fala de uma ameaça à segurança nacional, as autoridades cubanas insistem que não há uma única prova de financiamento ou apoio a grupos extremistas.

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“Mais uma vez ficou demonstrado que a Ilha não abriga, não apoia, não financia nem permite organizações terroristas ou extremistas; nem existem bases militares ou de serviços secretos estrangeiros no seu território”, afirmou oficialmente o Executivo cubano. Os EUA suspeitam da existência de instalações chinesas. “A parte cubana permitiu demonstrar categoricamente que Cuba não constitui uma ameaça para a segurança nacional dos EUA”, refere o texto oficial.

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Ryabkov, comentou as negociações de Havana com Washington: “Estamos indignados com o nível de cinismo com que os Estados Unidos, por um lado, intensificam o bloqueio contra Cuba, absolutamente ilegal e inaceitável sob qualquer ponto de vista, enquanto, por outro, demonstram o que consideram uma disposição para o diálogo”. Afirmou que a Rússia está a par dessa visita, uma vez que “está em contacto permanente com representantes do governo de Cuba”, qualificando-a de “comunicação fiável e significativa, que, sem dúvida, se manterá”.

O jornal Granma assinalou que “ficou patente também o interesse de ambas as partes em desenvolver a cooperação bilateral entre os órgãos de aplicação e cumprimento da lei, em função da segurança de ambas as nações, regional e internacional”.

Na quarta-feira, um comunicado do Departamento de Estado divulgou a oferta de ajuda económica a Cuba no valor de 100 milhões de dólares, a ser administrada pela Igreja Católica, assistência que Cuba aceitou. “Se realmente existe disposição do governo estadunidense em oferecer ajuda (…) não encontrará obstáculos nem ingratidão por parte de Cuba”,  tuitou o presidente Miguel Díaz-Canel, “por mais inconsequente e paradoxal que resulte a oferta a um povo que, de forma sistemática e impiedosa, o próprio governo estadunidense castiga coletivamente”.

Rubio não especificou o que os Estados Unidos exigem, embora numa entrevista tenha deixado claro que espera uma mudança de regime. Para os analistas, as propostas dos EUA não constituem uma oferta de negociação genuína, mas sim exigências de rendição incondicional sob pressão de sanções e ameaças, inclusive militares: conversações estagnadas devido a uma agenda inviável.

Trata-se de uma busca desesperada do presidente Donald Trump por obter algum tipo de vitória diplomática no meio do caos com o Irão. O governo cubano tem resistido sem ceder e, embora pudesse fazer mudanças internas sem grande custo político, não quer reconhecer os seus problemas perante a população.

Esta semana, a ilha ficou sem gasolina, uma situação extrema, provocada em grande parte pelo bloqueio e pelas sanções à solidariedade externa com Cuba. Os cortes de energia, que se prolongam há meses, duram agora quase o dia inteiro. Em várias províncias do país, o mal-estar gerou protestos.

O ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, afirmou que “o cenário internacional atual enfrenta as consequências da imposição da paz pela força, uma ameaçadora doutrina imperialista com objetivos declarados de dominação”.  “É urgente uma nova ordem internacional onde prevaleçam a paz e a estabilidade sobre as guerras e as ameaças; a diplomacia e o diálogo sobre as medidas coercivas unilaterais e a chantagem”, sublinhou.

Por sua vez, o escritor Leonardo Padura escreveu um ensaio quase ficcional na The Ideas Letter, no qual se questiona sobre o diálogo entre os países, sobre os possíveis cenários futuros da ilha e também sobre tudo o que aconteceu: o que foi e o que não foi, que neste momento têm quase o mesmo peso.

Guia para autodefesa divulgado à população

O organismo de defesa civil de Cuba divulgou este fim de semana um guia dirigido a todas as famílias para “proteger a população perante uma agressão militar”, num contexto de crise cada vez mais profunda com os Estados Unidos. O documento fornece informações práticas com o objetivo de “proteger a vida perante possíveis ataques do inimigo”, de acordo com um comunicado divulgado no Portal do Cidadão da província de Havana.

O manual intitulado “Proteger, resistir, sobreviver e vencer” reúne uma série de recomendações que vão desde a preparação de um kit de emergência familiar com água potável, alimentos prontos a consumir, rádio com fonte de energia alternativa, lanterna, medicamentos e artigos de higiene, até à atenção que se deve prestar aos sinais de alarme aéreo.

A divulgação discreta do documento ocorre num momento em que Cuba, com 9,6 milhões de habitantes, atravessa uma crise sem precedentes, agravada pelo bloqueio energético de facto imposto pelo presidente norte-americano, Donald Trump, por considerar que o país representa uma “ameaça excecional” à segurança dos Estados Unidos devido às suas relações estreitas com a Rússia, a China e o Irão.

BRICS exigiram o levantamento do bloqueio

Os ministros dos Negócios Estrangeiros do grupo que reúne as economias emergentes do BRICS (sigla que designa os seus fundadores: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) exigiram o levantamento imediato do bloqueio económico, comercial e financeiro que Washington mantém contra a nação caribenha, ao mesmo tempo que manifestaram preocupação com o impacto desta política hostil sobre o bem-estar do povo cubano, informou o Cubadebate.

A declaração refletiu com clareza a visão da América Latina e das Caraíbas como uma região de paz, cimentada na não intervenção e no respeito mútuo, o que confirma o crescente apoio do bloco à causa da soberania e da justiça social, acrescentou o portal.

Entretanto, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que os constantes cortes de energia em Cuba, devido à falta de combustível, agravaram a crise sanitária e paralisaram milhares de cirurgias. Representantes do Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU e da Organização Mundial da Saúde assinalaram, após visitarem a ilha, que a crise energética afeta gravemente os serviços de urgência, os bancos de sangue, os laboratórios e os programas de vacinação e de saúde materno-infantil.

Dados recolhidos pela organização revelaram que mais de 100 mil pessoas, entre as quais cerca de 11 mil menores, continuam à espera de operações. Além disso, alertaram que quase cinco milhões de doentes com doenças crónicas poderão sofrer interrupções em tratamentos essenciais.

O governo cubano detalhou algumas adaptações ao sistema de transportes na ilha devido ao atual cenário energético. Numa conferência de imprensa na sede do Ministério dos Transportes, Rodríguez Dávila, explicou que as medidas respondem a um reajuste necessário dos serviços dos principais operadores do setor, face ao défice de combustível e lubrificantes e à falta de disponibilidade de peças sobressalentes e outros componentes necessários.


Elmer Pineda dos Santos é jornalista cubano associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE). Artigo publicado no site do CLAE