A rede elétrica de Cuba entrou em colapso. O apagão que atingiu toda a ilha ocorre no meio de um severo bloqueio petrolífero imposto pelos EUA e de comentários recentes do presidente Donald Trump, que afirmou querer “tomar” Cuba. Há três meses que nenhum carregamento de petróleo chega ao país, situado mesmo a sul da Flórida, agravando uma crise humanitária causada por décadas de severas sanções dos EUA. “As sanções estão literalmente a matar pessoas neste momento”, afirma o jornalista cubano Daniel Montero, do Belly of the Beast, a falar de Havana. “Compreendemos o que este embargo petrolífero significa e [o que] as sanções sempre significaram. Trata-se de uma mudança de regime através da fome.” A historiadora Sara Kozameh, que regressou recentemente de Cuba, acrescenta: “Os cubanos lutaram pela soberania muitas, muitas vezes. E não vão ficar simplesmente de braços cruzados enquanto isto acontece.»
AMY GOODMAN: Este é o Democracy Now!, democracynow.org. Sou a Amy Goodman, com Juan González.
Cuba mergulhou num apagão que atingiu toda a ilha, deixando milhões de pessoas sem energia depois de a rede elétrica nacional ter entrado em colapso total na segunda-feira. Este foi, pelo menos, o terceiro e o maior apagão a atingir Cuba em apenas cerca de quatro meses, uma vez que o bloqueio energético dos EUA impediu a ilha de aceder ao combustível de que necessita desesperadamente. Nenhum carregamento de petróleo chegou a Cuba em mais de três meses, de acordo com o governo cubano, agravando uma crise humanitária causada por décadas de sanções dos EUA.
Entretanto, The New York Times noticiou na segunda-feira que os negociadores de Trump disseram aos seus homólogos cubanos, durante conversações recentes, que o presidente cubano Miguel Díaz-Canel tem de ser destituído do poder. O presidente Trump falou aos jornalistas na Casa Branca na segunda-feira.
PRESIDENTE DONALD TRUMP: Acredito que terei a honra de — terei a honra de tomar Cuba. Seria uma grande honra. É uma grande honra.
JORNALISTA: Tomar Cuba?
PRESIDENTE DONALD TRUMP: Tomar Cuba de alguma forma, sim. Tomar Cuba. Quero dizer, quer eu a liberte, a tome — acho que posso fazer o que quiser com ela, se quer saber a verdade.
AMY GOODMAN: “Quer seja libertá-la, tomá-la” ou “possa fazer o que quiser com ela”, disse o presidente Trump.
Para saber mais, temos connosco dois convidados. Em Havana, passamos a palavra a Daniel Montero, jornalista cubano e produtor da Belly of the Beast, um meio de comunicação independente que cobre o impacto das sanções dos EUA sobre Cuba. E em San Diego, Califórnia, estamos com Sara Kozameh, professora assistente de História na Universidade da Califórnia, em San Diego, que acaba de regressar de Cuba; o seu recente artigo para The Guardian tinha como título “No outro alvo dos EUA para mudança de regime, Cuba, vi dificuldades reais — e resiliência.”
Daniel, vamos passar a palavra a si agora mesmo em Cuba. Fale-nos sobre este maior apagão que já vimos, o que significa para as pessoas, o que significa para Cuba e o que está a acontecer.
DANIEL MONTERO: Olá. Obrigado pelo convite. O que é realmente desolador nisto, nestes últimos apagões que temos, é que não parece, muito diferente dos dias normais.
O que estou a tentar dizer é que, como não está a entrar combustível, os apagões prolongaram-se significativamente nos últimos meses. Neste momento, em Havana, que normalmente está em muito melhor situação do que o resto do país, estamos a falar de pelo menos 12 horas por dia com eletricidade. Se for para as províncias, onde a minha família vive, eles estão a aguentar-se com três, quatro ou cinco horas por dia. Então, claro, um apagão nacional tem um impacto tremendo em todo o país. Mas como os apagões se prolongaram tanto devido ao bloqueio petrolífero, não parece assim tão diferente.
Neste momento, a rede elétrica está a voltar. Normalmente, demora cerca de um dia inteiro a restabelecê-la por todo o país, e as autoridades afirmaram que, precisamente por haver menos combustível, demoram mais tempo a restabelecer a rede. Mas, claro, as consequências disto, não apenas do apagão nacional mas do bloqueio petrolífero no seu conjunto, são enormes. Acho que, pela primeira vez na minha vida, as sanções parecem completamente incontornáveis. Acho que não se consegue encontrar ninguém em Cuba que não esteja a ser afetado pela situação atual.
JUAN GONZÁLEZ: Daniel, e quanto ao facto de que mesmo os países latino-americanos que têm relações de longa data com Cuba e governos progressistas, como o Brasil e o México, e que também são exportadores de petróleo, não tenham avançado de forma mais enérgica para ajudar Cuba com o petróleo?
DANIEL MONTERO: Acho que isso apenas reflete o mundo em que vivemos, certo? Trump exerceu toda a pressão que pôde sobre outros países. E, infelizmente, tem funcionado até agora, e estamos simplesmente a viver com as consequências. Claro que isso me entristece. Como cubano, sofro com isso todos os dias. Para mim, isto não é uma noção abstrata ou teórica. Sofremos com isso todos os dias, e é terrível. As sanções estão literalmente a matar pessoas neste momento porque as condições são tão más. E isto tem tudo, absolutamente tudo, a ver com o que os EUA estão a fazer ao meu país.
JUAN GONZÁLEZ: E como reage a este anúncio do governo cubano de que irá agora permitir que os cubano-americanos possuam negócios e invistam na ilha?
DANIEL MONTERO: Acho que essa é, na verdade, uma notícia que foi recebida de forma bastante positiva pelas pessoas em Cuba. Tem de compreender que, nos últimos 15 anos, o país tem vindo a abrir-se progressivamente ao investimento, proveniente do exterior e também do interior do país. Portanto, isso não surpreendeu quem ouviu a notícia, e não é algo que incomoda a maioria das pessoas.
AMY GOODMAN: E o que o presidente Trump disse na Sala Oval, Daniel, como está a ser recebido em Cuba, que os EUA, que o presidente Trump iria tomar ou libertar ou o seja lá o que for, mas que isso vai acontecer muito em breve, e a exigência de que o presidente cubano Díaz-Canel deve sair?
DANIEL MONTERO: É absolutamente escandaloso. A ideia de uma negociação ou de um diálogo entre dois países não pode partir da premissa de que uma das partes se retire. Portanto, se o objetivo fosse realmente chegar a um acordo e melhorar efetivamente a vida do povo cubano, essa não seria a premissa. Mas, claro, isto não nos surpreende. Compreendemos o que este embargo petrolífero significa e o que sempre significou, o que as sanções sempre significaram. Trata-se de uma mudança de regime através da fome. É isso que estão a tentar fazer.
E neste momento, com o bloqueio petrolífero, as condições estão piores do que nunca. Por isso, como cubano, como alguém que vive aqui, com toda a minha família aqui, é absolutamente escandaloso ouvir Donald Trump e a administração dos Estados Unidos a dizer que estão a tentar ajudar Cuba, que estão a tentar libertar Cuba, porque não explicam o preço que estão a pedir às pessoas que paguem. Claro, dizem que querem liberdade, querem democracia, falam de todas essas coisas boas que vão trazer ao povo cubano. Mas deviam realmente explicar os meios para chegar lá. Os meios para chegar lá são o sofrimento do povo cubano, são as mortes do povo cubano.
AMY GOODMAN: Deu conta do um terramoto de magnitude 5,8 esta manhã, para além do apagão nacional?
DANIEL MONTERO: Sim, no leste do país, não é muito raro ter isto, estes terramotos. Felizmente, normalmente não causam tantos danos por lá. Mas, a esta altura, só nos apetece perguntar: o que mais vai acontecer?
Sabes, recordo-me de janeiro, quando me encontrava em casa e o sequestro de Maduro tinha acabado de acontecer. A ideia de uma invasão real dos EUA a Cuba pela primeira vez tornou-se muito real na minha cabeça. E por acaso vivemos muito perto de uma base militar aqui em Havana. E dei por mim a conversar com a minha mulher: “Em que divisão da casa achas que sobreviveríamos se eles bombardeassem?” E no final da conversa, ficámos apenas a olhar um para o outro e a dizer: “Dá para acreditar que estamos sequer a ter esta conversa?”
E acho que esse é exatamente o sentimento geral de estar em Cuba neste momento, com tudo o que vem de Washington: O que mais vai acontecer? Quando é que isto vai parar?
JUAN GONZÁLEZ: Gostaria de dar a palavra a Sara Kozameh, professora assistente de História na Universidade da Califórnia, em San Diego. Professora, tem visitado Cuba ao longo dos anos, especialmente nas zonas rurais do país. Regressou recentemente de Cuba. Poderia falar sobre o que viu e as condições que encontrou lá?
SARA KOZAMEH: Sim. Obrigada pelo convite.
E gostaria apenas de dizer que a minha experiência é muito consistente com o que o Daniel acabou de explicar. O leste fica muito mais longe dos portos, por onde chegam o petróleo e os alimentos, e por isso eles têm menos recursos. A situação é muito mais difícil. Há meses que se verificam cortes de energia prolongados — que duram muitas horas a mais do que em Havana —, mas estes agravaram-se nas últimas semanas. Quando lá estive, havia cortes de energia de cerca de 16 horas, e talvez duas vezes por dia, três horas de eletricidade. E durante o período em que lá estive, isso foi reduzido para talvez três horas de eletricidade por dia. E neste momento parece que as pessoas já estão há pelo menos 25 horas, 26 horas sem eletricidade.
AMY GOODMAN: Quero perguntar ao Daniel sobre a reação do povo cubano. Obviamente, tal como vimos com o Irão, temos o primeiro-ministro israelita Netanyahu a exortar as pessoas a revoltarem-se no Irão. Ele diz que se pode levar água às pessoas, mas não se pode obrigá-las a beber. O presidente Trump estava a exortar isso. O que acha que está a acontecer? As pessoas estão mais zangadas com os Estados Unidos ou com o governo cubano neste momento?
DANIEL MONTERO: Acho que quando se tem fome, a política é “quero comida” .Acho que, para a maioria das pessoas, é isso que estão a sentir. O objetivo que os EUA estão a tentar alcançar aqui, que é a maioria das pessoas se revoltar, isso simplesmente não aconteceu. Há pequenos protestos quando ocorrem cortes de energia, mas isso vem a acontecer há cinco anos. Isso não é novidade. Portanto, essa mudança que os EUA esperam alcançar em Cuba simplesmente não está a acontecer neste momento. Acho que as pessoas estão muito conscientes do que se passa. E estão a pagar o preço das decisões que foram tomadas. Mas estão mais preocupadas com “O que faço hoje? O que como esta noite?” do que com qualquer outra coisa, porque, como disse, quando as preocupações são tão prementes como essas, é essa a medida da sua política.
JUAN GONZÁLEZ: E queria perguntar também, Professora Kozameh: esta afirmação de Trump de que a liderança de Cuba tem de mudar, que ele vai decidir, este narcisismo absoluto do nosso presidente, que ele decide, que é ele quem faz — que é ele quem faz a mudança em cada um destes países, qual é a sua perceção de como isto está a ser recebido entre o povo cubano?
SARA KOZAMEH: Acho que não está a ser bem recebido. Quando lá estive há apenas algumas semanas, falei com muitas pessoas e perguntei-lhes diretamente: “O que querem que aconteça? O que gostariam de ver?” E mesmo as pessoas que eram críticos veementes do sistema político, e algumas que eram menos veementes, ninguém concordava com o que o Trump estava a fazer. Nenhum deles.
Os cubanos são uma população altamente instruída. Têm acesso às notícias. Compreendem as manobras. Compreendem as táticas. E acho que, neste momento, se sentem realmente apanhados de surpresa. Foi confirmado na sexta-feira que o governo está em negociações com os Estados Unidos. E assim, o processo de, digamos, compreender e assimilar isso estava apenas a começar na segunda-feira, ontem, quando este anúncio aconteceu. Muitas pessoas me disseram, com raiva evidente nas suas vozes, que não permitiriam isto, algo assim, que iriam lutar contra isso. Afinal de contas, os cubanos lutaram pela soberania muitas, muitas vezes, e não parece que vão simplesmente ficar de braços cruzados enquanto isto acontece novamente.
AMY GOODMAN: Temos apenas um minuto, e quero voltar ao Daniel em Havana, Cuba, sobre este comboio que se dirige a Cuba, com muitos grupos envolvidos, incluindo a Progressive International, a CodePink. Qual é, neste momento, a importância e o significado da solidariedade internacional?
DANIEL MONTERO: Eu diria que a solidariedade internacional é agora mais importante do que nunca, especialmente vinda dos Estados Unidos, porque, quer dizer, o que toda a gente ouve sobre Cuba é este embargo petrolífero, é como tudo está tão mal no país. A ideia de ter pessoas a virem e a mostrarem uma face diferente vinda dos Estados Unidos, e a mostrarem que ainda podemos ajudar-nos uns aos outros, acho que isto é — diria que Cuba precisa de solidariedade há já algum tempo, mas precisa certamente dela neste momento.
Em termos da diferença que isto pode realmente fazer, quer dizer, depende do que eles trouxerem. Precisamos de tudo o que alguém possa trazer neste momento. Mas acho que a parte mais importante é o valor simbólico de ter todas estas pessoas a virem e a mostrarem o seu apoio ao povo cubano, para combater a narrativa que vem da administração Trump.
Entrevista transmitida no programa Democracy Now! a 17 de março de 2026