Leituras

“Outro Mundo no Mesmo Lugar”. Habitação em Portugal, de 1970 a 2026: um direito humano por concretizar

10 de maio 2026 - 10:26

Uma sociedade que aceita barracas em expansão, enquanto há habitação vazia e lucros elevados no setor imobiliário, está a normalizar a desigualdade como destino. E quando a desigualdade se naturaliza, a cidade deixa de ser espaço de encontro e torna-se um mecanismo de exclusão.

por

Lia Antunes

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Fotografia de Nuno Santos Dias
Fotografia de Nuno Santos Dias

«PINHEIRINHOS. As pessoas das barracas, antes do 25 de Abril, trabalhavam. Se trabalhavam! Mas, coitadas, as pessoas trabalhavam, mas não viam nada. Muitas mulheres trabalhavam a ganhar 5 tostões à hora! Não havia dinheiro para melhorar as “casas”, nem para muitas coisas: roupa, muitas pessoas descalças.»

Esta é uma das muitas descrições de mulheres e homens setubalenses que acompanham as fotografias do livro Outro Mundo no Mesmo Lugar. Setúbal 25 Abril 1974. A cidade das barracas (2024), editado pelo Centro de Estudos Bocageanos, com design de paginação de Jorge Silva e que tive o enorme prazer de escrever com a Vanessa Iglésias Amorim, o Jaime Pinho e o Alberto Lopes.

Esta espécie de foto-livro apresenta as mais de sete dezenas de fotografias que ilustram o “Inquérito às condições das barracas” que supomos datar de finais da década de 1960, inícios da década de 1970. Integra o espólio da administração local no Arquivo Municipal de Setúbal e, não obstante o desconhecimento da autoria, quer das fotografias (cuja excelente qualidade nos remete a alguém profissional), quer do levantamento dos dados e escrita, sabemos que as autoridades locais conheciam profundamente a gravidade da situação habitacional na cidade do Sado. Os números indicam – para nosso espanto! – que quase 25% dos assentamentos urbanos eram barracas ou casas abarracadas, na sua maioria sobrelotadas.

«COVA DA ONÇA. Aqui em frente, havia dois pátios. Eram barraquinhas. Agora é tudo prédios. O meu pai dizia: “quando eu vou para o trabalho e começo a ver sair gente lá de dentro, aquilo parecem formigas. Ali moram umas 500 pessoas”. Porque cada casa tinha muita gente. E estas casas eram mesmo muito pequeninas, que o dono do pátio alugava.»

Esta cartografia de pobreza, nas palavras de Vanessa Amorim, e a relação de forças viriam a alterar-se no pós-25 de Abril na “cidade vermelha”. Como escreveu Jaime Pinho, habitação rimou, com efeito, com revolução. 

Portugal hoje é muito diferente daquele de 1970. No entanto, qual o impacto de olharmos estas fotografias, estes números e estes relatos, passados mais de 50 anos? Hoje, a “crise” da habitação em Portugal – e em que momento saímos, de facto, desta crise? – já não se mede apenas pelo valor das rendas ou pelo preço das casas, ambos exorbitantes. Mede-se também pela normalização das barracas, pela expansão de bairros informais e pelo número crescente de famílias empurradas para soluções precárias, indignas e temporárias que acabam por se tornar permanentes. O que está em causa não é só um problema de mercado: é um falhanço político e social na garantia de um direito humano básico.

Durante anos, repetiu-se a ideia de que o problema da habitação se resolveria com mais construção e com a “correção natural” do mercado. A realidade desmentiu essa promessa: o aumento do número de casas destinadas ao turismo e dos preços das casas e do arrendamento tem superado o crescimento dos salários, agravando as desigualdades e afastando cada vez mais pessoas de uma habitação acessível – de tal forma que até chama a atenção da Comissão Europeia. Este aumento não é apenas uma estatística económica; é uma máquina de exclusão. Quando habitar uma casa passa a absorver uma parte desproporcionada do rendimento, as famílias cortam noutras despesas, acumulam atrasos, partilham espaços sobrelotados ou saem do mercado formal da habitação – e as mulheres lutam para que não lhes tirem as crianças. A precariedade habitacional transforma-se rapidamente em pobreza material e em vulnerabilidade social. E é também assim que reaparecem formas de habitação que julgávamos associadas a outro tempo histórico, como aquele que as fotografias de Setúbal nos mostram.

Mobilizar as casas vagas e não normalizar as barracas

A contradição é gritante. Ao mesmo tempo que milhares de pessoas não conseguem pagar uma casa, há um parque habitacional significativo sem uso. O Contador tem vindo a trabalhar e clarificar os dados: em 2021, o INE indicou 723.215 alojamentos vagos em Portugal, dos quais uma parte relevante estava em condições de ser habitada com poucas reparações. As notícias nesta matéria têm-se sucedido: por exemplo, em julho de 2025, dos 723 mil fogos vagos em Portugal, 485 mil estavam em condições de serem habitados, reforçando a ideia de que o problema não é apenas a falta física de edifícios, mas também a forma como o mercado os distribui e retém. Estes números não significam que todas essas casas estejam imediatamente disponíveis ou habitáveis, mas mostram que existe habitação potencialmente mobilizável que não está a ser colocada ao serviço da procura real da população.

Quando a habitação é um activo de investimento, o resultado é conhecido: rendas incomportáveis, compra inacessível, expulsão dos centros urbanos, sobrelotação habitacional e expansão da periferia precarizada e, diga-se, a normalização das barracas e das casas abarracadas. É da falência do modelo atual que se trata, e não de uma excentricidade local ou de mero fenómeno residual. Trata-se de habitação informal, produzida pela falta de alternativas, em que o improviso substitui a política pública e a sobrevivência substitui a dignidade. Quando famílias com trabalho ficam sem acesso a uma casa, voltamos a 1970. Quando rendas “normais” exigem salários que não existem, e quando o arrendamento se torna uma corrida especulativa, o resultado é este: gente obrigada a viver onde pode. E o acesso e a permanência numa casa digna são a base para se ser gente.

«CASAL DAS FIGUEIRAS. Era só mato. Não havia luz nem nada. Quando havia lua é que a gente via e, depois, via a dobrar, não é? Por isso, havia muitas histórias de almas aparecidas.»

Uma sociedade que aceita barracas em expansão, enquanto há habitação vazia e lucros elevados no setor imobiliário, está a normalizar a desigualdade como destino. E quando a desigualdade se naturaliza, a cidade deixa de ser espaço de encontro e torna-se um mecanismo de exclusão. Uma crise estrutural só se resolve com respostas estruturais focadas na justiça social e espacial. A efetiva concretização do direito à habitação não pode continuar dependente de soluções fragmentadas, de programas curtos e de anúncios políticos reativos. O que está em causa é uma política pública consistente, com metas, financiamento e prioridade clara para os grupos mais vulneráveis – e, sabendo que elas são sempre as mais afectadas, incluam-se as mulheres e adopte-se a perspetiva de género em todos os processos. A “crise” da habitação em Portugal – uma palavra que, de tão repetida, vai perdendo o seu significado – não é apenas um problema de falta de casas; é uma crise de prioridades e ideologias políticas, tal como em 1970.


Lia Antunes é arquitecta e investigadora