Silvia Federici (Parma, Itália, 1942) encerrou outubro de 2023 com uma conferência on-line na quarta edição da Escola Feminista da Assembleia Moza d’Astúrias, em Espanha. Autora de Calibã e a bruxa, O ponto zero da revolução, Reencantando o mundo e Além da pele, Federici é uma das teóricas mais importantes e reconhecidas do feminismo anticapitalista mundial, com uma longa trajetória de ativismo e reflexão. Viveu o feminismo dos anos 1970 em Itália, as campanhas pelo salário para o trabalho doméstico em Nova York, a luta contra os planos de ajustamento estrutural na África, a crítica ao processo de globalização neoliberal e os seus efeitos em todo o planeta, o movimento pela recuperação dos bens comuns e, mais recentemente, o ciclo de lutas que se abriu em 2011 e que tem continuado na última onda feminista.
Por outras palavras, Federici passou décadas a conciliar o ativismo com a reflexão e, assim, tem nos fornecido chaves para pensar e entender nosso presente. Hoje, quando o movimento feminista internacional está a passar por intensos debates internos, voltamos a conversar com ela sobre este momento político.
Começamos pelo passado mais recente do movimento feminista, que foi um período massivo e expansivo de protestos, mobilização e reivindicação social. Como interpretas e como achas que devemos interpretar este “crescimento político” num presente menos ativo? E como podemos pensar no movimento feminista de hoje em dia?
Em primeiro lugar, não estou surpreendida com o grande crescimento do movimento feminista internacional. Na verdade, teorizo há muito tempo – junto com outras companheiras, como Verónica Gago – que o movimento feminista, em potencial, é o movimento mais importante. E é assim porque luta no território mais importante da transformação social, que é o da reprodução social. O feminismo, desde o início, concentrou-se na análise da reprodução social como o conjunto de atividades fundamentais para a reprodução da vida no sistema capitalista. Nesse contexto, a perpetuação da sociedade capitalista é mais importante do que a procriação, os cuidados, a saúde, a educação e toda a formação cultural. Como Verónica Gago já disse muitas vezes, junto com as companheiras do movimento Ni Una Menos, a reprodução não é equivalente à produção. Pelo contrário, a reprodução é algo muito mais abrangente: é o conjunto de atividades que constituem a condição de possibilidade da perpetuação do mercado de trabalho. Portanto, a luta não é outra coisa senão o território onde se torna possível unir diferentes movimentos, reunir várias disputas. Este território é a luta feminista. É exatamente isso que a luta feminista demonstrou a nível internacional: o feminismo, entendido como protesto contra a opressão e discriminação das mulheres, amadureceu muito nas suas análises e, na prática, possibilitou o surgimento de muitas mais reivindicações. Nas últimas décadas, entendemos que não é possível mudar a situação das mulheres no mundo sem mudar o próprio mundo. O feminismo atual agora tem essa consciência e sabe que, como mulheres e dissidentes sexuais, não podemos melhorar a nossa condição sem mudar o sistema social capitalista, que se baseia numa lógica de guerra, violência, exploração do trabalho e da natureza. Em última análise, não podemos mudar nossa condição sem lutar contra o sistema capitalista em todas as suas formas.
Como se explica o crescimento político feminista dos últimos anos?
Eu acredito que o crescimento político dos últimos anos se deve, principalmente, às crescentes evidências da crise do sistema capitalista. Poderíamos discutir o porquê dessa crise, mas é evidente que a crise do capitalismo está a aprofundar-se. Temos um capitalismo cada vez mais violento, que promove a militarização da vida, a intensificação da exploração do trabalho e da natureza e a desapropriação de terras. Estamos a viver um presente aterrador no qual milhares de pessoas são forçadas a deixar os seus locais ancestrais para que se tornem terras úteis e produtivas para o capital. A resposta a esta guerra e a este ataque sistemático internacional à vida e à sua reprodução tem vindo das mulheres. São as mulheres que lutam na linha de frente contra a destruição da Amazónia e da África, são as mulheres que lutam contra o desmatamento e contra as empresas de mineração e petrolíferas. Elas percebem que a chegada de uma empresa de mineração significa que há mercúrio na água e que isso significa o fim da sua comunidade. Acredito que, por serem o sujeito principal da reprodução social, as mulheres se envolvem mais na luta contra as políticas que destroem a vida e impedem a sua reprodução. Hoje, este é o tema fundamental da política internacional.
Tens falado há muito tempo sobre os altos custos da reprodução social do sistema capitalista para as mulheres. Como essa imposição nos afetou e nos afeta?
Muitas mulheres, desde o início do movimento feminista, denunciaram, de diversas maneiras e com muitas palavras, o significado dessa imposição às mulheres na sociedade capitalista, o que implica cuidar da reprodução da vida. Explicámos que essa imposição gerou um trabalho desvalorizado, não remunerado, sem horário e reforma. No entanto, acredito que também é importante dizer que esta imposição deu-nos muito conhecimento: não é por acaso que as mulheres hoje têm maior consciência da fragilidade e do valor da vida, da teia de relações que sustenta a vida e nos permite superar o individualismo. Em resumo, a importância de construir uma comunidade.
Para mim, esses são os dois temas centrais do feminismo: a luta contra a devastação capitalista, colonial e racista e a capacidade de pensar numa alternativa e praticá-la a partir do presente, da nossa vida quotidiana. Pensar nisso, no contexto da perigosa situação política internacional atual, na qual muitas pessoas enfrentam constantemente a morte, enche-me de esperança. Neste contexto, o crescimento do movimento feminista e da sua capacidade organizativa internacional não é algo insignificante. Especialmente nos últimos anos, o movimento feminista tem demonstrado a sua grande capacidade de criar alianças para a internacionalização da greve, indo da Argentina à Europa e gritando para o Estado: ‘O violador és tu’. A tecnologia ajudou-nos a comunicar entre nós, mas essa grande capacidade vem, acredito eu, da consciência de que as mulheres estão a enfrentar, de maneiras muito diferentes, os problemas fundamentais da política internacional atual. As nossas vidas dependem de como esses problemas serão resolvidos.
Falas muito sobre experimentação. O que significa isso? Acha que o nosso presente é ou poderia ser um momento de experimentação?
O meu conceito de experimentação surge da ideia de que não podemos mais pensar na mudança social como uma tarefa do futuro. Estou a pensar agora no conceito de “revolução” da esquerda tradicional, que considera a revolução como algo muito distante do nosso presente, algo que nunca chega. A minha ideia de experimentação, que considero muito importante para a prática feminista, diz exatamente o contrário: a revolução é hoje, a mudança acontece hoje. Não podemos continuar a lutar contra tudo sem construir algo de forma positiva, não podemos lutar apenas a organizar protestos. Dizer “não” é fundamental, sair às ruas e opor-se é fundamental, mas não nos podemos limitar a isso. Precisamos começar a construir e fazê-lo em conjunto. Precisamos mudar a nossa vida quotidiana experimentando novas formas de criar uma comunidade, que é a própria condição da nossa luta.
Quando falamos em construir bens comuns, não o fazemos apenas a pensar num futuro comunitário, mas sim a partir da convicção da necessidade de fazê-lo agora. Precisamos começar a mudar as condições de reprodução da vida. O capitalismo, para se reproduzir, dividiu-nos, individualizou-nos e atomizou-nos. Leopoldina Fortunati explica isso muito bem: o capitalismo unia-nos nas fábricas e dividia-nos na vida, com base na individualidade. A ideia da casa separada das outras, da família nuclear que cuida dos assuntos sujos em casa, da privacidade que rompe as relações entre vizinhos, tudo isso precisamos quebrar. Nos últimos anos, temos dito alto e claro: vamos derrubar os muros. Para mim, este foi um dos maiores contributos do feminismo, ou seja, colocar a necessidade de nos unirmos e compartilhar à mesa os nossos problemas.
Como podemos colocar em prática essa aprendizagem?
Desde o início, o feminismo entendeu que não podemos lutar sem mudar a nossa vida quotidiana e sem socializar o nosso sofrimento e os nossos medos. Os grupos de autoconsciência foram muito importantes. Quando as mulheres começaram a falar e compartilhar os seus medos, as suas culpas e a sua sensação de não valer nada umas às outras, perceberam que todas compartilhavam os mesmos problemas. Perceberam que não eram problemas individuais, mas sim estruturais. Os grupos de autoconsciência permitiram-nos entender que o problema não éramos nós, não eram nossos corpos nem as nossas mentes, o problema era a sociedade. Portanto, o que precisávamos naquela época e ainda precisamos agora é mudar a sociedade, não nós mesmas. Nós temos uma grande capacidade de socializar e compartilhar os nossos problemas, agora precisamos mudar a organização da reprodução quotidiana, criando momentos compartilhados de cuidado, como hortas urbanas.
A organização feminista deve ser também uma organização da mudança na vida quotidiana, que passa pelo que é comum: unir-nos significa fortalecer e ganhar confiança, conhecimento e poder para enfrentar o Estado que detém mais poder. Enfrentar o Estado não significa fechar-se em grupos pequenos, pelo contrário: significa unir para reivindicar a riqueza social que está a ser-nos roubada e deter as decisões destrutivas que estão a ser tomadas. Portanto, experimentar também significa criar formas de luta capazes de recuperar e reivindicar espaços, tempo, riqueza social e recursos que nos foram roubados e continuam a ser roubados. Isto é muito importante, pois não podemos criar um mundo diferente sem antes nos apropriarmos da riqueza social. Eu acredito que este é o verdadeiro campo de luta. Tenho dito há algum tempo que os comuns, ou seja, a criação em comum, não é apenas o objetivo da luta, mas sim a condição quotidiana da luta e o seu poder de desafiar o Estado e aqueles que estão a sufocar nossa possibilidade de mudança.
Há alguns meses, durante uma entrevista publicada pela Contexto, desenvolveste uma questão-chave para o movimento feminista internacional: “Até que ponto podemos deslocar a nossa atividade reprodutiva da reprodução da força de trabalho para a reprodução do nosso poder de luta?”. Além disso, disseste que “isso é a medida do nosso crescimento político”. O que significa?
É a capacidade de nos unirmos para criar, superando a atomização da nossa vida. Isso é essencial para uma mudança social radical. Somente assim poderemos reduzir o tempo que investimos par realizar trabalhos que nos disciplinam e que geram pessoas mais facilmente exploráveis, e, dessa forma, poderemo-nos dedicar a criar as condições necessárias para nos fortalecer e mudar a nossa situação, tanto pessoal quanto coletiva. O tempo e os recursos, como mencionei, são fundamentais. A nossa vida está constantemente em contradição e a reprodução torna isso evidente. A reprodução sustenta a nossa vida, a das nossas famílias e comunidades, e, ao mesmo tempo, ocorre em condições que não escolhemos, que nos são impostas e que não são desejáveis. Essas condições são impostas pelo capitalismo, que precisa explorar para se reproduzir. O tema agora, então, é como mudar e como fazer isso: como nos organizamos para obter o poder de não ter que trabalhar dez horas por dia? Como fazemos para que as nossas filhas e filhos não reproduzam a nossa miséria e possam ter a liberdade de rejeitar a exploração e o despojo? É sobre isso que estou a falar através do conceito de “experimentação”.
Qual é o caminho para nos reapropriarmos do nosso tempo e poder e assim nos organizarmos?
A força que vamos construir é a de recuperar a nossa vida e criatividade. Eu acredito que o que fazemos na vida quotidiana tem consequências nas casas, escolas, escritórios e fábricas, e essa é a medida do nosso crescimento político: influenciar as pessoas que atravessam os espaços que mudamos com as nossas ações diárias. Neste contexto, os sindicatos deveriam desempenhar um papel ativo. Acredito que chegou a hora de os sindicatos incluírem a questão da reprodução da vida na luta pela melhoria das condições de trabalho da classe trabalhadora. A luta laboral deve expandir-se e interessar-se pelo que está a ser produzido. Não se trata apenas de fazer com que as horas de trabalho sejam respeitadas e de garantir condições de trabalho dignas mas também de reivindicar o direito de decidir se queremos produzir mercadorias úteis ou materiais tóxicos e armas que acabarão com a humanidade e a natureza. A reprodução não é apenas uma questão doméstica, pelo contrário, é muito ampla e afeta todas as esferas das nossas vidas. Em última análise, trata-se de decidir se queremos produzir morte e miséria ou algo que reproduza nossa criatividade e bem-estar.
Uma das questões que enfrentamos no feminismo é libertar o tempo das mulheres, libertar o nosso tempo. Eu acredito que há milhões de mulheres em todo o mundo que estariam dispostas a sair às ruas e organizar-se, mas o trabalho dos cuidados, que nunca termina, mantém-nas presas nas suas casas. Precisamos pensar no trabalho de cuidados de forma mais ampla do que costumamos fazer. Cuidar não é apenas criar os nossos filhos, é cuidar de milhares de coisas que o corpo e a mente precisam. Devemos pensar no cuidado emocional que as pessoas que criamos precisam. Cuidar é o trabalho mais árduo, pois exige todas as nossas energias físicas, mentais e emocionais. É um trabalho desgastante.
Portanto, acredito que pensar em formas comunitárias de cuidar é uma tarefa pendente do feminismo. Precisamos de tempo, precisamos libertar o tempo das mulheres que ainda hoje estão aprisionadas nas suas casas, equilibrando o seu trabalho com o cuidado de idosos, crianças e pessoas com deficiência física. Isto é uma das questões mais urgentes a serem abordadas pelo movimento feminista: se estamos a ser consumidas física e emocionalmente para reproduzir, como poderemos investir as nossas energias na luta? A mudança na vida quotidiana, portanto, é fundamental para estarmos na luta. Tenho receio de que o movimento feminista, neste sentido, não tenha feito o suficiente. Acredito que seja necessário um esforço maior para pensar não apenas em como podemos mudar a forma como as comunidades se relacionam umas com as outras, mas também como planeamos enfrentar o Estado.
Não podemos esquecer que, quando pedimos serviços sociais ao Estado, precisamos ser capazes de controlar que tipo de serviços nos são fornecidos. Acredito que qualquer mulher que tenha lidado com o sistema de saúde sabe muito bem que vivemos num estado de crise contínua e permanente. O Estado pode fornecer serviços, mas, às vezes, a forma como o faz está tão equivocada que a situação acaba por piorar. Lamento estar a falar tanto sobre esse assunto, mas, por estar a viver isto em primeira mão, assim como muitas companheiras, sinto que é um assunto que deve ser abordado. Recentemente, percebi que, a partir de certa idade, a questão dos cuidados se torna mais complexa, e hoje não temos uma alternativa ao trabalho realizado pelas mulheres em casa. Acho isso terrível e deve ser um tema central para o movimento feminista atual.
Falando sobre a tua trajetória, viveste na primeira pessoa as lutas dos anos 70 e a última onda feminista da qual falamos no início. O momento atual é marcado por uma forte rejeição ao feminismo e um questionamento dos avanços que alcançámos. Achas que há alguma conexão entre a rejeição ao feminismo que ocorreu nos anos 70 e a atual?
Sim, claro que há. É uma pergunta complicada porque há muitos fatores em jogo. Em primeiro lugar, não é por acaso que a partir dos anos 70 as Nações Unidas começaram a intervir na política feminista. As Nações Unidas, ou seja, o capital internacional, perceberam muito antes que a esquerda tradicional o quão perigoso o feminismo poderia ser para a sua perpetuação. A partir de 1975, houve inúmeras conferências e intervenções das Nações Unidas (Cidade do México, Copenhaga, Nairobi, Pequim, etc.) que tinham como objetivo a apropriação do movimento feminista e o uso de parte da nossa ideologia contra nós, usando o nosso pensamento para nos controlar e integrar as mulheres no processo de globalização como mão de obra barata.
Até hoje, as mulheres realizam dois trabalhos. Portanto, o capital queria apropriar-se do movimento feminista através da ideologia da emancipação por meio do trabalho. Ninguém se emancipa através do trabalho numa sociedade capitalista, isso é uma mentira. Eu acredito que essa cooptação do capital nos causou muito dano. Essa massificação do feminismo prejudicou-nos. Muitas pessoas, principalmente muitas mulheres jovens da nova geração, acreditam que uma mulher feminista é aquela que luta pela igualdade entre homens e mulheres e que deseja ocupar um cargo de poder no seu trabalho. Em resumo, uma mulher feminista torna-se uma mulher capturada pela instituição. Em parte isso é verdade: muitas feministas estão presas nas instituições porque muitos governos, embora nem todos, perceberam que a emancipação das mulheres poderia ser usada de forma instrumental para seu próprio benefício. As mulheres, então, podem ser exploradas não apenas em casa, mas também nas instituições com salários miseráveis e em outros trabalhos que não geram autonomia alguma. Tudo isso aumenta a miséria das mulheres, não as liberta, e mesmo assim, há quem continue a dizer que esse é o caminho. Bem, tenho minhas dúvidas e acredito que, devido a isso, muitas jovens começaram a falar de pós-feminismo. Estou a pensar num cântico que é muito ouvido por aqui, que diz: “vamos ser pós-feministas numa sociedade pós-patriarcal”. Isso é mentira: a sociedade atual ainda é muito patriarcal, e vemos isso todos os dias.
Nos últimos anos, vimos o crescimento e disseminação de muitos partidos de extrema-direita em todo o mundo, totalmente contrários aos avanços feministas. Como é que esta onda reacionária global nos afeta? Nos últimos livros, falas do conceito de “fascistização” da sociedade. Podes explicar?
Além de tudo o que mencionei, hoje em dia, estamos a enfrentar o fascismo no seu estado mais puro. Um fascismo que parece ter perdido qualquer tipo de vergonha. Por um lado, temos Giorgia Meloni na Itália, que é grotesca. Ela, uma mulher, líder de um partido chamado Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália), nunca pensou em mudar o nome de sua organização política para que ela fosse incluída. Por outro lado, temos o Sr. Trump e a bem-sucedida luta do Partido Republicano para acabar com o direito ao aborto. Neste contexto atual, muito complexo, precisamos ser sábias e analisar cuidadosamente, porque há um perigo real no nosso presente.
Identificamos como fascismo o de Trump e o de Meloni, que é um fascismo muito óbvio, tão óbvio que é grotesco. No entanto, há outro fascismo mais subtil que permeia a política e a economia atuais. No nosso presente, em sociedades que se auto-denominam democráticas, estamos a testemunhar uma “fascistização” da sociedade e da política económica.
Nos Estados Unidos, onde moro, tudo isto é muito evidente. As políticas que destruíram o bem-estar social americano foram implementadas por governos como o de Clinton, que foi capaz de alterar as leis de combate ao terrorismo, de administração de prisões e de militarização de toda a fronteira com o México. O governo Biden, que parece estar aberto ao feminismo e às pessoas trans, na verdade não está a fazer nada concreto. No entanto, envia milhões de dólares em todo o mundo para apoiar guerras imperialistas. Estamos a testemunhar uma política imperialista brutal por parte do Partido Democrata nos Estados Unidos. O que está acontecendo em África e na Ucrânia é evidente: a guerra continua porque os Estados Unidos querem que continue e estão a preparar-se para uma guerra contra a Rússia e a China.
Nos últimos dias, o governo Biden aprovou um orçamento militar de um trilhão de dólares. Em resumo, em 2023, o governo atual investirá um trilhão de dólares em guerra. Pense em quantas coisas poderiam ser feitas com um trilhão de dólares, quanto apoio à reprodução social poderia ser fornecido com todo esse dinheiro. A partir do que é investido na militarização da sociedade, cortes contínuos são feitos na já escassa saúde pública. No início deste ano, foram retirados os benefícios de saúde pública de mais de um milhão de pessoas e foi negado todo tipo de apoio aos estudantes universitários, que continuarão endividados para o resto das suas vidas por terem buscado educação. Estudar nos Estados Unidos é caro e, diante desta situação esmagadora, decide-se investir um trilhão de dólares em morte e guerra.
Essa deve ser uma questão importante para o movimento feminista. Estamos num momento muito perigoso, preparando-se para guerras internacionais, e o capitalismo alimenta-se das guerras e reproduz-se com elas. A guerra sempre foi um momento de mudança social profunda, pois serve para transformar a economia e as relações de poder ao nível local e internacional. Além disso, a guerra serve para destruir os movimentos sociais. Neste momento de profunda crise do capitalismo internacional, estão a senr criadas as condições para a guerra, dia após dia. Portanto, a luta contra a guerra deve ser incluída na agenda feminista em todos os níveis.
Foi uma grande derrota para o feminismo a inclusão de mulheres nas forças armadas no final dos anos 70 e início dos anos 80. Houve pessoas que lutaram pela entrada das mulheres nos exércitos nacionais, enquanto eu me oponho a essa barbaridade há décadas. Igualdade, nesse caso, não significa que homens e mulheres sejam iguais; igualdade significa que ninguém mais deve morrer numa guerra. Precisamos deter a militarização da vida quotidiana e, para isso, precisamos de um feminismo que lute contra a guerra. Essa deve ser uma questão central para o movimento feminista internacional: lutar contra a guerra, contra a militarização da vida quotidiana, contra o investimento em armas e militares e contra o controle social nas cidades e bairros.
Descreveste um presente muito complicado através do quadro da fascistização, que permite resolver muitos nós da análise social, económica e política do momento atual. Qual é o papel das mulheres nesse processo de fascistização? E o que o movimento feminista pode fazer para enfrentar essa onda fascista? Nos teus escritos mais recentes, falas sobre a militância alegre e com gozo. Recuperar a alegria é a chave para facilitar a organização?
Ah, eu gosto deste tópico. Estou profundamente convencida de que, a nível internacional, está a ocorrer um grande processo de consciencialização. A grande maioria de homens e mulheres, jovens e velhos, sabe que a sociedade capitalista é uma sociedade que produz morte e escassez em nome do progresso. A maioria da sociedade sabe que o progresso capitalista é uma mentira. Portanto, o desafio do feminismo atual é organizar essa maioria social com novas formas de luta comunitária. O propósito é, como mencionamos antes, libertar o nosso tempo para criar uma mobilização forte, contundente e verdadeiramente transformadora. Para que isso aconteça, precisamos ter tempo livre.
No entanto, há outro tópico igualmente importante a abordar: a nossa forma de organização. Eu acredito que, durante muito tempo, a forma de organização política foi muito masculina. Sendo um setor muito masculinizado, desenvolveu-se uma ideia do que é a política e como se faz política de forma muito regimentada. Eu acredito que as feministas, por outro lado, entenderam que ao se organizar para lutar, é preciso pensar em atividades que não sejam mais um trabalho. Devemos pensar em formas de organização e luta que não sejam mais um trabalho, que não nos causem mais sofrimento e que não pareçam mais uma carga em nossas vidas. Devemos esforçar-nos para criar formas de organização, luta e mobilização que nos nutram, nos fortaleçam emocionalmente e sejam prazenteiras e alegres. No entanto, a condição para que isso aconteça é consciencializar-se da importância das relações que criamos entre nós no processo de luta e mobilização. Devemos prestar atenção às relações que criamos e criar redes afetivas que nos façam desejar ir a uma reunião ou encontro porque as nossas amigas, as mulheres que amamos, estarão lá. A organização também deve incluir momentos de felicidade: cantar, dançar e fazer atividades alegres juntas. Muitas mulheres já estão a colocar tudo isto em prática. Um exemplo fantástico é Rafaela Pimentel da Território Doméstico. Precisamos integrar essa afetividade na nossa luta, especialmente quando temos companheiras que deixaram os seus países e vivem longe das suas comunidades. A militância alegre consiste em criar novas famílias no sentido mais positivo da palavra. Eu sempre digo: se o trabalho de mobilização se tornar uma carga adicional, algo está errado. Nesta condição de tristeza e sofrimento adicionado às nossas vidas, é normal que as pessoas prefiram ir assistir ao futebol ou ao cinema. Precisamos criar uma militância alegre capaz de nos reproduzir, não apenas aos outros. Precisamos também reproduzir a luta, o que significa reproduzir-nos num aumento de alegria. Isso é solidariedade. A solidariedade não é apenas teoria, é algo que nos mobiliza, que move os nossos corpos.
Para encerrar, quais são as tarefas pendentes do feminismo contemporâneo? Falaste sobre a importância de incluir na agenda feminista o trabalho reprodutivo e a reprodução da vida, a luta contra a guerra e a militarização da sociedade. Achas que há algum novo campo de reflexão que não estamos a conseguindo ver, justamente porque, como nos ensinas, o capitalismo limita a nossa capacidade de imaginar?
Acredito que o que o movimento feminista está a fazer atualmente demonstra a amplitude do feminismo: o corpo, a sexualidade, a saúde, a educação e a produção do conhecimento são apenas alguns dos temas que o movimento feminista abordou ao longo das últimas décadas. Também não podemos esquecer da incrível luta pela recuperação da Memória Histórica realizada pelas companheiras na América Latina. Elas ensinam-nos a importância de recuperar o senso de comunidade e a solidariedade com aqueles que lutaram antes de nós, não apenas para entender as lutas do passado, mas também para mantê-las presentes no nosso quotidiano. Compreender as lutas do passado e conhecer o rosto das companheiras e companheiros que perderam a vida a lutar fortalece-nos. Em última análise, entender que a nossa luta faz parte de algo muito maior e que vai além da nossa vida individual dá-nos coragem, sabedoria e solidariedade.
Além disso, a luta feminista envolve a luta pelos recursos e contra a devastação da natureza na sua totalidade: a terra, a água, os mares, os animais e as árvores. Também é a luta contra a dívida, que é muito forte na Argentina, como Verónica Gago menciona com frequência. A dívida foi criada pelo capital e é outra forma de aprisionar as mulheres nas suas casas. As mulheres são as mais endividadas: temos dívidas para comer, para nos curar e para estudar. Hoje em dia, as pessoas não se endividam para comprar coisas supérfluas, muito pelo contrário: hoje endividamo-nos para comer, pagar as contas de luz e consultar um médico, porque os salários estão cada vez mais miseráveis. Portanto, a capacidade do movimento feminista de criar redes internacionais, que vão da América à Europa, passando pela África e Ásia, contra a dívida pessoal e nacional, é de extrema importância. Organizar-se internacionalmente contra o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional é fundamental, porque onde quer que sejam impostos planos de austeridade, as pessoas não terão escolha senão endividar-se para sobreviver.
Em resumo, o movimento feminista tem-se mostrado capaz de incluir na sua análise muitos temas, como mencionei antes. Agora precisamo-nos concentrar em criar novas formas coletivas de organizar os cuidados, a educação e a produção de conhecimento sem passar pelo mercado. É necessário libertar a reprodução social do mercado, livrá-la da lógica do lucro, recuperá-la e focá-la no nosso bem-estar. Este é o objetivo do feminismo e já estamos a caminho de alcançá-lo. Um caminho que deve ser internacionalista, com passos para fortalecer as redes de mulheres já existentes e criar outras capazes de conectar as mulheres indígenas com as camponesas e com aquelas que lutam contra a repressão sexual. Em resumo, temos que conectar todas as nossas lutas. O feminismo é um território de análise e ação imenso, e eu acredito que ainda estamos a entender que esta é nossa força. Estamos a criar um território comum que serve como ponto de encontro para todas as lutas sociais. Esta é nossa força e, ao mesmo tempo, o presente e o futuro do movimento feminista.
Entrevista de Melissa Cicchetti, na Nortes, traduzida pelo blogue da Elefante, republicado pelo Outras Palavras. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.