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O que a Altice vai liderando

A Altice é protagonista de várias lideranças. No passado mês de março, anunciou a liderança no serviço de televisão por subscrição. No final do mês passado anunciou o primeiro despedimento coletivo na história da "PT". Artigo de Manuel Carvalho da Silva, publicado no “Jornal de Notícias”.
"Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social" . Foto CGTP
"Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social" . Foto CGTP

No passado mês de março, a Altice anunciou, como resultados da sua atividade em 2020, a liderança no serviço de televisão por subscrição e o crescimento da receita para 2.121,2 milhões de euros.

Uma parte dos seus ganhos resultou de esforços acrescidos que as pessoas, a maioria das empresas e o Estado tiveram de fazer nas respostas aos duros impactos da pandemia. O setor a que pertence a Altice é um dos que beneficiaram com o novo contexto. O seu êxito tem pouco a ver com as altas competências de que os seus gestores se gabam.

A Altice é protagonista de várias outras lideranças. No final do mês passado anunciou o primeiro despedimento coletivo na história da "PT", invocando o "ambiente regulatório hostil, a falta de visão estratégica do país, o (...) atraso do 5G, bem como a má gestão deste dossier", como um dos argumentos-chave para despedir cerca de 300 trabalhadores, utilizados como carne para canhão no fogo cruzado da Altice com a ANACOM e com o Governo.

em agosto de 2017, a ACT tinha elaborado um relatório acusando a empresa de assédio moral estratégico

Na passada semana, o secretário de Estado da Segurança Social afirmou que a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) fez, nos últimos seis anos, 269 visitas inspetivas à empresa, das quais resultaram 101 contraordenações e coimas de mais de 422 mil euros. Foi um custo muito reduzido, pois, em agosto de 2017, a ACT tinha elaborado um relatório acusando a empresa de assédio moral estratégico. As contra-ordenações daí resultantes poderiam chegar a perto de cinco milhões de euros. A Altice está, sem dúvida, no pelotão da frente do assédio moral.

A Altice é herdeira da PT, empresa que, desde os anos noventa até ao início da segunda década deste século (com o processo de privatização pelo meio), esteve no centro de um lamaçal de compadrios e promiscuidades geradoras de uma fatura pesada para os portugueses, para muitas empresas, para a economia nacional e o desenvolvimento do país. Essa posição de vanguarda prossegue, com acrescento de novos caminhos de chantagem?

O país não pode condescender com despedimentos decididos por unilateralismo patronal

O país não pode condescender com despedimentos decididos por unilateralismo patronal, em processos que se escudam, desavergonhadamente, em desavenças com o regulador e em engenharias financeiras que dividem os prejuízos e os lucros para esta ou aquela empresa do grupo, consoante é mais conveniente.

Nos últimos tempos, as cessações "por mútuo acordo" atingiram um número tão considerável que a Altice já esgotou as quotas que permitem o acesso ao subsídio de desemprego nessas situações. O setor das telecomunicações é daqueles onde a aplicação de novas tecnologias melhor pode produzir efeitos complementares ao trabalho humano, promovendo o emprego e o crescimento da produtividade. Todavia, o caminho seguido tem sido o de reduzir o emprego com vínculo à empresa, substituir os trabalhadores mais velhos por jovens com salários baixos e sem direitos, externalizar atividades. Hoje não trabalham para a Altice menos trabalhadores que os que tinha a PT no seu início, mas os que têm vínculo direto à empresa são menos de um terço dos que existiam com esse vínculo, nessa altura.

Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social

Merecem solidariedade as lutas dos trabalhadores da Altice, designadamente a sua greve do próximo dia 21. Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social, que esvaziam os cofres da Segurança Social e dão origem a um ambiente laboral de insegurança e desconfiança à escala nacional.

Artigo de Manuel Carvalho da Silva, investigador e professor universitário, publicado em “Jornal de Notícias” a 17 de julho de 2021

(...)

Neste dossier:

Dossier 333: Despedimentos na Altice

Despedimentos na Altice

Na quarta-feira 21 de julho, os trabalhadores da Altice estiveram em greve contra o despedimento coletivo. A luta é pela sua dignidade e pelos seus direitos, e, no atual momento, é também a defesa dos direitos laborais e o combate à precariedade. É ainda uma batalha por uma empresa estratégica para o país.

Zeinal Bava

Da privatização à destruição por Zeinal e Salgado

A partir de 2000, ano em que Zeinal Bava é nomeado CEO, até ao colapso da 2014, são distribuídos mais de 11,5 mil milhões de euros pelos acionistas, desvalorizando a empresa em quase 87%, uma descapitalização que culminou em 2013 no investimento de 900 milhões de euros na Rioforte, empresa do Grupo Espírito Santo, pouco tempo antes da queda de Ricardo Salgado, criando um buraco financeiro que viria a ditar o fim da PT. 

“Decisão do despedimento colectivo é inqualificável”

Em entrevista ao esquerda.net, Rui Moreira, membro da CT da MEO/Altice, diz que “da saúde financeira à existência de muito trabalho” nada justifica esta decisão. No dia em que trabalhadores recebiam carta de despedimento noticiava-se “que a Altice estava a integrar 1100 pessoas para uma outra empresa do grupo”, só que precários.

Altice, empresa que dá lucros não pode despedir - Faixa do Bloco de Esquerda

Altice: é preciso parar mais esta manobra

O Governo não pode fingir que não vê o que se passa. Este despedimento não pode ser autorizado e tem de ser travado. É essa a exigência de um país que se respeite e que respeita quem trabalha. Por José Soeiro

"Há que travar estas práticas atentatórias do interesse nacional e das leis, impostas sem ética ou réstia de responsabilidade social" . Foto CGTP

O que a Altice vai liderando

A Altice é protagonista de várias lideranças. No passado mês de março, anunciou a liderança no serviço de televisão por subscrição. No final do mês passado anunciou o primeiro despedimento coletivo na história da "PT". Artigo de Manuel Carvalho da Silva, publicado no “Jornal de Notícias”.

Altice - Foto CGTP

Subcontratar para precarizar, não foi a Altice que inventou

O processo em curso na Altice revela uma estratégia que tem sido sistematicamente seguida nas últimas décadas, em particular nas grandes empresas: substituição de trabalho com direitos por trabalho precário e com baixos salários, com recurso ao falso outsourcing.

Alexandre Fonseca, presidente da Altice

Altice Portugal: Lucros a crescer com saídas em massa

A gestão da Altice em Portugal foi marcada desde o início pela vontade de esvaziar a antiga PT de trabalhadores e património, usando-a para financiar os lucros do grupo internacional. 

Patrick Drahi, o líder da Altice. Foto de Ecole polytechnique/Flickr.

Do “método Altice” ao despedimento coletivo

A multinacional entrou no país dizendo que não ia fazer nenhum despedimento coletivo, que iria resolver os problemas da PT Telecom cortando em contratos com fornecedores e apertando o cinto aos trabalhadores. Agora, depois de desmembrar mais a empresa, vai despedir 246 e culpa tudo e todos menos a si própria.

Altice/PT - Foto da CGTP

Os 29 governantes que passaram pela PT/Altice

A intensidade e perenidade das ligações estabelecidas entre a administração da PT e ex-governantes revelam, para além de um padrão na escolha dos corpos dirigentes, um dos mais expressivos casos de portas-giratórias entre o poder político e o poder económico.