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Sem palavras

Um dia, a realidade tornou-se tão absolutamente esmagadora que deixei de encontrar as palavras certas para descrever a barbárie de Gaza.

Nos últimos meses, emudeci.

Quando começou o genocídio ao povo de Gaza, ainda escrevi, a meias com o Ricardo Cabral Fernandes, este artigo onde analisávamos como o governo de extrema-direita de Israel estava a usar a propaganda de guerra e a desinformação para justificar os crimes contra a população palestiniana.

Mas, um dia, a realidade tornou-se tão absolutamente esmagadora que deixei de encontrar as palavras certas para descrever a barbárie de Gaza.

A procissão de crimes de guerra cometidos pelas tropas sionistas aumentava diante dos olhos do mundo inteiro sem provocar uma reação à altura. O assassinato indiscriminado de civis, e principalmente de crianças, nos bombardeamentos, a destruição de todas as escolas do território, o assalto aos hospitais, os bombardeamentos sobre locais que o exército israelita anunciara serem seguros, a desumanização dos palestinianos, a transformação das cidades de Gaza num amontoado de escombros, nada deixando de pé, para que a reconstrução tenha um custo incalculável – tudo foi usado por Netanyahu e os seus cúmplices para atingir o objetivo de expulsar os mais de dois milhões de palestinianos de Gaza.

Uma nova nakba, uma nova catástrofe sobre o povo palestiniano.

É verdade que houve centenas de manifestações em todo o mundo onde se gritou por uma Palestina Livre e contra os massacres, pelo cessar-fogo.

Mas não foram o suficiente.

Desta vez era preciso muito mais. Era preciso que o povo nas ruas impusesse aos seus governos o repúdio à barbárie, a exigência do fim do massacre.

Mas foram poucos os governos que endureceram o tom com Netanyahu. Muito menos ainda os que cortaram relações comerciais e/ou romperam relações com Israel.

Mas os Estados Unidos mantiveram o seu apoio incondicional ao governo de Israel, mesmo quando as estatísticas mostravam a queda das intenções de voto em Biden. Os pedidos de Washington para que Israel cuidasse de evitar a morte de civis não passaram de cínicos lamentos para consumo interno. A prova disso é que a Casa Branca ainda recentemente aprovou a transferência para Israel de milhares de milhões de dólares em bombas e aviões de caça, ao mesmo tempo que publicamente dizia opor-se ao iminente ataque a Rafah.

Os governos da União Europeia, para além de uma ou outra frase perdida num discurso, fechou-se em copas e seguiu o trilho de Biden.

Desta forma, a carnificina prosseguiu. Prossegue até hoje.

As novas armas do genocídio

Quando pensávamos que já tínhamos visto todas as crueldades impensáveis e inomináveis, eis que Israel aperfeiçoa a eficácia da matança, usando armas letais, capazes de provocar mortes, não às centenas, mas aos milhares. Trata-se do corte da ajuda humanitária.

É a arma da fome.

É deixar os palestinianos de Gaza sem acesso às mínimas condições sanitárias que os protejam das epidemias.

É destruir os hospitais, matar os médicos, deixá-los sem as mínimas condições de trabalho.

Christopher Lockyear, da ONG Médicos Sem Fronteiras, compareceu ao Conselho de Segurança da ONU para dar um depoimento sobre o que ele, e outros médicos especializados em atender zonas de guerra, viram em Gaza.

O notável depoimento pode ser lido, na íntegra, aqui.

Christopher Lockyear fala de uma guerra travada “por Israel contra toda a população da Faixa de Gaza – uma guerra de punição coletiva, uma guerra sem regras, uma guerra a qualquer preço.”

E enfatiza: “Não restou nada que possa ser chamado de um sistema de saúde em Gaza. Os militares de Israel desmantelaram hospitais, um após o outro. O que restou é tão pouco, diante de tamanha carnificina, que é simplesmente absurdo.”

E exemplifica: a falta dos mais elementares materiais médicos obrigou cirurgiões “a efetuar amputações sem anestesia em crianças”.

Para o dirigente da MSF, “As leis e os princípios dos quais dependemos coletivamente para permitir a assistência humanitária estão agora corroídos ao ponto de perderem seu significado.” E questiona: “Como podemos oferecer ajuda que salva vidas num ambiente onde a diferença entre combatentes e civis não é levada em conta?”

“Como podemos manter qualquer tipo de resposta quando funcionários de saúde são alvejados, atacados e demonizados por atender os feridos?”

Volto a insistir: leiam a íntegra do depoimento.

Não é possível ficar indiferente

E pergunto: Por que o mundo não se levanta para deter de uma vez por todas esta carnificina?

Como é possível ficar indiferente diante do genocídio? Como se pode ainda dizer que “sim, mas o Hamas…” Esses que argumentam com as mortes de civis israelitas cometidas pelo Hamas, no 7 de outubro, primeiro 1400, depois 1200, agora 1139, das quais 700 civis. Hoje já está confirmado que algumas dessas vítimas foram mortas pelos próprios militares israelitas, nos ataques dos helicópteros Apache, os primeiros a chegar ao cenário, que disparavam indiscriminadamente sem poder distinguir se estavam a matar resistentes do Hamas ou reféns israelitas. Outras vítimas israelitas foram alvo das próprias tropas de Israel que retomaram os kibutz usando a artilharia dos tanques sem distinguir os resistentes do Hamas dos reféns. (Sobre o 7 de outubro, recomendo uma investigação da Al Jazeera, que pode ser vista aqui.)

Mesmo que não se queira entrar na discussão de quem é o opressor e quem é o oprimido (o que é totalmente evidente, mas contestado pelos sionistas) e sobre o direito dos oprimidos à resistência, devia pelo menos prevalecer um mínimo de empatia humana. O que o Hamas fez foi um ato de resistência. Contestável, sem dúvida, mas politicamente justificável.

Mas o que está a acontecer em Gaza, alegadamente em resposta aos “crimes do Hamas”, é um genocídio. As vítimas são mais de dois milhões de palestinianos encerrados num território de 365 quilómetros quadrados (pouco maior que a superfície do concelho do Montijo).

Mais de dois milhões de palestinianos que não podem sair. Não podem atravessar o muro que cerca o território. Não têm para onde ir. Não há qualquer lugar onde possam sentir-se seguros. Serem ou não mortos é uma simples lotaria. São uma espécie de ratinhos de laboratório para as novas experiências de assassinato em massa. Quem fica indiferente perante isto está a abandonar a mais elementar humanidade.

Caramba! Não se comovem quando há crianças palestinianas de cinco anos a dizer que preferem a morte porque perderam toda a família? Não se abalam diante da notícia de que nos últimos meses “já não há bebés de tamanho normal” a nascerem em Gaza, segundo os médicos”? E que aumentam os nados-mortos e as mortes neonatais? E que isso é causado, em parte, pela desnutrição e desidratação das mães ?

Mais que nunca, solidariedade para travar os genocidas

Pela minha parte estarei, como sempre, na próxima manifestação em Lisboa de solidariedade com a Palestina e por um cessar-fogo imediato. Em Lisboa, dia 7 abril às 15 horas, na praça do Município.

Este texto representa o fim do meu emudecimento. Voltei a encontrar as palavras. Não são as frases que eu desejaria compor, não terão certamente o efeito que pretendia.

Mas continuaria a ficar sem palavras se não desabafasse.

Reencontrei-as.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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