Rioforte: a história do "desfalque" que afundou a PT

A aplicação de cerca de 900 milhões de euros em papel comercial da empresa do Grupo Espírito Santo ditou a saída de Granadeiro e Zeinal e a redução da fatia da PT na brasileira Oi.

19 de outubro 2014 - 19:25
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"Deram um desfalque na empresa. Fizeram um empréstimo pouco antes da empresa quebrar", afirmou esta semana o ministro das Comunicações brasileiro. Para Paulo Bernardo, o "desfalque" da operação financeira que aplicou quase toda a tesouraria da PT numa empresa de um grupo económico em dificuldades terá tido impacto no leilão da quarta geração móvel no Brasil. "Não podemos ignorar e talvez isso teve como consequência a não participação da Oi no leilão, o que acho negativo para a empresa", disse o ministro brasileiro, citado pelo Diário Económico.

A responsabilidade por esta machadada nas contas da empresa ainda é nebulosa. O presidente da empresa, Henrique Granadeiro, demitiu-se da PT e os brasileiros da Oi apontaram a porta de saída a Zeinal Bava, embora este tenha sempre dito que não estaria a par do negócio para ajudar os Espírito Santo, acionistas de referência da PT. A posição oficial da Portugal Telecom é que nem o Conselho de Administração nem a Comissão Executiva da empresa terão aprovado ou sequer discutido aquele investimento.

O semanário Expresso revelou emails enviados por Ricardo Salgado a acionistas da Oi, envolvendo-os na decisão da compra do papel comercial da Rioforte. Para o líder do antigo BES, a aplicação da PT na Rioforte seria uma contrapartida para o GES "equivalente ao benefício das holdings privadas brasileiras no aumento de capital”. Os emails de Salgado sugerem um acordo privado entre o GES e os acionistas brasileiros, que viram as suas dívidas junto do banco estatal BNDES desaparecerem através do aumento de capital da empresa.

Mas os destinatários do email de Ricardo Salgado desmentem que alguma vez tivessem tido conhecimento da aplicação, sugerindo que o email terá sido "plantado" para os incriminar na operação desastrosa que gelou a relação entre a PT e a Oi. Em consequência da perda dos 900 milhões, foi assinado novo acordo que reduz a participação da PT na futura empresa CorpCo de 37% para 25,6%, podendo recuperá-los nos próximos seis anos no cenário improvável da empresa conseguir absorver o impacto negativo da operação.   
 
A história dos investimentos financeiros da PT em empresas que são suas acionistas não é nova. Para além do dinheiro aplicado em empresas do universo Espírito Santo ao longo dos anos, também a Ongoing - empresa que entrou pela mão do BES no capital da PT na altura da falhada OPA da Sonae - beneficiou do investimento de 75 milhões de euros por parte do Fundo de Pensões da PT em 2009.

O negócio teve a mão do administrador Fernando Soares Carneiro, que foi convidado a demitir-se por Henrique Granadeiro, após terem aparecido atas da PT publicadas no Diário Económico, propriedade da Ongoing.  Soares Carneiro viria a sair meses depois, quando foi apanhado em escutas telefónicas com Armando Vara que o envolviam na tentativa de controlo da TVI e da Cofina, depois de ter garantido que o dinheiro investido pela PT não tinha servido para a Ongoing entrar no capital da TVI.

Em abril de 2010, Fernando Soares Carneiro disse aos deputados que tinha recebido a garantia do presidente da Comissão de Auditoria da empresa - João Mello Franco, que acaba de suceder a Granadeiro à frente da PT SGPS - de que nada o ligava a esse negócio. Depois de sair da PT, acabou por ser contratado pela Ongoing para colaborar no lançamento de uma empresa no Brasil. "Essa colaboração não teve qualquer conotação (ou incompatibilidade) com as minhas anteriores funções na Portugal Telecom”, afirmou na altura o ex-administrador da PT numa nota enviada à agência Lusa.

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