101 dias de matança em Gaza: Netanyahu desafia Tribunal Internacional de Justiça

15 de janeiro 2024 - 18:39

As 65.000 toneladas de bombas lançadas por Israel sobre Gaza fizeram mais de 24 mil mortos e 60 mil feridos desde 7 de outubro. O primeiro-ministro israelita jura que “ninguém” vai parar as suas forças armadas até à “vitória total”.

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Campo de refugiados de Al Bureij. 15 de janeiro de 2024. Foto de MOHAMMED SABER/EPA/Lusa.
Campo de refugiados de Al Bureij. 15 de janeiro de 2024. Foto de MOHAMMED SABER/EPA/Lusa.

No discurso televisivo que assinalou os cem dias da ofensiva israelita em Gaza, Benjamin Netanyahu desafiou o Tribunal Internacional de Justiça, declarando que “ninguém nos vai parar, nem Haia, nem o eixo do mal, nem ninguém” até à “vitória total”.

Afirmações proferidas no fim de semana a seguir a esta instituição começar a analisar o caso em que a África do Sul acusa o Estado sionista de genocídio. Este julgamento é, em larga medida, simbólico e o seu resultado, que poderá demorar anos, não alterará o massacre no terreno. Ainda assim, o TIJ pode decretar medidas provisórias que aprofundarão a condenação internacional de Israel que tem passado também pela Organização das Nações Unidas. Israel já deixou claro que não reconhecerá qualquer decisão e Netanyahu disse tratar-se de uma “investida hipócrita”.

E este “ninguém nos vai parar” parece também aplicar-se aos próprios Estados Unidos, que continuam a armar o país, e que têm matizado as suas declarações de apoio devido à pressão internacional e de parte da sua opinião pública. No domingo, o porta-voz da Casa Branca, John Kirby, afirmou que “chegou a hora” de Israel “baixar a intensidade” da intervenção para diminuir as vítimas civis, ao mesmo tempo que o primeiro-ministro israelita promete continuar a ofensiva.

Antes dele, no périplo por aquela região, o Secretário de Estado Antony Blinken tinha publicamente apelado ao mesmo na passada terça-feira. Insensíveis a estas declarações dos governantes norte-americanos, nas 24 horas anteriores Israel tinha morto mais 250 pessoas.

O Washington Post, no domingo, publicou uma notícia que ouviu seis altas patentes norte-americanas. Sob anonimato, disseram que Israel tem ignorado os pedidos dos EUA sobre esta matéria que se estendem há mais de um mês, dando a imagem de que o país “parece incapaz ou sem vontade de exercer influência significativa sobre como os militares israelitas conduzem a guerra”.

Do lado palestiniano, o primeiro-ministro Mohammad Shtayyeh insta o TIJ a ordenar urgentemente o fim dos ataques: “exigiremos que Israel assuma perante os tribunais internacionais os custos totais de tudo o que destruiu na Faixa de Gaza e que assuma toda a responsabilidade pelas vidas do nosso povo contra o qual cometeu crimes”, declarou à agência noticiosa palestiniana Wafa.

Passados cem dias, Israel terá lançado 65.000 toneladas de bombas que causaram a morte a cerca de 24 mil habitantes de Gaza e há ainda mais de 60 mil feridos em situação difícil, com os hospitais do território a serem alvos de ataques e o cerco sionista a impedir a chegada de medicamentos, alimentos e outros bens essenciais, assim como o abastecimento de energia. A diretora executiva do Programa Alimentar Mundial, Cindy McCain, disse a este propósito que “as pessoas em Gaza correm o risco de morrer de fome a poucos quilómetros dos camiões cheios de alimentos” e que “cada hora perdida põe em risco inúmeras vidas”. Campos de refugiados, escolas e bairros residenciais têm sido igualmente visados ao longo deste tempo.

As forças armadas israelitas até asseguram entretanto que já passaram a outra fase dos ataques, mais “cirúrgica”, mas no terreno, no 101º dia, houve pelo menos mais 132 mortos e 252 feridos, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza. Isto apesar de “muitas das vítimas” estarem ainda “debaixo dos escombros e nas estradas e ambulâncias e as equipas de defesa civil não as conseguirem alcançar”.

A matança também tem acontecido na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. A ONU comunicou que o ano passado Israel matou 507 palestinianos nestas zonas, um recorde desde que o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários começou a registar as baixas em 2005. Para além disso, desde o passado dia 7 de outubro, as autoridades do Estado sionista destruíram 94 casas na Cisjordânia, expulsando 602 pessoas, 263 das quais crianças, sobretudo nos campos de refugiados de Jenin, Nur Shams e Tulkarem.

Ao mesmo tempo que se conheciam estes números, a atenção mediática dominante fixava-se mais na notícia de que dois palestinianos tinham ferido por atropelamento vários israelitas e morto uma idosa por esfaqueamento em Raanana.

Menos conhecidos foram os casos de palestinianos feridos. O Crescente Vermelho deu conta que as forças armadas israelitas atingiram um palestiniano de 28 anos no checkpoint militar de Qalandia, na Cisjordânia, e mais quatro pessoas em ataques em Nablus, uma com 15 anos atingida na cabeça, outra com 71 ferida no abdómen, outra de 27 atingida por estilhaços e uma criança de nove anos também atingida por estilhaços na cabeça.

Os bombardeamentos intensos continuam também em toda a faixa de Gaza. E por exemplo no centro do território, os campos de refugiados de Maghazi, Bureij e Nuseirat e a área habitacional de az-Zawayda na cidade de Deir el-Balah foram atingidos. Sete pessoas morreram esta segunda-feira num bombardeamento nas imediações do Hospital Nasser, em Khan Younis,

E mais um jornalista, Yazan al-Zwaidi do canal egípcio Al Gha, foi também morto “por fogo israelita” no domingo em Gaza, anunciou a estação televisiva.

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