Está aqui

Altice Portugal: Lucros a crescer com saídas em massa

A gestão da Altice em Portugal foi marcada desde o início pela vontade de esvaziar a antiga PT de trabalhadores e património, usando-a para financiar os lucros do grupo internacional.
Alexandre Fonseca, presidente da Altice. Foto de Paulo Novais/Lusa

O crescimento da Altice desde a sua fundação, em 2002, fez-se à custa da aquisição de operadoras de cabo com recurso ao endividamento. Primeiro em França, depois noutros países europeus. Após a compra da Meo, operadora da antiga Portugal Telecom, essa prática refletiu-se nas contas da empresa, ao registar resultados líquidos negativos nos primeiros dois anos, em que teve de suportar 630 milhões de euros em juros de empréstimos concedidos pela PT Portugal, controlada pela Altice. Em dezembro de 2016, o montante da dívida da Meo à PT Portugal era de 4.710 milhões de euros.

A gestão da Altice passou pelo afastamento de mais de metade dos trabalhadores, mas também pela substituição da rede de fornecedores por empresários próximos do seu universo. Uma reportagem do Público dá conta da preponderância nesta transformação de Hernâni Vaz Antunes, que intermediou a compra da PT à Oi e é próximo de Armando Pereira, um dos fundadores da empresa. Foram criadas empresas para substituir os fornecedores dos trabalhos de expansão da fibra ótica que mais tarde foram adquiridas pela Altice. Entre a nova vaga de fornecedores, destacam-se as ligações à família Vaz Antunes e atividades que vão desde os negócios imobiliários com ativos da antiga PT ao setor elétrico e da construção.

A venda de quatro prédios em Lisboa do fundo imobiliário da PT por cerca de 15 milhões de euros a empresas próximas de Vaz Antunes também foi objeto de notícia. O empresário terá adquirido a uma dessas empresas uma moradia de luxo por mais de um milhão de euros, segundo revelou o Correio da Manhã.

Em 2017, a empresa anunciou que pretendia transferir 155 trabalhadores para outras empresas do grupo, ao abrigo da lei de transmissão de estabelecimento. Os trabalhadores contestaram e organizaram uma greve geral na empresa, a primeira em mais de 10 anos, por entre um escândalo que se tornou nacional e obrigou à clarificação da lei com um projeto conjunto do Bloco, PS e PCP.

Semanas depois, a Altice anuncia que chegara a acordo com a espanhola Prisa para comprar a Media Capital, dona da TVI. Mas o negócio é travado no ano seguinte pela Autoridade da Concorrência, que entende que os compromissos apresentados pela empresa "não protegem os interesses dos consumidores, nem garantem a concorrência no mercado".

Outro braço de ferro da Altice com os reguladores, desta vez com a Anacom, ocorre a propósito do leilão das licenças para a rede 5G e culminou com a exigência da demissão do presidente da Anacom por parte de Alexandre Fonseca, o presidente executivo da Altice Portugal. A empresa tentou impugnar o regulamento do concurso em tribunal e não se conforma, à semelhança das restantes operadoras instaladas que com ela dominam o mercado português, com o que considera ser uma discriminação que favorece a entrada de novas empresas no mercado. Já em 2018 a Anacom tinha acusado a Altice de estar a impedir o crescimento da Televisão Digital Terrestre, já que a empresa comercializa o seu próprio serviço por cabo e satélite.

A gestão da Altice também foi alvo de críticas na sequência das falhas do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) durante os incêndios de 2017. No ano seguinte, a empresa assume a maioria do capital do SIRESP e mais tarde o Estado adquire a totalidade do capital aos acionistas privados, continuando a concessionar-lhes o serviço. A empresa nunca admitiu responsabilidades pelas falhas e o Estado também não a sancionou.

No primeiro semestre de 2020, a Altice anuncia a venda de metade da rede de fibra ótica que detém em Portugal ao Morgan Stanley por mais de 1.500 milhões de euros, depois de em 2018 ter também vendido ao mesmo banco de investimento - em parceria com um consórcio que tinha o antigo ministro do CDS Pires de Lima como investidor - parte das torres de telecomunicações.

Em junho de 2021, a Reuters deu notícia da intenção da empresa em vender a sua operação em Portugal por um preço a rondar os 6 mil milhões de euros. Entre os principais candidatos à compra estarão a francesa Orange, a espanhola MásMóvil e o fundo KKR, que chegou a deter a Nowo e Oni Telecom. Semanas antes, a Altice adquiriu 12.1% da British Telecom por 2.55 mil milhões de euros, tornando-se a principal acionista da maior operadora de telecomunicações britânica, à frente da Deutsche Telekom, que detém 12,06% da empresa.

Logo em seguida, surge o anúncio do despedimento coletivo de quase 300 trabalhadores da Altice Portugal, com os sindicatos a dizerem que isso viola o compromisso que empresa fez no momento da compra da PT Portugal. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores do Grupo Altice em Portugal, dos 22 mil trabalhadores que a empresa empregavam 60% saíram entretanto por via de pré-reformas, reformas antecipadas e dispensas do contrato de trabalho acordadas com os trabalhadores.

(...)

Neste dossier:

Dossier 333: Despedimentos na Altice

Despedimentos na Altice

Na quarta-feira 21 de julho, os trabalhadores da Altice estiveram em greve contra o despedimento coletivo. A luta é pela sua dignidade e pelos seus direitos, e, no atual momento, é também a defesa dos direitos laborais e o combate à precariedade. É ainda uma batalha por uma empresa estratégica para o país.

Zeinal Bava

Da privatização à destruição por Zeinal e Salgado

A partir de 2000, ano em que Zeinal Bava é nomeado CEO, até ao colapso da 2014, são distribuídos mais de 11,5 mil milhões de euros pelos acionistas, desvalorizando a empresa em quase 87%, uma descapitalização que culminou em 2013 no investimento de 900 milhões de euros na Rioforte, empresa do Grupo Espírito Santo, pouco tempo antes da queda de Ricardo Salgado, criando um buraco financeiro que viria a ditar o fim da PT. 

“Decisão do despedimento colectivo é inqualificável”

Em entrevista ao esquerda.net, Rui Moreira, membro da CT da MEO/Altice, diz que “da saúde financeira à existência de muito trabalho” nada justifica esta decisão. No dia em que trabalhadores recebiam carta de despedimento noticiava-se “que a Altice estava a integrar 1100 pessoas para uma outra empresa do grupo”, só que precários.

Altice, empresa que dá lucros não pode despedir - Faixa do Bloco de Esquerda

Altice: é preciso parar mais esta manobra

O Governo não pode fingir que não vê o que se passa. Este despedimento não pode ser autorizado e tem de ser travado. É essa a exigência de um país que se respeite e que respeita quem trabalha. Por José Soeiro

"Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social" . Foto CGTP

O que a Altice vai liderando

A Altice é protagonista de várias lideranças. No passado mês de março, anunciou a liderança no serviço de televisão por subscrição. No final do mês passado anunciou o primeiro despedimento coletivo na história da "PT". Artigo de Manuel Carvalho da Silva, publicado no “Jornal de Notícias”.

Altice - Foto CGTP

Subcontratar para precarizar, não foi a Altice que inventou

O processo em curso na Altice revela uma estratégia que tem sido sistematicamente seguida nas últimas décadas, em particular nas grandes empresas: substituição de trabalho com direitos por trabalho precário e com baixos salários, com recurso ao falso outsourcing.

Alexandre Fonseca, presidente da Altice

Altice Portugal: Lucros a crescer com saídas em massa

A gestão da Altice em Portugal foi marcada desde o início pela vontade de esvaziar a antiga PT de trabalhadores e património, usando-a para financiar os lucros do grupo internacional. 

Patrick Drahi, o líder da Altice. Foto de Ecole polytechnique/Flickr.

Do “método Altice” ao despedimento coletivo

A multinacional entrou no país dizendo que não ia fazer nenhum despedimento coletivo, que iria resolver os problemas da PT Telecom cortando em contratos com fornecedores e apertando o cinto aos trabalhadores. Agora, depois de desmembrar mais a empresa, vai despedir 246 e culpa tudo e todos menos a si própria.

Altice/PT - Foto da CGTP

Os 29 governantes que passaram pela PT/Altice

A intensidade e perenidade das ligações estabelecidas entre a administração da PT e ex-governantes revelam, para além de um padrão na escolha dos corpos dirigentes, um dos mais expressivos casos de portas-giratórias entre o poder político e o poder económico.