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Há isolamentos e… isolamentos

Não é fácil fazer comparações e não me parece sequer ajustado. Mas a evocação de outras situações de isolamento, como a prisional, pode contribuir para melhor entendermos a capacidade de resistir e de viver de todos os homens e mulheres. Por Alfredo Caldeira.
Pormenor da Cadeia do Aljube.
Pormenor da Cadeia do Aljube.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Há isolamentos e… isolamentos

Não é fácil fazer comparações e não me parece sequer ajustado. Mas a evocação de outras situações de isolamento, como a prisional, pode contribuir para melhor entendermos a capacidade de resistir e de viver de todos os homens e mulheres.

Em 1965, estive cerca de 3 meses isolado no curro n.º 1 da cadeia do Aljube, uma cela com 2 metros por 1,5 metros e praticamente sem luz natural, onde um catre basculante (bailique), com uma enxerga apenas com alguma palha e duas mantas, normalmente sujas, quando estava para baixo, apenas deixava uns 15 a 20 centímetros até à parede oposta.

Era ali que os presos incomunicáveis esperavam pela ida aos interrogatórios na sede da PIDE. Durante esse período, tive apenas uma “visita” de meus pais, interrompida pelo pide de serviço por ter dito que tinha sido espancado. E uma visita médica do Dr. Arnaldo Sampaio, então diretor-geral de Saúde, que teve a coragem de me ir ver.

Aprendi que há muitas maneiras de vencer o isolamento. A melhor de todas elas foi, seguramente, começar a ouvir, semiadormecido, gritos de “Liberdade”, alguns dias após a minha prisão – eram as vozes de estudantes e familiares dos presos que organizaram uma breve manifestação frente à cadeia, violentamente reprimida pela polícia de choque. E o certo é que esses sons perduram ainda hoje na minha imaginação como prova segura de quanto vale ousar resistir.

É verdade que a organização prisional impunha outros sons, desta feita ameaçadores, como era o caso do telefone estridente pelo qual o guarda recebia ordens e, daí a pouco, cruzava o corredor para um lado e para outro até abrir o postigo de uma cela e ouvirmos dizer “prepare-se para ir à polícia”, ou seja, a ordem para aquele preso (quando seria a nossa vez?) seguir para os interrogatórios, e muito provavelmente para a tortura, na sede da PIDE. Os guardas eram ainda exímios no chocalhar de molhos de chaves com que percorriam o corredor das celas, sem entendermos quais seriam os passos seguintes ou se, muitas vezes, se tratava apenas de uma encenação para exacerbar a ansiedade e o medo.

Naquela cela, impedido de ter acesso a livros ou jornais, o único contacto real com o mundo exterior era a comida que chegava enviada pela família e, em dado momento, duas ou três cartas que conseguiram furar a censura. Havia também o tabaco e os fósforos – não me esqueço que uma amiga me enviou sei lá quantos maços de tabaco, todos com um vago rabisco a tinta, que eu sabia ser a assinatura dela.

E os fósforos tinham uma particularidade: recebia carteiras de fósforos que, nesse tempo, tinham uma extensa coleção de desenhos e explicações sobre touradas, chicuelinas, verónicas, molinetes e outras sortes do toureio – assunto que não me interessava minimamente, mas que permitia organizar jogos com as letras dos textos, estatísticas, e mesmo apostas, sobre a incidência de cada letra – o que ocupava horas daquele tempo parado e que ainda hoje, por vezes, começo a fazer instintivamente, por exemplo diante de um anúncio de rua ou no metropolitano.

Quase sem possibilidade de contacto com outras celas (o curro n.º 2 esteve sempre vazio e uma cela traseira, onde haviam de ser colocados vários camaradas meus, era separada por uma parede demasiado grossa para podermos comunicar), restava, naquela penumbra de silencio, a imaginação de livros, de filmes, de canções, de amigos e familiares, de locais, de outras línguas, captando avidamente os sons que chegavam do exterior, tudo milimetricamente organizado, para impedir a monotonia ou o desalento – nos sonhos, quantas vezes saíamos em liberdade!

Hoje, o isolamento a que estamos sujeitos é cortado pelo contacto tecnológico com o exterior, o acesso à leitura, ao audiovisual, à informação, por vezes voluntária ou involuntariamente desinformada, mas também, pela indignação de vermos os corifeus da direita afirmarem repetidamente e com despudor invencionices e mentiras e, sobretudo, como a crise deveria obrigar os trabalhadores a prescindirem dos seus direitos e, desde logo, dos seus vencimentos, como se a receita devesse ser sempre a mesma.

26 de abril de 2020

Alfredo Caldeira

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