Está aqui

Do “método Altice” ao despedimento coletivo

A multinacional entrou no país dizendo que não ia fazer nenhum despedimento coletivo, que iria resolver os problemas da PT Telecom cortando em contratos com fornecedores e apertando o cinto aos trabalhadores. Agora, depois de desmembrar mais a empresa, vai despedir 246 e culpa tudo e todos menos a si própria.
Patrick Drahi, o líder da Altice. Foto de Ecole polytechnique/Flickr.
Patrick Drahi, o líder da Altice. Foto de Ecole polytechnique/Flickr.

De que vale uma promessa?

Enquanto se descarta de trabalhadores, Patrick Drahi parece colecionar tanto nacionalidades como empresas. De origem marroquina, é simultaneamente francês, israelita e português. Nos últimos vinte anos, comprou mais de vinte empresas de telecomunicações e meios de comunicação social nestes e noutros países.

Em junho de 2015, a multinacional liderada pelo multimilionário que é a terceira pessoa mais rica de França comprou a histórica PT Telecom cuja privatização começara vinte anos antes. Quando o fez, a Altice comprometeu-se a não realizar despedimentos coletivos. Jurava na altura que não ia avançar com “medidas agressivas” na redução de trabalhadores. A promessa não incluia, claro, deixar de procurar emagrecer os quadros da empresa de várias outras maneiras. De qualquer forma, só durou seis anos. Foi agora quebrada com o despedimento coletivo de 246 trabalhadores. O primeiro da história da empresa, apesar de várias fases de desmembramento e dos desvios de trabalhadores para as subsidiárias.

O “método Altice”

Drahi “chegou” a Portugal com a compra da Cabovisão em 2011. Depois de em 2015 comprar a PT Telecom e em 2017 pretender comprar a TVI, tornou-se notícia. Os perfis dele traçados pela imprensa nacional mainstream não eram então lisonjeiros. O Expresso escrevia que “não gosta de pagar salários à grande massa de trabalhadores, mas paga principescamente aos seus homens de grande confiança.” A Visão que “é conhecido por tratar as pessoas com desprezo, pagar-lhes o menos possível e, nos negócios, cultivar a rapidez na tomada de decisão” e é “dono de uma fortuna construída a comprar barato e a vender caro”. E citava o próprio que afirmou quando comprou a Cablevision: “Não gosto de pagar salários. Pago o menos possível”.

A estrutura geral do negócio era igualmente posta em causa nestes artigos com o Expresso a dizer que “a opacidade do grupo Altice também tem merecido reparos. Foi construído através de engenhosas técnicas de alavancagem financeira (leverage buy-out), com aquisições através de dívida. Mecanismo que lhe permitiu comprar diversas empresas, e constituir um grupo em cascata, retirando-lhe transparência. As suas sedes fiscais estão em regimes fiscais favoráveis (e opacos) como Luxemburgo ou Amesterdão”.

A Visão também traçava a imagem de um crescimento “sempre alavancado em dívida” e explicava que “o grupo deste franco-israelita, agora também português, é como as famosas matrioscas russas: uma sociedade-mãe, que detém sociedades, que detêm outras sociedades”, uma “forma de controlar ativos sem ter de investir o montante necessário caso controlasse cada uma com mais de 50%”.

Apesar disso, ao mesmo tempo, havia quem louvasse o modelo de gestão que se propunha. O Público falava num "método Altice" feito de decisões céleres e estruturas leves e a empresa anunciava para a antiga PT Telecom um caminho de "sucesso": “redução dos custos operacionais”, através de redução unilateral de contratos com prestadores e concentração de fornecedores, corte de “extras” nos rendimentos dos trabalhadores.

A culpa não é do patrão

Este caminho implicava também redução de pessoal e recurso outsourcing. O que foi sendo feito até agora sem recurso ao despedimento coletivo. A última etapa deste processo tinha sido um programa de saídas “por mútuo acordo” que abrangeu 1.100 trabalhadores. Como não sairam tantos como era pretendido, em maio passado, pela voz de Alexandre Fonseca, começou-se a ameaçar com o despedimento coletivo.

O presidente da empresa, numa nota interna divulgada pelo Público, escrevia, veladamente mas pouco, que “todas as opções estão em aberto” mas indicava já abertamente que eram precisas “medidas adicionais de reorganização” que podiam ter de chegar a “medidas de caráter unilateral”.

A justificação eram os tempos de “tremenda pressão” e o “momento complexo” que “tem responsáveis claros que identificámos em tempo”. Culpava-se o regulador do setor das comunicações, a Anacom, que estaria a colocar o negócio num “caminho cada vez mais estreito e instável, que obriga a medidas ainda mais exigentes”. As maiores queixas eram apontadas contra a tarifa social da internet e as tentativas de limitar o período de fidelização para os contratos de telecomunicações.

As notícias davam conta por esta altura que a empresa-mãe tinha contratado um banco de investimento, o Lazard, para avaliar a venda da Altice Portugal.

A linguagem do despedimento

Em finais de junho a possibilidade passou a realidade. Também em comunicado interno, também com a assinatura de Alexandre Fonseca, citado igualmente pelo Público, o que era vago concretizava-se com o mesmo jogo de passa-culpas.

O responsável pela empresa dizia ser o “único meio”, que teria sido uma “decisão difícil, mas que se afigura como indispensável”. Prometia para as saídas “a possibilidade de, querendo, aceitarem condições de saída muito vantajosas quando comparadas às condições previstas na lei”. Não se explicava quais fossem. E acenava-se aos restantes com uma proposta de aumentos salariais para o próximo ano.

Os culpados continuavam a ser o “contexto muito adverso” e o “ambiente regulatório hostil” que atuou “sempre com a cobertura da tutela”. O governo era ainda culpado pelo atraso do 5G. A administração, essa, auto-elogiava-se enquanto despedia: teria sido “a estratégia e a gestão implementada nos últimos anos” a possibilitar evitar “uma reorganização de maior dimensão e profundidade”. Entenda-se: os trabalhadores deveriam estar gratos pelo despedimento não ser maior.

O sucesso, a produtividade e a revolução tecnológica

Dias depois, o despedimento coletivo é comunicado à Comissão de Trabalhadores da Altice e especificam-se ainda mais as razões que passam também por elementos mais pontuais como a desativação das cabines telefónicas nos Açores, pela eliminação de portarias em muitos edifícios, pela diminuição de vendas empresariais, por exemplo no Algarve, pela impossibilidade de reintegrar os 16 trabalhadores como um tribunal tinha obrigado a empresa a fazer.

Mas a grande justificação passavam a ser “motivos de natureza tecnológica e estrutural”. Ou seja, uma “revolução tecnológica” que “criou uma disrupção total das necessidades dos trabalhadores afetos aos serviços prestados aos clientes”, tendo passado a haver uma “muito menor intervenção humana”.

Para além disso, a empresa passa a falar num quadro de pessoas sobre-dimensionado (5.096 trabalhadores na Meo, em comparação com 1.807 na Nos e 1.397 na Vodafone, alega-se) e desajustado (com funções “redundantes e, nalguns casos, definitivamente obsoletas”), que resultariam numa produtividade muito inferior face aos concorrentes. A Meo, a peça principal da Altice Portugal, “apresentou um prejuízo médio anual no período 2010-2020 de aproximadamente 136 milhões de euros”. A mesma Meo que vendeu 49,99% da rede de fibra ótica à Morgan Stanley Infrastructure Partners em 2020 passando a ter de “suportar gastos operacionais relativos à remuneração devida à Fastfiber [sociedade que passou a deter a rede] pela utilização dessa rede de fibra ótica por parte da Meo” e também tem de pagar agora mensalmente pela utilização das torres móveis que foram vendidas em 2018.

Mas a versão dos trabalhadores com funções obsoletas e redundantes chocava com as notícias de contratação de precários para os seus lugares para a Intelcia. E a história das dificuldades enfrentadas pela Meo também não batia certo com os anúncios de lucros. O Expresso lembrava que, em sentido inverso destes números, Alexandre Fonseca mantinha até há pouco tempo, uma narrativa de sucesso sobre a Altice Portugal, apresentando como prova o aumento de receitas de 549,1 milhões de euros, 5,1%, no primeiro trimestre do ano.

Com o fantasma da venda a pairar sobre todo este processo, resta saber que legado ficará do "método Altice".

(...)

Neste dossier:

Dossier 333: Despedimentos na Altice

Despedimentos na Altice

Na quarta-feira 21 de julho, os trabalhadores da Altice estiveram em greve contra o despedimento coletivo. A luta é pela sua dignidade e pelos seus direitos, e, no atual momento, é também a defesa dos direitos laborais e o combate à precariedade. É ainda uma batalha por uma empresa estratégica para o país.

Zeinal Bava

Da privatização à destruição por Zeinal e Salgado

A partir de 2000, ano em que Zeinal Bava é nomeado CEO, até ao colapso da 2014, são distribuídos mais de 11,5 mil milhões de euros pelos acionistas, desvalorizando a empresa em quase 87%, uma descapitalização que culminou em 2013 no investimento de 900 milhões de euros na Rioforte, empresa do Grupo Espírito Santo, pouco tempo antes da queda de Ricardo Salgado, criando um buraco financeiro que viria a ditar o fim da PT. 

“Decisão do despedimento colectivo é inqualificável”

Em entrevista ao esquerda.net, Rui Moreira, membro da CT da MEO/Altice, diz que “da saúde financeira à existência de muito trabalho” nada justifica esta decisão. No dia em que trabalhadores recebiam carta de despedimento noticiava-se “que a Altice estava a integrar 1100 pessoas para uma outra empresa do grupo”, só que precários.

Altice, empresa que dá lucros não pode despedir - Faixa do Bloco de Esquerda

Altice: é preciso parar mais esta manobra

O Governo não pode fingir que não vê o que se passa. Este despedimento não pode ser autorizado e tem de ser travado. É essa a exigência de um país que se respeite e que respeita quem trabalha. Por José Soeiro

"Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social" . Foto CGTP

O que a Altice vai liderando

A Altice é protagonista de várias lideranças. No passado mês de março, anunciou a liderança no serviço de televisão por subscrição. No final do mês passado anunciou o primeiro despedimento coletivo na história da "PT". Artigo de Manuel Carvalho da Silva, publicado no “Jornal de Notícias”.

Altice - Foto CGTP

Subcontratar para precarizar, não foi a Altice que inventou

O processo em curso na Altice revela uma estratégia que tem sido sistematicamente seguida nas últimas décadas, em particular nas grandes empresas: substituição de trabalho com direitos por trabalho precário e com baixos salários, com recurso ao falso outsourcing.

Alexandre Fonseca, presidente da Altice

Altice Portugal: Lucros a crescer com saídas em massa

A gestão da Altice em Portugal foi marcada desde o início pela vontade de esvaziar a antiga PT de trabalhadores e património, usando-a para financiar os lucros do grupo internacional. 

Patrick Drahi, o líder da Altice. Foto de Ecole polytechnique/Flickr.

Do “método Altice” ao despedimento coletivo

A multinacional entrou no país dizendo que não ia fazer nenhum despedimento coletivo, que iria resolver os problemas da PT Telecom cortando em contratos com fornecedores e apertando o cinto aos trabalhadores. Agora, depois de desmembrar mais a empresa, vai despedir 246 e culpa tudo e todos menos a si própria.

Altice/PT - Foto da CGTP

Os 29 governantes que passaram pela PT/Altice

A intensidade e perenidade das ligações estabelecidas entre a administração da PT e ex-governantes revelam, para além de um padrão na escolha dos corpos dirigentes, um dos mais expressivos casos de portas-giratórias entre o poder político e o poder económico.