As “zonas de matança”: como Israel mata civis e diz que são terroristas

02 de abril 2024 - 11:13

O exército sionista tem reivindicado a morte de 9.000 “terroristas” desde o início da sua mais recente ofensiva em Gaza. Ao jornal israelita Haaretz, oficiais e soldados dizem que nestes números entram afinal os civis que ultrapassem as linhas arbitrárias estabelecidas pelos militares.

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Hospital de Al-Shifa devastado depois da intervenção das forças militares sionistas. Foto de MOHAMED HAJJAR/EPA/Lusa.
Hospital de Al-Shifa devastado depois da intervenção das forças militares sionistas. Foto de MOHAMED HAJJAR/EPA/Lusa.

“Kill zones”, o que poderia ser traduzido por zonas de matança, é a expressão utilizada pelo jornal israelita Haaretz para descrever os territórios em que o exército sionista opera e que circunscreve em Gaza. Quem as ultrapassar é morto e contabilizado como “terrorista”.

É assim que o IDF chegou ao número que apresenta: 9.000 “terroristas” mortos desde o início da guerra em Gaza. Esta segunda-feira, aquele meio de comunicação social traz testemunhos de oficiais e soldados israelitas que esclarecem que “o único crime” destes civis é “terem ultrapassado a linha invisível” que o exército estabeleceu.

Luís Leiria
Luís Leiria

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“Na prática”, diz um oficial, “um terrorista é toda a pessoa que o IDF tenha sido morto em áreas nas quais a sua força opera”. Este testemunho não é único e inclui comandantes no ativo. Um oficial na reserva mas que já esteve no terreno acrescenta: “é espantoso ouvir os relatórios depois de cada operação sobre quantos terroristas foram mortos. Não é preciso ser um génio para perceber que não há centenas ou dezenas de homens armados a correr pelas ruas de Khan Younis ou Jabaliya, a lutar contra o IDF”. O mais habitual, quando são descobertos combatentes do Hamas, é serem “habitualmente um terrorista, talvez dois ou três, escondidos num edifício”. Assim, “ninguém pode determinar com certeza quem é um terrorista e quem foi atingido porque entrou numa zona de combate de uma força do IDF”.

As zonas de combate são, explica-se, as que ficam à volta de onde o exército se instale, não tendo nenhuma marcação clara e específica. “Em cada zona de combate os comandantes definem estas zonas de matança” diz o oficial na reserva. “Quando uma pessoa entra nela, sobretudo homens adultos, as ordens são de disparar para matar, mesmo se a pessoa estiver desarmada”.

Outro reservista que tinha estado no norte de Gaza diz que “o sentimento que tínhamos era que que não havia verdadeiramente regras”. Aos soldados é dito para matar quem se aproxime das forças de combate mas o termo, sublinha-se, é subjetivo.

Houve até já três reféns israelitas mortos depois de terem fugir aos captores e enrtado numa destas zonas no bairro de Shujaiyeh, na cidade de Gaza.

E de acordo com o Haaretz, o “dilema” de distinguir quem é ou não civil nestas circunstâncias é comum. Um outro soldado contou que os comandantes instruíram para “se identificarmos alguém na nossa área de operação que não seja parte das nossas forças, disseram-nos para atirar a matar”.

Num contexto de uma operação militar prolongada, “há mais de 300.000 civis lá, a maior parte concentrados em áreas que o IDF definiu como abrigos humanitários desde o princípio da guerra”. Mas“as pessoas têm de começar a sair; estão a tentar sobreviver e isto leva a incidentes muito graves”, afirma-se ainda.

O alto comandante das forças armadas admite, para além disso, que muitas pessoas permaneceram fora dos abrigos no norte de Gaza: “alguns simplesmente voltaram a casa ou não as abandonaram para as proteger de pilhagens”. Estas pessoas estão em grande risco, escreve-se, porque “se alguém os vê são habitualmente atingidos” quando estão em prédios perto da localização de soldados, diz o comandante.

Há ainda aqueles que, quando pensam que os soldados já saíram, vão para essas zonas para tentar encontrar alguma comida que tenha ficado. Há, diz este mesmo militar, pessoas que têm sido mortas por isso.