Cuba

A calma opressiva antes da tempestade

10 de maio 2026 - 14:56

Os cubanos sabem que a chuva de balas pode chegar, mas estão ocupados a lutar pela sobrevivência diária. Não se podem dar ao luxo de pensar demasiado em acontecimentos incertos.

por

Guillermo Carmona Rodríguez

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Manifestação de 1 de Maio de 2026 em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Havana.
Manifestação de 1 de Maio de 2026 em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Havana. Foto Presidência de Cuba

Eram só sete da manhã. O frio da noite dissipava-se aos poucos e o sol pálido do amanhecer começava a aparecer. No entanto, mesmo esse sol batia-te na cara, subia-te pelas costas e cegava-te os olhos. Alguns dos participantes no desfile usavam as faixas onde se lia “A Pátria defende-se” como sombrinhas; outros protegiam-se atrás dos pedaços de tecido nos quais escreveram a que sindicato pertenciam.

De diferentes pontos da cidade, as pessoas convergiam para a avenida, como afluentes que desaguam num rio. Ali organizavam-se em diferentes blocos, de acordo com o seu local de trabalho. Mais tarde, por volta das oito, marchariam em comemoração do Primeiro de Maio.

Essa data é uma das celebrações mais importantes organizadas pelo governo de Cuba. Constitui uma forma de recordar o seu caráter proletário. Realiza-se sem falta, como um ritual nacional. Apenas durante a pandemia de covid é que não se realizou. Este ano, especulava-se que não iria acontecer. A ilha sofre talvez a maior crise desde o início da Revolução. Uma mobilização de tal magnitude implica, inevitavelmente, uma grande quantidade de recursos. No entanto, as autoridades dão prioridade à política, vista como uma forma de criar ideologia, mesmo que o contexto económico e social não se adapte a tais iniciativas.

As pessoas chegam aos seus respetivos quarteirões com rostos longos de cansaço. Acordaram tão cedo para poderem chegar a tempo que tiveram de suportar as troças de uma lua cheia e redonda. Com um transporte público mítico, quase inexistente devido à escassez de combustível, muitos recorreram às suas pernas para se deslocarem por uma cidade quase às escuras; embora do céu brotasse um brilho prateado, este apenas realçava em tons fantasmagóricos as fachadas dos edifícios e os postes de iluminação pública inúteis.

O lema deste 1 de Maio – transformado em consigna, virado hashtag, impresso nas faixas – é “A Pátria defende-se”. Com as atuais políticas e declarações da Administração Trump, Cuba está o mais perto possível de um conflito bélico desde a Crise dos Mísseis. Esta marcha funciona, ou pelo menos foi assim que o Estado e o Partido a conceberam, para demonstrar unidade e sublinhar a ideia de que Cuba não quer guerra; no entanto, se esta viesse a eclodir, defender-se-ia de uma forma ou de outra.

I

Sente-se quando a tempestade se aproxima. Não é preciso ver nuvens negras, com aguaceiro e relâmpagos no seu seio, amontoadas umas contra as outras no horizonte. Antes disso, apercebes-te da mudança de pressão. A atmosfera torna-se opressiva. O ar parece um caixão. Sentes o cheiro da chuva, embora ainda não tenha caído. Rajadas de vento deslizam pelo chão e dispersam o frágil: o pó, as folhas caídas das árvores, os papéis espalhados. A tempestade, mesmo com toda a sua fúria, tem a gentileza suficiente para se anunciar.

Se andares na rua enquanto resolves assuntos importantes – um encontro com o amante, uma reunião sobre o futuro do teu negócio, uma entrevista na embaixada – e de repente o dia se enche de eletricidade e humidade, não procurarás refúgio imediatamente. Continuarás o teu caminho. Farás como se nada estivesse a acontecer. Não seria a primeira vez que o céu faz tanto barulho e depois se limpa e o sol aparece em todo o seu esplendor violento.

Atualmente, um fenómeno semelhante ocorre em Cuba. Desde a ascensão ao poder de Donald Trump para o seu segundo mandato, este intensificou a sua política hostil. Poucos dias após assumir a presidência, incluiu novamente a Ilha na Lista de Países Patrocinadores do Terrorismo. Desde então, as restrições e as ameaças não pararam.

Em janeiro de 2026, quando um comando de forças especiais retirou Nicolás Maduro da Venezuela, gerou-se talvez o mais perigoso dos precedentes. Isso demonstrou a falta de escrúpulos da potência do norte para intervir em território estrangeiro e ignorar o disposto na Carta das Nações Unidas no que diz respeito à autodeterminação dos povos e ao não intervencionismo. Aconteceu bem perto de nós. O ataque ocorreu, por assim dizer, na casa ao lado. Da nossa sala de estar, pudemos sentir o cheiro da pólvora e do chumbo.

Os meses e as medidas desde o início do ano sucederam-se. Impuseram um bloqueio energético a Cuba ao aplicarem tarifas aos navios que se atrevessem a transportar combustível para as nossas costas; embora, no passado dia 6 de maio, o secretário de Estado, Marco Rubio, tenha negado a sua existência. Para além dessas declarações, neste primeiro semestre apenas um navio com crude, o Kolodkin, de nacionalidade russa, atracou nos nossos portos. Isso aconteceu devido aos jogos secretos entre Trump e Putin. Para além desse petroleiro, não entrou uma gota de petróleo. Fim. Finish. Kaput.

Horas depois do desfile do 1 de maio, o presidente dos Estados Unidos assinou uma ordem executiva para “sancionar aqueles que operam ou tenham operado nos setores de energia, mineração, defesa ou segurança de Cuba, ou que tenham prestado apoio material, financeiro ou tecnológico ao Governo de Cuba ou a outros indivíduos sancionados”. A pressão (atmosférica) aumenta sobre Cuba. O ar parece um caixão. Cheira a guerra ou a chuva, embora nenhuma das duas tenha ainda caído.

II

À medida que se aproximava a hora do início do desfile, os blocos dos diferentes sindicatos iam-se aglomerando. Na convocatória, pediram que se vestissem de vermelho, azul e branco; as cores da bandeira. O suor transforma o vermelho vivo dos tecidos em vermelho escuro, o branco em cinzento e o azul-celeste em mar escuro. Os participantes, já que estão ali, aproveitam para entrar no espírito que deve acompanhar esta festa, a sua. Tentam não pensar nas horas de apagão, no esgotamento crónico – que lhes deixa o olhar pesado como cimento –, numa guerra prevista vezes sem conta e que ainda não explodiu; brincam, tratam-se por tu, contam piadas.

Dá-se a ordem para avançar. A multidão começa a mover-se lentamente. De vez em quando, alguém grita algumas palavras patrióticas ou ergue cartazes. Cuba está firme! Cuba soberana! Há também um ambiente lúdico, de festa. Alguns músicos entoam uma conga com trompetes chineses e tambores. Há quem marche a esse ritmo, como se se tratasse de um carnaval e não de um ato político. O povo cubano sempre se caracterizou por essa dualidade: a mistura do hedonista com o majestoso, da alegria com a seriedade.

O desfile continuará por alguns quarteirões até chegar ao palco onde aguardam as figuras políticas. Depois disso, poderão dispersar-se. Alguns regressarão a casa para descansar, outros seguirão em frente para uma praça próxima onde vendem cerveja a granel e um grupo de timba, música popular dançável, dará um concerto.

A guerra pode estar ao virar da esquina. Se Donald cumprir a sua palavra e estiver suficientemente descontrolado para o fazer, qualquer manhã poderá confundir-se o tom vermelho do amanhecer com o brilho das bombas. Entretanto, o cubano tenta enfrentar o seu dia-a-dia com uma estranha serenidade.

III

A 2 de maio, num jantar privado na Flórida, Trump garantiu que tomará Cuba imediatamente, assim que terminar o “trabalho no Irão”. Este comentário junta-se a alguns outros com o mesmo tom, que tem distribuído como quem oferece bombons com cianeto nos últimos tempos. Sobre Dâmocles já não paira uma espada, mas porta-aviões e mísseis. Na parede de nuvens negras no horizonte, podem-se ver os primeiros clarões violeta dos relâmpagos.

As autoridades em Cuba, por sua vez, desenvolvem uma série de exercícios militares, que seguem o conceito de Guerra de Todo o Povo, implementado por Fidel desde o século passado. Em linhas gerais, cada ilhéu tem um papel a desempenhar em caso de uma possível invasão. Por isso, é dada ênfase à preparação geral e a diferentes estratagemas e manobras coletivas.

Ao mesmo tempo, tornou-se de conhecimento público, após uma intervenção televisiva de Miguel Mario Díaz Canel, presidente da República, que estão a decorrer conversações com o Governo dos Estados Unidos; embora não se saiba em que ponto estas se encontram. Com tanto alvoroço e tensões, deduz-se que muito mal.

Há poucas semanas, realizou-se em todo o país uma recolha de assinaturas patrocinada pelas autoridades para defender a paz e a soberania. Realizou-se nos locais de trabalho, nos Comités de Defesa da Revolução (CDR), organização de bairro espalhada por todo o território nacional.

A tempestade aproxima-se. Isso ninguém pode negar. As rajadas de vento – as medidas coercivas económicas – dispersam o frágil: as mães solteiras com três ou quatro filhos, os idosos, os doentes de cancro com os ossos corroídos. No fim, são eles, os fracos, os inocentes, que acabam por ser os mais afetados neste tabuleiro multinacional.

IV

Apesar da tempestade lá em cima, pronta para se transformar numa chuva de balas, numa tempestade de estilhaços, a vida tem de continuar. Os cubanos sabem o que pode acontecer; no entanto, estão ocupados com a sobrevivência diária. Não se podem dar ao luxo de pensar demasiado em acontecimentos incertos.

Há décadas que se prevê um ataque por parte dos americanos e isso nunca aconteceu. O último ataque direto ocorreu na Baía dos Porcos ou Playa Girón, em 1961. Talvez por isso a população se mostre um pouco cética a esse respeito; mas é real, como as feridas e o fumo, que neste momento as relações entre os Estados Unidos e Cuba atingiram um ponto de elevada volatilidade.

Os habitantes da ilha encontram-se na mesma encruzilhada que o transeunte quando pressente a tempestade iminente e ainda tem de tratar de um assunto importante. Neste caso específico, viver. Não podem enfrentar as forças da natureza, nem as da geopolítica. Cabe-lhes tentar continuar com os seus planos e estratagemas diários: comprar pão, levar os filhos para a escola em bicicletas precárias, ir para o trabalho para lutar por alguns pesos, amar sem medo da derrota, suportar o calor intenso de um verão incipiente, celebrar aniversários.

Talvez as nuvens se dissipem. A política norte-americana pode chegar a ser assim tão impenetrável. Ao contrário da Venezuela, não possuímos grandes reservas de petróleo nem uma posição geoestratégica como o Irão. Talvez se cansem do jogo político e de ganhar votos junto da comunidade cubana norte-americana com promessas vazias. Quem sabe? Temos de aguardar nesta calma opressiva antes da tempestade.


Guillermo Carmona Rodríguez é escritor e cronista cubano. Crónica publicada a 8 de maio de 2026 em CTXT.