Feminismo

Calibã e a Bruxa, 20 anos depois

09 de junho 2024 - 13:04

Ao lançar nova edição da obra, Silvia Federici relembra a sua trajetória e angústias, em busca dos nexos entre o capitalismo e a opressão das mulheres. O seu livro tornou-se uma arma para desvendar a selvajaria renovada do patriarcado – e revertê-la.

por

Silvia Federici

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Gravura que registra a Inquisição às bruxas, queimadas como hereges e pecadoras
Gravura que registra a Inquisição às bruxas, queimadas como hereges e pecadoras

Enquanto pesquisava e escrevia Calibã e a Bruxa, nunca poderia imaginar que o livro teria tamanho impacto. Vinte anos depois da sua primeira edição nos Estados Unidos, em 2004, o livro já foi publicado em cerca de vinte idiomas, incluindo espanhol, francês, alemão, turco, persa, russo, basco e catalão, além de português, no Brasil e em Portugal. E continuam a chegar novas propostas de tradução: em breve haverá edições em dinamarquês e chinês.

Acredito que tal influência se deve ao facto de não ter me limitado a discutir as caças às bruxas ocorridas nos séculos XVI e XVII na Europa e nos países colonizados por europeus. Em vez disso, enquadrei a perseguição contra as mulheres e os seus modos de vida no contexto histórico de um processo de transformação radical no mundo que envolveu a transformação da posição social das mulheres. Este é um processo que ainda está em curso, como demonstra o regresso das acusações de bruxaria em diversas partes do planeta.

Em particular, Calibã e a Bruxa mostra que a caça às bruxas e a construção da figura da bruxa – figura diabólica para a qual as mais horrendas formas de castigo eram consideradas legítimas – foi um instrumento para a imposição de uma nova disciplina às mulheres, diretamente relacionadas com as novas tarefas que delas se esperava no desenvolvimento de uma economia política capitalista e na divisão sexual do trabalho. Desta forma, Calibã e a Bruxa tornou-se uma história das mudanças sofridas pelas mulheres proletárias e colonizadas e pela organização da reprodução na “transição” para o capitalismo.

As minhas intenções iniciais, porém, eram muito modestas. Quando iniciei o projeto queria apenas demonstrar que o confinamento das mulheres às atividades reprodutivas e a desvalorização do trabalho doméstico não eram produto de um patriarcado trans-histórico e eterno, mas do desenvolvimento capitalista; e, em particular, que foram produto da reestruturação da reprodução social levada a cabo na Europa no século XIX, com a expulsão das mulheres das fábricas (onde foram obrigadas a trabalhar durante longos e exaustivos dias ao lado dos seus maridos e filhos, durante a Revolução Industrial) para criar o papel social doméstico para as mulheres, fundamental para a produção e reprodução da força de trabalho, o bem mais precioso do universo das relações capitalistas.

No entanto, quanto mais se tornavam evidentes as raízes da desvalorização radical do trabalho feminino e das mulheres como sujeitos sociais sofredores, mais sentia a necessidade de regressar ao início do capitalismo e mais atrás, à crise do feudalismo. Esperava que isso revelasse a razão pela qual o capitalismo se desenvolveu e lançasse luz sobre a guerra que a crescente classe capitalista travou contra as mulheres da “classe baixa” nos primeiros séculos do seu desenvolvimento. Isto envolveu o estudo da luta de resistência popular dos séculos X, XI e XII e a “transição do feudalismo para o capitalismo” dos séculos XVI e XVII. Entendendo os movimentos heréticos que abalaram a Europa em parte da Idade Média, por exemplo, ficou cada vez mais claro para mim que a “idade das trevas”, ao contrário do que aprendemos na escola, não foi um período marcado apenas pelas aventuras dos cavaleiros. reis e rainhas, mas palco de uma intensa luta de classes, protagonizada por artesãos e camponeses – que estavam longe de serem idiotizados pela religião, como muitas vezes se pensa. Quanto mais recuava na história, mais pensava “ninguém se irá importar com isto”. Ainda mais porque, na década de 1990, quando desenvolvi a maior parte do meu trabalho, o feminismo estava a ser fortemente influenciado pela agenda neoliberal promovida pelas Nações Unidas com as conferências de Nairóbi (1985) e Pequim (1995). E no final dos anos 1980 e 1990 também foi influenciado pelo pós-modernismo, que se afastou programaticamente do que era chamado de “grandes narrativas históricas”, privilegiando micro-histórias.

Então, tive certeza de que estava a dedicar o meu precioso tempo a um livro que não seria lido. Mesmo assim, senti uma forte vontade de continuar. Estava convencida da importância de ligar a caça às bruxas ao desenvolvimento do capitalismo e às transformações que este processo promoveu na Europa e nas suas colónias e nas novas formas de exploração e desigualdade social.

Além disso, ao pesquisar descobri que lugares que conheci na Itália, onde nasci, foram palco de movimentos heréticos e de caça às bruxas, descoberta que tornou mais relevante o meu interesse político e intelectual. Obviamente, senti-me culpada por ficar em casa para trabalhar no livro, em vez de ir a um protesto. Mas escrever Calibã e a Bruxa tornou-se a minha prioridade e, depois de alguns anos, fiquei constantemente preocupada em não conseguir terminá-lo. Essa era a minha principal preocupação, por exemplo, sempre que apanhava um avião.

Assim que o manuscrito foi concluído, ele foi publicado pela Autonomedia, que se estabelecera havia pouco como uma nova editora radical. Foi um arranjo conveniente porque eu conhecia o editor, Jim Fleming, e isso permitiu-me participar ativamente do processo de edição. Por exemplo, na escolha das gravuras, que foram um dos motivos do sucesso do livro. Assim pude ter certeza de que a capa era a ilustração de uma mulher rasgando a roupa para mostrar os seios – pintura do italiano Giotto (1267-1337) feita para a Capella degli Scrovegni, em Pádua, chamada Ira . A escolha da capa deu-se, em parte, por algo que aprendi quando morei na Nigéria na década de 1980: sabia que um dos métodos de luta e resistência das mulheres das classes populares durante o período colonial era mostrar os seios. E, em casos extremos, os seus órgãos genitais. Isto era considerado uma maldição, principalmente se fossem mulheres mais velhas que, em protesto, tiravam a roupa e os homens temiam-nas.

O poder desta ação continua vivo. De Julho de 2002 a Fevereiro de 2003, em protesto contra a destruição causada pela extração de petróleo, centenas de mulheres ocuparam os terminais petrolíferos da Chevron, Texaco e Shell em todo o delta do rio Níger, muitas delas despindo-se para impedir o trabalho e o avanço da polícia. Assim, a capa original de Calibã e a Bruxa é inspirada nesta imagem – de imensa fúria e desespero, mas também de luta e resistência. A minha estadia na Nigéria também foi muito importante para a escrita deste livro. Lá, na década de 80, testemunhei o retorno de uma nova fase de “acumulação primitiva” e vi como ela foi acompanhada de ataques contra as mulheres, acusadas de serem as causadoras da crise que o país vivia.

Muita coisa aconteceu desde então. Falei sobre o livro em muitos lugares, desde universidades até vilas na Argentina – e estou grata a cada pessoa e grupo que me convidou. Quero agradecer nesta edição em espanhol que celebra o aniversário do livro, especialmente a Sebastián Touza, que levou a proposta aos colegas da editora militante Tinta Limón. Encontrámo-nos com eles em Nova Iorque para fazer uma entrevista que serviu de prólogo à primeira edição. Dedico esta reedição a Sebastián Touza, que faleceu de Covid e está na minha memória mais amorosa. Quero também frisar que a tradução para o espanhol teve a virtude de fazer parte de um movimento feminista enérgico e crescente em Abya Yala, que proporcionou a este livro múltiplas leituras, usos e debates. Dentro desse movimento, mantive inúmeras trocas possibilitadas por Calibã e a Bruxa como ferramenta de luta.

Gostaria de destacar um projeto que comecei a desenvolver, junto com feministas na Espanha, e especialmente com as mulheres da editora Traficantes de Sueños. O projeto, denominado Memórias das Bruxas, foi o resultado de uma viagem em que percorremos locais da Catalunha e do País Basco que foram palco de caça às bruxas entre os séculos XVI e XVIII, onde muitas mulheres foram executadas.

O que descobrimos nessa viagem foi que, infelizmente, em alguns lugares a caça às bruxas era atração turística. Existem lojas onde se podem comprar bonecas que reproduzem estereótipos sobre bruxas: dentes à mostra, rostos agressivos, sorriso diabólico. Esta imagem está reproduzida em dezenas de canecas, porta-chaves e muitas outras bugigangas que espalham uma mensagem misógina especialmente contra as mulheres mais velhas. Isto torna invisível o facto de as chamadas bruxas serem mulheres normais que foram perseguidas, torturadas e assassinadas. Ao regressar a Madrid, reunimos grupos feministas espanhóis e iniciamos este projeto, para recuperar a memória das “bruxas” e recontar as suas histórias. A intenção é compreender os impactos da caça às bruxas sobre as mulheres daquela época, e relacioná-los com a realidade atual, quando os feminicídios voltam a atingir níveis elevados. Queríamos compreender como esta nova onda de violência está relacionada com os ataques do capitalismo neoliberal à vida, ao trabalho, à reprodução e aos nossos recursos naturais. Já tivemos dois encontros em Espanha e queremos expandir o projeto para outros países europeus, para que as mulheres possam ir aos arquivos das suas cidades em busca de mais evidências sobre este fenómeno. Isto é essencial.

Como mencionei, a caça às bruxas não é coisa do passado. O retorno das campanhas de assassinato contra mulheres é um fenómeno que nunca imaginei ser possível enquanto trabalhava no livro. Achei que era um capítulo encerrado na história das mulheres. Só quando Calibã e a Bruxa estava quase a terminar é que comecei a aprender sobre isso. Nos últimos anos, tem havido caça às bruxas em África, na Índia, na América Latina e na Papua Nova Guiné. Até as Nações Unidas registaram este tipo de feminicídios nos seus relatórios, com números alarmantes. O trabalho que fiz sobre Calibã e a Bruxa também nos ajuda a compreender o ressurgimento atual. Existe uma ligação direta entre o processo de globalização e a nova onda de perseguição às mulheres.

A globalização é um processo de acumulação baseado na desapropriação, expropriação e imposição de formas intensas de exploração da natureza e dos corpos. É um ataque direto à reprodução da vida, especialmente nas comunidades camponesas e indígenas. E, como sabemos, a guerra contra a reprodução é uma guerra contra as mulheres. A atual caça às bruxas produz uma nova campanha de disciplina para impedir que as mulheres assumam papéis mais autónomos na sociedade, para mantê-las subordinadas aos homens e ao capital e, por exemplo, para bloquear o seu acesso à terra. Esta campanha foi promovida especialmente por seitas cristãs fundamentalistas, que auxiliam a expansão do capital por meio do avanço das empresas extrativistas e dos programas de ajuste estrutural que foram impostos aos países que tinham sido colonizados.

Tal como no passado, as igrejas, as elites locais e o capitalismo internacional agiram em conjunto contra as mulheres, associando a pobreza ao culto ao diabo, resultando na morte das acusadas, fossem adultas, mulheres mais velhas ou mesmo meninas. Isto está a acontecer em muitos lugares de África. A relação entre a caça às bruxas e a expropriação de terras é cada vez mais evidente. Hoje, em muitas partes do mundo, há escassez de terras devido ao avanço da mineração, da extração de petróleo e do agro-negócio. Os conflitos intensificaram-se. Neste cenário, as mulheres são sempre as primeiras vítimas. Referi-me brevemente a este processo na última parte de Calibã e a Bruxa e também no último ensaio intitulado Bruxas, Caças às Bruxas e Mulheres.

Mais recentemente, publiquei um artigo sobre o assunto na revista Scientific American, coescrito com Alice Markham-Cantor – ela mesma descendente direta de uma mulher assassinada nos Estados Unidos em 1692, após ser acusada de bruxaria. Alice e eu também aparecemos no documentário A Witch Story [“Uma história de bruxa”] de Yolanda Prividal, lançado em 2022.

Hoje, falar sobre bruxas está na moda. Há uma nova geração de feministas muito interessada no tema. Dizem e cantam: “Somos netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar”. Esta identificação é muito importante, pois é uma demonstração de solidariedade para com as mulheres rebeldes do passado. No entanto, há também uma preocupante exploração comercial de bruxaria e magia, com a venda de tudo, desde roupas até cristais e outros artefactos que as bruxas supostamente usavam para fazer magia. Além disso, recentemente houve produção de filmes e séries de ficção sobre o tema. Já sabemos que o capitalismo transforma tudo em mercadoria. Face a esta realidade, insisto que antes de romantizar o universo da magia é necessário conhecer a verdadeira história de centenas de milhares de mulheres que foram torturadas e assassinadas, acusadas de bruxaria. Também é necessário reconhecer que esta história ainda não acabou. Como já mencionei, a caça às bruxas continua a espalhar dor e sofrimento por todo o mundo. Portanto, é necessário conhecer a verdadeira história das “bruxas”, expressá-la em termos políticos e conectá-la com outras formas de exploração das mulheres.

É por isso que Calibã e a Bruxa ainda é muito atual. E tenho certeza de que permanecerá relevante por muito tempo. Infelizmente, isto ocorre porque os problemas permanecem. Mas também significa que as mulheres estão a lutar para construir uma perspetiva mais ampla sobre a caça às bruxas. Quanto a Calibã e a Bruxa, tenho consciência de que não é um livro simples: lê-lo exige dedicação de tempo, energia e compreensão. Mas a forma como o livro se espalhou pelo mundo mostra que é possível comunicar conceitos complexos e ao mesmo tempo democratizar a linguagem teórica. Certa vez, quando estava na Argentina, um grupo de mulheres da Villa 31, em Buenos Aires, deu-me dois grandes pedaços de papelão nos quais tinham escrito as ideias principais do livro. Isto encheu-me de alegria. Espero que mais mulheres ao redor do mundo continuem a inspirar-se nesta história.


Publicado originalmente no Tinta Limon. Traduzido por Antonio Martins para o Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.