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Brexit: May apela a Corbyn para viabilizar acordo de saída

Theresa May apelou a Jeremy Corbyn para viabilizar conjuntamente um acordo de Brexit que possa ser aprovado no parlamento, que já o rejeitou três vezes. Manobra revela falta de opções dos conservadores, bloqueados por graves divergências internas.
Imagem de Tiocfaidh ár lá 1916/Flickr.
Imagem de Tiocfaidh ár lá 1916/Flickr.

O turbulento processo de saída do Reino Unido da União Europeia teve esta semana uma nova inflexão. Esta terça-feira, Theresa May apelou ao líder trabalhista Jeremy Corbyn para viabilizar um acordo de Brexit, dispondo-se a fazer cedências para esse efeito.

A pouco mais de uma semana do prazo de saída da UE, falharam até agora todas as tentativas de May para aprovar no parlamento o seu acordo de saída, o que levou o parlamento a retirar a May a iniciativa legislativa sobre o Brexit e a assumi-la para si. Mas o parlamento tão pouco chegou a uma solução: rejeitou até agora todas as propostas apresentadas sobre o Brexit, oito delas votadas há uma semana (a 27 de março), outras quatro na passada segunda-feira (1 de abril).

O motivo principal para o impasse encontra-se nas divisões fratricidas entre os conservadores, que estão a gerar um situação volátil e de desfecho imprevisível. A ala direita e eurocética dos conservadores, agregada no chamado European Research Group (ERG), liderado pelo deputado Jacob Rees-Mogg, continua a recusar o acordo de May e as suas cedências à UE, que considera excessivas, preferindo arriscar uma saída sem acordo a aceitá-las. Por outro lado, os unionistas ultra-conservadores do Democratic Unionist Party (DUP) da Irlanda do Norte, cujos 10 deputados fazem maioria com os conservadores, não aceitam o chamado backstop, a solução provisória que May negociou com a UE para evitar uma fronteira fechada desde já entre a Irlanda do Norte e a Irlanda, no qual vê o ressurgir da ameaça de uma Irlanda republicana unificada.

Perante as divisões do seu campo, May tem tentado jogar com o tempo, na expetativa de que a ameaça de uma saída desordenada, de um segundo referendo ao Brexit, ou mesmo de eleições que poderiam entregar o poder a Corbyn, acabem finalmente por vencer a resistência de eurocéticos e unionistas. Mas estes continuam a não ceder, e o prazo para a saída aproxima-se. Este fim de semana, o Financial Times, veículo prestigiado para a visão das elites de negócios britânicas, lamentava em editorial a intransigência dos eurocéticos: "Não restam dúvidas: o ERG, e o igualmente intransigente DUP da Irlanda do Norte, têm a maior parte da culpa pelo falhanço em concretizar o resultado do referendo de 2016".

Com a aproximação da saída a agudizar todas as tensões, May tentou esta terça-feira nova manobra para desbloquear o impasse: um apelo a Jeremy Corbyn e ao partido trabalhista para aprovar um acordo conjunto de Brexit. Uma tal saída implica para May abdicar das linhas vermelhas que manteve até aqui para acomodar as posições trabalhistas — por exemplo, manter o país numa união aduaneira com a UE após o Brexit. Se um tal acordo interpartidário fosse aprovado em poucos dias, seria apresentado à cimeira europeia a realizar já na próxima semana; senão, acordar-se-ia com a UE mais uma extensão breve do prazo de saída e o parlamento decidiria os seus termos concretos, que o governo se compromete a aceitar.

Tendo os conservadores, e boa parte dos media, passado os últimos anos a lançar toda a sorte de insultos a Corbyn — marxista, traidor à nação, apoiante de terroristas, anti-semita, entre outros — este volte-face revela a situação crítica em que o governo se encontra. Representa uma mais derrota pesada em termos simbólicos, ao constituir uma admissão tácita de que Corbyn é uma força incontornável na política britânica, sem a qual não haverá saída para o impasse.

A direita eurocética conservadora reagiu com horror. Segundo o Guardian, Jacob Rees-Mogg deplorou a tentativa de obter apoio de um "reconhecido marxista", que "não vai gerar confiança entre os conservadores"; Iain Duncan Smith, antigo líder conservador, considerou-a um "absoluto desastre. Estamos prestes a legitimar Corbyn. É chocante". O DUP também condenou a iniciativa. May calculará todavia que nada tem a perder, pois os setores recalcitrantes do seu partido estão desejosos de removê-la à primeira oportunidade.

Jeremy Corbyn reagiu registando a mudança de tom de May, pela primeira vez em dois anos de governo, e mostrou-se disposto a reunir. Em declarações à Sky News, reafirmou as suas condições para viabilizar um acordo: "A nossa base é proteger o emprego, proteger o nível de vida, garantir que a nossas relações de comércio continuam no futuro e que não nos vamos tornar numa espécie de paraíso fiscal desregulado offshore nas margens da Europa". Tentou também deslocar o debate da questão da UE para outras linhas de divisão, estratégia que tem seguido: "quer tenha votado Leave, quer tenha votado *Remain", ninguém votou para viver pior ou para perder o emprego, e na verdade há muito mais a unir as pessoas dos dois lados sobre o tipo de sociedade em que queremos viver do que a dividi-las".

Apesar do gesto dialogante de Corbyn, um eventual acordo interpartidário é difícil, pois qualquer acordo que Corbyn obtivesse com May ficaria sempre aquém do que deseja. Poderá ter mais a ganhar com novas eleições, a sua prioridade política, que a divisão fratricida nas hostes conservadores está a tornar mais plausível, à medida que o impasse se aproxima de um ponto de rutura. Corbyn enfrenta também uma grande divisão interna no seu partido sobre a questão europeia e uma oposição encarniçada dos setores centristas, que apostam tudo num segundo referendo como forma de o fragilizar.

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