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Subcontratar para precarizar, não foi a Altice que inventou

O processo em curso na Altice revela uma estratégia que tem sido sistematicamente seguida nas últimas décadas, em particular nas grandes empresas: substituição de trabalho com direitos por trabalho precário e com baixos salários, com recurso ao falso outsourcing.
Altice - Foto CGTP
Altice - Foto CGTP

Ao mesmo tempo que avança com o despedimento coletivo de mais de duzentos trabalhadores e trabalhadoras, a administração da Altice recorre à subcontratação para assegurar essas mesmas funções. O que até aqui era realizado no âmbito da empresa, passa para a prestação de um suposto serviço, assegurada por uma empresa supostamente externa. Não há verdadeira extinção de postos trabalho, mas uma manobra de evidente fraude à lei, que conta com a passividade das autoridades e do Governo. Algo de novo? Longe disso. O processo em curso na Altice revela uma estratégia que tem sido sistematicamente seguida nas últimas décadas, em particular nas grandes empresas: substituição de trabalho com direitos por trabalho precário e com baixos salários, com recurso ao falso outsourcing.

O grupo Altice contrata precários enquanto despede efetivos

o grupo Altice contrata precários enquanto despede efetivos. As funções mantêm-se, mas são agora asseguradas por trabalhadores com contratos a prazo, sem acesso ao acordo de empresa ou a instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho

Com o despedimento coletivo que a Altice pretende consumar, na sequência de uma redução drástica de trabalhadores ao longo dos últimos meses, a multinacional francesa "externaliza" mais uma parte da sua atividade para uma outra empresa do grupo, a Intelcia. Ou seja, o grupo Altice contrata precários enquanto despede efetivos. As funções mantêm-se, mas são agora asseguradas por trabalhadores com contratos a prazo, sem acesso ao acordo de empresa ou a instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho. Numa cruel evidência deste esquema de falso outsourcing, foram os trabalhadores que a Altice pretende despedir que deram formação aos precários que vão realizar as suas funções, agora através da Intelcia.

Sendo exemplar, a operação em curso na Altice é apenas mais um episódio neste recurso crescente ao falso outsourcing como estratégia de precarização.

O caso da redução de pessoal na banca

É também essa a situação que se vive, neste preciso momento, nos processos de redução de pessoal na banca. No Santander, recorrendo à pressão e ao assédio, a administração está aplicar um plano para a redução de mais de 1.400 trabalhadores, maioritariamente com vários anos de experiência de trabalho nos balcões. Conforme é denunciado pela Comissão de Trabalhadores, estão simultaneamente a ser contratos trabalhadores por outra empresa do grupo, com vínculos precários e com salário de €700. A estratégia passa por abrir "novos" balcões sob nome 'Santander - Intermediário de Crédito Vinculado', formalmente geridos por uma prestadora de serviços.

Também no BCP, que pretende mandar embora cerca de um milhar de funcionários, a respetiva Comissão de Trabalhadores denuncia que se trata da substituição por precários através da externalização.

Milhares de precários despedidos na primeira fase da pandemia

A pandemia revelou a escala e os efeitos da generalização da subcontratação, com milhares de precários atirados para o desemprego logo na primeira fase da crise sanitária. Em setores de atividade com grande intensidade de mão de obra, das indústrias aos call centers, a externalização funcionou como uma arma de desresponsabilização das grandes empresas. Em multinacionais como a IKEA, a Faurecia ou a Delphi, ou no caso emblemático da Galp, verificaram-se, logo nas primeiras semanas da pandemia, despedimentos de centenas de trabalhadores em regime de outsourcing, que cumpriam funções essenciais para a atividade destas empresas e a quem a intermediação retirou direitos e proteção.

Gueto laboral promovido pelo Estado

Também o Estado tem alargado o recurso à externalização em várias áreas, que não foi, no essencial, corrigido no recente programa de regularização de vínculos precários na Administração Pública. Em funções essenciais como as limpezas ou a vigilância, imprescindíveis e permanentes em todos os organismos públicos, a entrega a empresas privadas criou mesmo um gueto laboral promovido pelo Estado. Mesmo em áreas tão essenciais como os serviços hospitalares, o Estado insiste no recurso à intermediação e coloca em causa direitos laborais. Ou ainda, por exemplo, na área da cultura, já fortemente marcada pela precariedade, um relatório recente apresentado pelo Bloco denuncia o verdadeiro polvo falso outsourcing nas instituições públicas.

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Neste dossier:

Dossier 333: Despedimentos na Altice

Despedimentos na Altice

Na quarta-feira 21 de julho, os trabalhadores da Altice estiveram em greve contra o despedimento coletivo. A luta é pela sua dignidade e pelos seus direitos, e, no atual momento, é também a defesa dos direitos laborais e o combate à precariedade. É ainda uma batalha por uma empresa estratégica para o país.

Zeinal Bava

Da privatização à destruição por Zeinal e Salgado

A partir de 2000, ano em que Zeinal Bava é nomeado CEO, até ao colapso da 2014, são distribuídos mais de 11,5 mil milhões de euros pelos acionistas, desvalorizando a empresa em quase 87%, uma descapitalização que culminou em 2013 no investimento de 900 milhões de euros na Rioforte, empresa do Grupo Espírito Santo, pouco tempo antes da queda de Ricardo Salgado, criando um buraco financeiro que viria a ditar o fim da PT. 

“Decisão do despedimento colectivo é inqualificável”

Em entrevista ao esquerda.net, Rui Moreira, membro da CT da MEO/Altice, diz que “da saúde financeira à existência de muito trabalho” nada justifica esta decisão. No dia em que trabalhadores recebiam carta de despedimento noticiava-se “que a Altice estava a integrar 1100 pessoas para uma outra empresa do grupo”, só que precários.

Altice, empresa que dá lucros não pode despedir - Faixa do Bloco de Esquerda

Altice: é preciso parar mais esta manobra

O Governo não pode fingir que não vê o que se passa. Este despedimento não pode ser autorizado e tem de ser travado. É essa a exigência de um país que se respeite e que respeita quem trabalha. Por José Soeiro

"Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social" . Foto CGTP

O que a Altice vai liderando

A Altice é protagonista de várias lideranças. No passado mês de março, anunciou a liderança no serviço de televisão por subscrição. No final do mês passado anunciou o primeiro despedimento coletivo na história da "PT". Artigo de Manuel Carvalho da Silva, publicado no “Jornal de Notícias”.

Altice - Foto CGTP

Subcontratar para precarizar, não foi a Altice que inventou

O processo em curso na Altice revela uma estratégia que tem sido sistematicamente seguida nas últimas décadas, em particular nas grandes empresas: substituição de trabalho com direitos por trabalho precário e com baixos salários, com recurso ao falso outsourcing.

Alexandre Fonseca, presidente da Altice

Altice Portugal: Lucros a crescer com saídas em massa

A gestão da Altice em Portugal foi marcada desde o início pela vontade de esvaziar a antiga PT de trabalhadores e património, usando-a para financiar os lucros do grupo internacional. 

Patrick Drahi, o líder da Altice. Foto de Ecole polytechnique/Flickr.

Do “método Altice” ao despedimento coletivo

A multinacional entrou no país dizendo que não ia fazer nenhum despedimento coletivo, que iria resolver os problemas da PT Telecom cortando em contratos com fornecedores e apertando o cinto aos trabalhadores. Agora, depois de desmembrar mais a empresa, vai despedir 246 e culpa tudo e todos menos a si própria.

Altice/PT - Foto da CGTP

Os 29 governantes que passaram pela PT/Altice

A intensidade e perenidade das ligações estabelecidas entre a administração da PT e ex-governantes revelam, para além de um padrão na escolha dos corpos dirigentes, um dos mais expressivos casos de portas-giratórias entre o poder político e o poder económico.