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Brasil: Bolsonaro leva a disputa para as ruas

Presidente convoca manifestação para apoiá-lo neste domingo 26, em resposta à mobilização de 15 de maio contra os cortes na Educação. Mas setores da sua própria base de apoio rejeitam a iniciativa. Por Luis Leiria.
Uma das imagens usada na convocatória: da esquerda para a direita, Olavo de Carvalho (de chapeu de cowboy), Sérgio Moro, Paulo Guedes, o ministro da economia, e Bolsonaro.
Uma das imagens usada na convocatória: da esquerda para a direita, Olavo de Carvalho (de chapeu de cowboy), Sérgio Moro, Paulo Guedes, o ministro da economia, e Bolsonaro.

Depois de ter sentido, pela primeira vez desde que foi eleito, o peso de grandes manifestações de protesto contra a sua política para a educação, o presidente Jair Bolsonaro resolveu apostar na disputa das ruas e apoiar a convocação de manifestações de apoio a si próprio no próximo domingo, dia 26 de maio.

Os objetivos inscritos nas diversas convocatórias têm um ponto em comum: o apoio a Jair Bolsonaro. Divergem no resto. Umas são contra o “centrão” (conjunto de partidos de direita não alinhados com o governo), que os bolsonaristas acusam de não deixar o presidente governar; outras são contra o Supremo Tribunal Federal; outras a favor da contrarreforma da Previdência (Segurança Social) do governo; outras ainda pelo pacote legislativo na área da segurança apresentado pelo ministro Sérgio Moro.

A iniciativa parte do setor mais radical da extrema-direita que apoia o presidente do Brasil e surge num momento particularmente delicado de Bolsonaro, menos de cinco meses depois da sua posse. Apesar de um dos objetivos anunciados ser “unir a direita”, a manifestação já está a causar desunião nas próprias hostes bolsonaristas.

Críticas de bolsonaristas

A deputada estadual Janaína Paschoal, conhecida por ter sido uma das juristas proponentes do impeachment de Dilma Rousseff, e eleita com mais de dois milhões de votos, criticou a convocatória: “Estas manifestações não têm racionalidade”, escreveu no Twitter, acrescentando: “O Presidente foi eleito para GOVERNAR nas regras democráticas, nos termos da Constituição Federal. Propositalmente, ele está confundindo discussões democráticas com toma-lá-dá-cá.” E faz um apelo enfático: “Àqueles que amam o Brasil, eu rogo: não se permitam usar! Não me calei diante dos crimes da esquerda, não me calarei diante da irresponsabilidade da direita”, advertindo: “Acordem! Dia 26, se as ruas estiverem vazias, Bolsonaro perceberá que terá que parar de fazer drama para TRABALHAR!”

"Dia 26, se as ruas estiverem vazias, Bolsonaro perceberá que terá que parar de fazer drama para TRABALHAR!”, diz Janaína Paschoal

Também o Movimento Brasil Livre (MBL), um dos principais impulsionadores das mobilizações contra Dilma, anunciou que “não tem qualquer relação” com a convocatória do dia 26. Segundo o comunicado divulgado, a “estranha manifestação” está sendo acompanhada com “apreensão”, afirmando o MBL que os seus objetivos são antirrepublicanos. “Pelo bem das reformas e do país, ficaremos de fora deste ato”, acrescenta o comunicado.

Renan Santos, coordenador nacional do MBL, disse ainda que o movimento “nunca se aliará a grupos que não respeitam o Estado Democrático de Direito: Não andamos com golpistas. Olavo e os seus destruíram o governo Bolsonaro; agora querem destruir a direita – e o Brasil”.

Olavo de Carvalho é o astrólogo e escritor que vive nos Estados Unidos e funciona como guru ideológico dos Bolsonaros.

Outra baixa importante entre os bolsonaristas foi a do cantor Lobão que no fim de semana anunciou, numa entrevista ao Correio Braziliense, a sua rutura com o presidente. “Eu tinha que optar por alguém e esse alguém foi o Bolsonaro. Mas ele mostrou que não tem a menor capacidade intelectual e emocional para poder gerir o Brasil. Isso está muito claro para mim e fico muito triste. É óbvio que o governo vai ruir”.

Convocatória atrapalhada

Como tudo neste governo, o apelo à mobilização pró-Bolsonaro apareceu de uma forma desajeitada e até contraditória. Logo a seguir às manifestações do dia 15 contra os cortes na Educação, Bolsonaro partilhou no Whatsapp um texto de autor desconhecido que considerava o país como “ingovernável”, por o presidente não aceitar fazer “conchavos” com os deputados do Congresso Nacional. Desta forma, sustentava o texto, “o presidente não serve para nada”, e “a hipótese mais provável é o governo morrer de inanição”.

A boataria em torno da iminente renúncia de Bolsonaro tomou conta das redes sociais e dos meios de comunicação.

Nas redes sociais e nos jornais, o texto foi comparado à renúncia do presidente Jânio Quadros, que em agosto de 1961 abdicou do cargo, apenas sete meses depois de tomar posse, denunciando que alegadas “forças ocultas” o impediam de governar. A boataria em torno da iminente renúncia de Bolsonaro tomou conta das redes sociais e dos meios de comunicação.

Na sexta-feira, descobriu-se que o autor do texto partilhado por Bolsonaro chama-se Paulo Portinho, é filiado ao Partido Novo e trabalha na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e disse-se aborrecido com a repercussão obtida pelo texto. “Era uma coisa para as pessoas que participam da minha rede pessoal, só”, disse.

No sábado, as hostes de bolsonaristas no mundo digital começaram a convocar a manifestação de dia 26, popularizando uma nova hashtag. Bolsonaro, então, postou: “Tomei conhecimento e agradeço imensamente a todos pela hashtag #BolsonaroNossoPresidente, que chegou a nível mundial no Twitter. Retribuo e ressalto que somente com o apoio de todos vocês poderemos mudar de vez o futuro do nosso Brasil!”

No domingo, de humor mudado, Bolsonaro postou o vídeo em que Steve Kunda, um pastor congolês que vive no Brasil, afirma que “na história da bíblia, houve políticos que foram estabelecidos por Deus. Um exemplo quando falam do imperador da pérsia Ciro. Antes do seu nascimento, Deus fala através de Isaías: ‘Eu escolho meu servo Ciro’. E senhor Jair Bolsonaro é o Ciro do Brasil. Você querendo ou não”, disse o pastor. Eis então de volta o Bolsonaro messiânico, o “mito”, o “escolhido”.

Nova política”

Uma das muitas versões de cartaz convocando a manifestação de apoio a Bolsonaro.
Uma das muitas versões de cartaz convocando a manifestação de apoio a Bolsonaro.

A manifestação convocada para o domingo 26 tem um claro objetivo de fortalecimento da figura do presidente como um bonaparte, em detrimento das instituições que ele considera estarem a servir de obstáculo para desenvolver a sua política.

Em primeiro lugar, o Congresso Nacional, com o qual Bolsonaro quer ter uma relação imperial, sem se dar ao trabalho de montar uma base maioritária para o seu governo. Tendo em conta que se trata do Congresso mais conservador de sempre, conseguir essa base não parece tarefa difícil. Mas Bolsonaro inventou aquilo que chama a “nova política”, que afirma rejeitar o “toma-lá-dá-cá” com os deputados, isto é, a troca de favores em troca de apoio. Na verdade, o governo, ao contrário do que afirma, já fez larga distribuição de verbas aos deputados em troca do apoio à contrarreforma da Previdência. O que acontece é que as lideranças do governo e do partido de Bolsonaro têm-se demonstrado incapazes de fazer articulação política, e que os partidos do chamado “centrão”, que podem dar ou tirar essa maioria ao presidente, querem ter voz na orientação do governo (e cargos, também).

Nos próximos dias, termina o prazo de uma série de medidas provisórias decretadas pelo governo que, se não forem aprovadas no parlamento, são automaticamente revogadas. A primeira é a que definiu a estrutura do governo, reduzindo o número de ministérios de 29 para 22. A ocasião fornece uma oportunidade de ouro para os partidos do “centrão” fazerem valer o seu poder de pressão. Mas uma grande manifestação a favor de Bolsonaro e contra o “centrão” causaria, se de facto acontecesse, constrangimentos a esses partidos.

Aposta arriscada

Para não se desmoralizarem, Bolsonaristas precisam superar manifestações como esta.
Para não se desmoralizarem, Bolsonaristas precisam superar manifestações como esta, no Rio de Janeiro, dia 15 de maio.

A decisão de Bolsonaro de radicalizar a situação e de responder da mesma moeda às grandiosas manifestações de 15 de maio contra os cortes na educação, que mobilizaram mais de um milhão de pessoas em 220 cidades do Brasil, envolve, porém, enormes riscos para o presidente. Se forem menores do que aquelas, o presidente fica desmoralizado. Se forem maiores, reforçam-no mas podem acentuar as divergências entre as diversas alas que compõem o governo.

Além disso, já começou a ser convocada a segunda jornada de professores e alunos contra os cortes na Educação, que se realiza no dia 30 de maio, e que tem condições de superar a anterior. Essa jornada também pode ser um trampolim para o sucesso da greve geral convocada para 14 de junho.

Desta disputa pela hegemonia das ruas, que se trava nos próximos dias, dependerá muito do futuro mais próximo do Brasil, do governo e de Bolsonaro.

A manifestação de dia 26 significa, por outro lado, uma espécie de fuga em frente para a família do presidente, num momento em que o Ministério Público do Rio de Janeiro foi autorizado a quebrar o sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro e de cerca de outras 90 pessoas. A medida é consequência das suspeitas de que, quando deputado estadual, Flávio exigia a devolução de parte do salário dos funcionários do seu gabinete, entre eles o famoso (e desaparecido) Fabrício Queiroz, uma prática popularmente conhecida como “rachadinha”. Essa prática, apesar de ilegal é muito comum entre o chamado “baixo clero” do Congresso (os deputados menos importantes), do qual os Bolsonaro faziam parte.

Mas a expetativa é que a investigação vá além e ponha em evidência as ligações da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro, envolvidas no assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco e do seu motorista Anderson. Uma grande manifestação no domingo iria também pôr constrangimentos ao prosseguimento desta investigação.

A aposta está feita. O Brasil tem a palavra.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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