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Da privatização à destruição por Zeinal e Salgado

A partir de 2000, ano em que Zeinal Bava é nomeado CEO, até ao colapso da 2014, são distribuídos mais de 11,5 mil milhões de euros pelos acionistas, desvalorizando a empresa em quase 87%, uma descapitalização que culminou em 2013 no investimento de 900 milhões de euros na Rioforte, empresa do Grupo Espírito Santo, pouco tempo antes da queda de Ricardo Salgado, criando um buraco financeiro que viria a ditar o fim da PT.
Zeinal Bava
Zeinal Bava. Foto de Pedro Nunes/Lusa

É da natureza das comédias serem verdadeiras enquanto tragédias. E nesta tragédia não faltam bobos, charlatães ou vilões. Passos Coelho, Vítor Gaspar, Ricardo Salgado, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, Nuno Vasconcellos ou até Joe Berardo, todos tiveram o seu papel na destruição do maior cofre de capital que o país alguma vez produziu, a Portugal Telecom (PT).

O ano de 1996, com o primeiro governo de António Guterres, marca o início do longo processo de privatização da empresa que se prolongou até à decisão de Vítor Gaspar e Passos Coelho, em 2013, de prescindir da golden share que garantia ao Estado o poder de intervenção em defesa do interesse público, em perfeito contraciclo com todos os restantes países europeus que ainda hoje mantêm golden shares em empresas estratégicas.

Neste período de dezoito anos a empresa foi a galinha dos ovos de ouro dos acionistas, nomeadamente o BES. A partir de 2000, ano em que Zeinal Bava é nomeado CEO, até ao colapso da 2014, são distribuídos mais de 11,5 mil milhões de euros pelos acionistas, desvalorizando a empresa em quase 87%, uma descapitalização que culminou em 2013 no investimento de 900 milhões de euros na Rioforte, empresa do Grupo Espírito Santo, pouco tempo antes da queda de Ricardo Salgado, criando um buraco financeiro que viria a ditar o fim da PT. 

Da OPA ao Brasil

O livro “O Último Banqueiro”, de Maria João Babo e Maria João Gago, conta como os líderes do BES e da PT, antigos colegas de faculdade, almoçavam juntos algumas vezes por ano para decidir negócios como por exemplo a compra de 10% da BES Saúde pela PT, ou a contratação de Rodrigo Costa e Zeinal Bava. Nas palavras de Murteira Nabo, Salgado era uma espécie de “acionista-de-referência-conselheiro”.

No auge das suas capacidades, a PT era a maior empresa portuguesa com presença e participações em empresas de telecomunicações de vários países, nomeadamente a Vivo, através da qual viria a dominar o mercado brasileiro graças ao lançamento do primeiro cartão pré-pago para telemóveis, um produto pioneiro nos anos 90 desenvolvido pelo centro tecnológico de Aveiro em parceria com a PT.  Seria através do mercado brasileiro que Zeinal Bava, e Ricardo Salgado, pretendiam transformar a PT no maior operador do mercado lusófono.

Sendo a PT o grande investimento estratégico dos Espírito Santo, não foi surpresa que o BES tenha assumido a oposição à OPA da Sonae em 2006. Salgado opunha-se ao preço oferecido por Belmiro de Azevedo e à intenção anunciada pelo dono da Sonae de vender a operação no Brasil, que a PT detinha sob a marca Vivo, com 50% do capital. Nessa altura o BES detinha 8,36% da PT, cujo maior acionista era a espanhola Telefonica, com 9,96% do capital, e favorável à OPA de Belmiro.

Nos 13 meses que durou o processo desde o anúncio da OPA até à decisão dos acionistas que na prática chumbaram, impedindo a “desblindagem dos estatutos”, a estrutura acionista da PT mudou, favorecendo as posições do BES e aliados. Salgado escolheu Henrique Granadeiro para liderar a empresa e combater a oferta de Belmiro.

Com o apoio do BES Investimento, Granadeiro prometeu aos acionistas dividendos maiores do que a Sonae oferecia. Por seu lado, Salgado reforçou a posição do BES no capital da PT e facilitou a entrada ou o reforço de novos acionistas contra a OPA, como Joe Berardo, a Olivedesportos e a Ongoing.

O livro “Jogos de Poder”, de Paulo Pena, conta como a Ongoing era a “sede alternativa para os que se opunham à OPA, e não podiam ser vistos na PT”. Liderada por Nuno Vasconcellos e Rafael Mora, nomeado a semana passada administrador executivo da Oi, ambos tornaram-se administradores da PT após o fracasso da OPA.

Com as torneiras do crédito abertas no BES - mas também no BCP, onde Rafael Mora foi um dos principais conselheiros de Paulo Teixeira Pinto -, a Ongoing aproveita os dividendos para reforçar a posição na PT, e compra mais ações com recurso ao crédito, oferecendo como garantia dos empréstimos as ações adquiridas. E em poucos anos passa a deter participações acionistas importantes quer no BES quer no BCP, ao mesmo tempo que gere fundos de investimento sedeados no Luxemburgo com dinheiro vindo do BES e da PT.

A participação da Ongoing foi depois transferida para a RS Holdings, mantendo-se nas mãos da família Rocha dos Santos, chegando a valer 10,05% da PT, sensivelmente a mesma fatia detida pelo BES à altura.

A aplicação de boa parte da tesouraria e fundos da PT em empresas ligadas ao BES e à Ongoing foi uma prática corrente das sucessivas administrações da ultima década, aumentando os laços de dependência entre a empresa e o grupo financeiro. Com a aplicação de 900 milhões em dívida da Rioforte, que faliu no mesmo ano, esses laços acabaram por sufocar a PT na altura em que negociava a fusão com a Oi, comprometendo toda a operação de transformar a nova empresa num grande operador do mercado lusófono.

As consequências do buraco provocado pela Rioforte foram imediatas, com o ministro das Comunicações do Brasil a declarar publicamente que “deram um desfalque na empresa. Fizeram um empréstimo pouco antes da empresa quebrar”.

Em 2010, a PT decide vender a sua participação de 50% na Vivo e, para se manter no mercado brasileiro, investe na Oi, uma empresa profundamente descapitalizada e com atraso tecnológico, com quem planeia uma fusão a partir de 2013. Em maio de 2014, as duas empresa anunciam a fusão com a PT a subscrever o aumento de capital da Oi através da contribuição de ativos da PT, assumindo 39,7% da Oi. No entanto, o incumprimento, em julho de 2014, do reembolso da dívida emitida pela Rioforte, obrigou a PT a aceitar um novo contrato com a Oi, onde esta assumia uma participação de apenas 27,48%. Em maio de 2015, a PT passa a ser denominada por PHAROL, SGPS. A PT está oficialmente extinta.

Os 50 milhões de euros entregues a Zeinal Bava e Henrique Granadeiro por Ricardo Salgado

Entre 2007 e 2011, o CEO da PT recebeu 25,2 milhões de euros da Espírito Santo Enterprises, o famoso saco azul do Grupo Espírito Santo que alimentou uma rede de influência de Ricardo Salgado, incluindo o agora ex-chairman da TAP, Miguel Frasquilho.

O facto não é disputado por Zeinal Bava, que apresentou justificações sucessivas e contraditórias para as transferências. Em 2018, afirmava que as transferências se destinavam a “financiar a aquisição de ações da Portugal Telecom por um grupo de altos quadros da empresa” quando a empresa fosse totalmente privada. Já em 2019, no Tribunal Central de Instrução Criminal, Bava afirmava que aqueles fundos serviriam para financiar o então presidente executivo para ser, no máximo, um acionista da PT com uma “participação material”, sendo que o GES, além de acionista de referência da operadora telefónica, seria o financiador da operação suscitada pelo próprio Bava junto de Ricardo Salgado. “Queria ser capitalista”, afirmou.

O despacho de acusação do Ministério Público, de 2017, apresenta e-mails internos que demonstram outra história.

Com a venda da participação na Vivo à espanhola Telefónica, a PT recebeu 7,5 mil milhões de euros que Ricardo Salgado terá decidido canalizar para o BES e para o GES, acordando em setembro com os dois gestores que esse montante não só seria depositado no BES como serviria para subscrever dívida do Grupo Espírito Santo.

Amílcar Morais Pires, o braço-direito de Ricardo Salgado que Henrique Granadeiro descrevia ao telefone como “um mastim, danado para o trabalho”, ficou encarregue dos contactos com Zeinal Bava. Ainda não tinha chegado a primeira tranche dos milhões pela venda da Vivo e já Morais Pires lhe enviava emails: “Zeinal, disseram-me que os fundos entram segunda-feira… Quando é que quer negociar as taxas?”

Zeinal Bava convoca então o diretor de Finanças Corporativas da PT SGPS, Carlos Cruz, opositor da operação de 2007 onde a PT aplicou fundos de tesouraria em títulos do BES (à semelhança do que viria a acontecer repetidamente nos anos seguintes), e pede-lhe para aplicar 250 milhões de euros em títulos da Espírito Santo International dizendo-lhe que estaria a satisfazer ordens de Ricardo Salgado.

A posição do diretor de Finanças da PT era motivo de constantes preocupações de Morais Pires que, quando se apercebeu da saída de 400 milhões de euros investidos pela PT SGPS no BES, enviou um email a Bava que, por sua vez, se prontificou a averiguar o que estava a acontecer, mas a resposta não sossegou o número dois do BES que, no dia seguinte, voltou a enviar um email para Bava: “Zeinal, a sua direção financeira continua a tirar os fundos do BES… é melhor ver o que se está a passar.”

De setembro de 2010 a abril de 2014, o grupo PT fez sucessivos investimentos, e em montantes cada vez mais avultados, em papel comercial da ESI e da Rioforte (outra empresa do GES). Em maio de 2014, esses investimentos atingiram o montante de 897 milhões de euros, 98,32% dos investimentos da operadora.

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Neste dossier:

Dossier 333: Despedimentos na Altice

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Zeinal Bava

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