Estados Unidos

‘Woke’: uma ofensiva reacionária

20 de abril 2024 - 15:31

De olhos postos na reação ao movimento Black Lives Matter, Vicente Rubio-Pueyo traça a história da utilização da palavra, da sua ligação com a “cultura do cancelamento”, com a diabolização da Critical Race Theory e com os ataques à escola pública.

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Vicente Rubio-Pueyo | CTXT

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Imagem de um protesto contra Trump em 2016. Foto de waltarrrrr.
Imagem de um protesto contra Trump em 2016. Foto de waltarrrrr.

Seguramente já ouviram, em algum momento dos últimos anos, algum lamento sobre uma suposta "cultura de cancelamento" omnipresente, uma espécie de censura tácita que existiria principalmente nas redes sociais e que se caracterizaria por uma pressão constante que restringiria a livre expressão de opiniões, especialmente se essas opiniões questionarem os princípios fundamentais – feministas, anti-racistas, trans-inclusivos, etc. – que conformariam uma agenda ou cultura woke.

Normalmente, quem faz este tipo de crítica ao cancelamento e ao woke em Espanha fá-lo para denunciar o facto de estarem a ser importadas conceções teóricas próprias da academia norte-americana, totalmente alheias às "nossas" tradições e compreensões. O certo é que esse mesmo gesto de denúncia da anulação e do "wokismo" é, como veremos, também uma importação dos Estados Unidos. Uma cópia exata, de facto um empréstimo literal, dos instrumentos e quadros discursivos que a direita e a extrema-direita americanas têm vindo a utilizar nos últimos anos. Neste artigo, tentarei explicar as origens e os usos destes termos nos Estados Unidos, bem como os significados e contextos que invocam e que são frequentemente apagados ou mal interpretados (de boa ou má fé) no processo de tradução.

Mas comecemos por clarificar algumas questões importantes. Por um lado, é certo e é preocupante que existe um problema de toxicidade nas redes, com a forma como os debates são abordados e resolvidos, com a facilidade com que qualquer posição, afirmação ou tropeço são imediatamente caricaturados, sumariamente julgados. É a estes sintomas que os debates em torno da chamada "cultura do cancelamento" quiseram dar um nome. No entanto, trata-se – como tentarei explicar – de um quadro errado para diagnosticar o problema e para oferecer soluções. Em primeiro lugar, porque, na realidade, não explica verdadeiramente as causas estruturais do problema, mas oferece, de facto, um moralismo, um virtuosismo comportamental, que é reflexo do moralismo que diz denunciar. Em segundo lugar, porque, na realidade, como foi salientado em muitas intervenções, é um quadro que provém de posições elitistas e muitas vezes reacionárias, assustadas por uma espécie de revolução plebeia dos públicos, pela repentina capacidade que os leitores ou espetadores anónimos, qualquer um e o zé-ninguém, parecem ter adquirido para atacar, denunciar ou insultar – quando muitas vezes se trata apenas de comentários, críticas, nuances ou respostas – a colunistas e intelectuais famosos, os notáveis da esfera pública.

Há outras abordagens melhores para compreender estes problemas: Os argumentos que Mark Fisher oferecia no seu famoso ensaio Exit the Vampire Castle como uma crítica a algumas formas contemporâneas de moralismo político; as poderosas abordagens de Richard Seymour à profunda arquitetura ideológica e material que estrutura as redes sociais no seu The Twittering Machine; e muitas outras intervenções que lidam com a afetividade das redes, as formas e os modos de conversação pública de massas, as implicações dos algoritmos e as suas prioridades, a propriedade privada destes meios e ferramentas cruciais e a necessidade da sua conversão em recursos e espaços comuns e/ou públicos, entre muitas outras perspetivas.

Mas, além disso, a chamada "cultura do cancelamento" não é uma perspetiva adequada porque a origem norte-americana desta suposta controvérsia faz, na realidade, parte de uma constelação de termos, conceitos e problemas que é frequentemente esquecida ou apagada quando traduzida para outros parâmetros sociais, políticos, mediáticos, ideológicos ou culturais. Neste texto tentarei explicar que usos e significados convoca esta suposta "cultura do cancelamento", não como um fenómeno recente, como uma nova problemática surgida nas redes sociais, mas como um termo inserido num arco histórico muito mais vasto, o das chamadas guerras culturais, uma dimensão político-cultural que tem refletido e estruturado os desenvolvimentos sociais, políticos, económicos e ideológicos da sociedade norte-americana nas últimas décadas.

Cancelamento: a origem de uma falsa polémica

O uso em linha do termo "cancelar" tem origem no chamado Black Twitter. Muitas vezes na forma do gozo ou satírica, os jovens afro-americanos costumavam proclamar nas redes o cancelamento de uma figura famosa por uma determinada declaração, uma má canção, um mau gesto num evento público, qualquer elemento suscetível de ser comentado no âmbito de um mexerico bastante inocente, típico das redes sociais. Ao mesmo tempo, é verdade que nos últimos anos também se tem falado da chamada call out culture, de certa forma um fenómeno semelhante ao descrito por Mark Fisher em Exit the vampire's castle: uma certa tendência para denunciar casos de racismo, sexismo, abusos de poder em coletivos e organizações, muitas vezes justificados, mas por vezes com tons muito moralizantes. A partir da própria esquerda e dos espaços militantes e ativistas, há anos que se reflete sobre o problema, como mostra esta valiosa reflexão de Asam Ahmad.

Estes elementos ligados às dimensões e problemáticas raciais, e às suas dinâmicas particulares nos Estados Unidos, não são um aspeto secundário. Ao mesmo tempo, desde a chegada de Trump ao governo, e certamente antes, desde a sua irrupção na campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 2016, abriu-se um clima de confronto discursivo contínuo, com uma imensa geração de ruído mediático, uma intensificação paulatina da toxicidade nas redes, ondas contínuas de ações e reações, de todo o tipo de polémicas e de spin discursivo, ampliado pelas redes. De certa forma, e como o seu triunfo demonstrou, Trump soube tirar uma lição profunda das dinâmicas entre os media tradicionais e as redes, e do poder e dos afetos que geram: soltar a barbaridade no Twitter, esperar que umas escandalizadas CNN, MSNBC – e uma aliada Fox – fizessem campanha de graça, dando-lhe o dom da omnipresença mediática e da primazia dos enquadramentos e das mensagens, e depois capilarizar o seu efeito através da geração de reações e respostas, dando lugar a um clima de "polarização" em que quem lhe responde com razão é imediatamente reduzido a comparsa complementar necessário.

Todos estes elementos confluem, até 2020, no clima que acabará por gerar a polémica em torno da chamada "cultura do cancelamento". Em julho de 2020, a revista Harper's lançou a carta-manifesto "A Letter on Justice and Open Debate", promovida a partir de posições do centrismo liberal, e assinada por um elenco de figuras, em geral membros de uma secção relativamente transversal do establishment centrista, mas inteligentemente polvilhado com figuras mais à esquerda. Aprofundar as interpretações de cada signatário dessa carta e as suas intenções ao fazê-lo (certamente boas em muitos casos) é um exercício impossível e, para além disso, irrelevante. Mas é possível colocar a carta no seu contexto imediato, questionar o seu timing e avaliar os seus efeitos. A carta é publicada em julho de 2020, ou seja, no meio da onda de mobilizações de protesto contra o assassinato de George Floyd por um agente da polícia de Minneapolis. Era o contexto – como vários estudos assinalaram – da maior vaga de mobilizações sociais da história dos Estados Unidos, que se refletiu obviamente nas redes, mas também no seio de muitas instituições e, sobretudo, nas redações e nos órgãos de decisão de muitos meios de comunicação social.

De facto, a presença entre os signatários de figuras como Bari Weiss era sintomática: apenas uma semana após a publicação da carta, e no calor da polémica gerada, Weiss, colunista do New York Times e ex-coordenadora de opinião do Wall Street Journal, anunciou a sua demissão do seu cargo no Times devido ao que descreveu como uma guerra civil interna, sugerindo mesmo assédio, naquilo que para muitos dos seus colegas racializados da redação não passava de legítimos debates internos sobre o racismo e o seu efeito na linha editorial do jornal. Um jornal que, por certo, apenas um mês antes tinha publicado um artigo de opinião do senador republicano Tom Cotton que sugeria e justificava a perseguição militar aos manifestantes e cuja publicação, em circunstâncias editorialmente confusas, tinha levado à demissão do principal autor de artigos de opinião do jornal, James Bennet. Yasha Mounk, um dos principais promotores da carta, estava, por seu turno, prestes a lançar o seu meio de comunicação online Persuasion.

Como noutras ocasiões, a única coisa que conseguia o apelo centrista à sanidade entre os dois extremos equidistantes (lembremos: um lado publicava comentários no limite nas redes; o outro fazia prisões inconstitucionais de manifestantes nas ruas com o poder da polícia e dos órgãos de segurança do Estado) era trabalhar para normalizar as posições mais reacionárias. Assim, foi o centrismo liberal o primeiro a lançar, em nome dos bons costumes, a necessária politeness no intercâmbio civilizado no "mercado das ideias", a primeira pedra de toda uma contraofensiva reacionária que viria a fixar, no espaço de poucos meses, outros objetivos mais sensíveis e ambiciosos. Talvez já tenham ouvido ou lido estes termos, transformados em homens de palha, em fantasmagorias necessárias da reação: a chamada "cultura woke", a Critical Race Theory ou, mais recentemente, os ataques às políticas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão).

A ofensiva reacionária

O objetivo das polémicas construídas à volta destes e de outros termos semelhantes ao longo dos últimos anos é inequívoco: fechar para sempre a porta ao clima que o movimento Black Lives Matter tinha aberto na primavera e no verão de 2020. Como já salientámos anteriormente, esta vaga do Black Lives Matter não foi a primeira, mas foi a maior. Mas, mais do que uma questão quantitativa, trata-se de compreender os efeitos profundos que gerou: um profundo (auto)questionamento da sociedade norte-americana, das narrativas históricas que sustentavam a sua auto-perceção enquanto país e – somado aos efeitos da pandemia – do seu modelo económico, social e político. Este questionamento profundo e radical não foi apenas a expressão de um justo mal-estar por parte da população afro-americana, dos seus aliados e de manifestações de solidariedade contra a brutalidade policial. Também atingiu e interpelava transversalmente as grandes maiorias do país, incluindo a população branca. De facto, o momento Black Lives Matter em 2020 pode ter, entre os seus inúmeros efeitos, mostrado um retrato da sociedade norte-americana em que a sua diversidade e complexidade começa a deixar para trás a dinâmica tradicional da maioria (implicitamente branca) e das minorias (tudo o resto).

No entanto, esta realidade demográfica não se converte automaticamente numa realidade política. É certo que as gerações mais jovens, com 45 anos ou menos – millennials a Zs – são geralmente mais diversificadas e, na sua esmagadora maioria, mais progressistas. Mas também é certo que são numericamente mais pequenas do que as mais velhas, como os Boomers e os Xs, nomeadamente muito mais brancas e, em geral, mais marcadamente conservadoras. Talvez seja esta certeza demográfica que mobiliza a direita branca e a extrema-direita. Porque, em todo o caso, estas mudanças não são uniformes nem unidirecionais. E, sobretudo, devem articular-se politicamente em função de uma realidade extremamente mutável e, na verdade, muitas vezes traumática: pandemias, alterações climáticas, armas nas escolas, brutalidade policial, incerteza económica e laboral. Se há um verdadeiro cancelamento a acontecer no mundo de hoje, é – para citar novamente Mark Fisher – o do futuro.

Esta perspetiva geracional não é o único fator de análise, e certamente não é o mais crucial em termos absolutos. No entanto, permite-nos compreender alguns traços importantes da atual ofensiva reacionária. Por exemplo, o carácter e o significado da construção da polémica em torno do cancelamento como tática de deslegitimação de atitudes e subculturas juvenis e – já assinalámos a origem do termo – racializadas. Ao utilizar a expressão "cultura do cancelamento", incorre-se (muitas vezes sem intenção, mas noutros casos conscientemente) uma espécie de dog whistle, a utilização de um termo cujo significado é aparentemente neutro, mas cuja conotação racista está disponível para aqueles que sabem reconhecer essa linguagem. Isto é ainda mais claro no caso do termo woke, também proveniente da gíria dos jovens afro-americanos e inicialmente utilizado para descrever pessoas "acordadas", isto é, solidárias, preocupadas com o mundo e com as outras pessoas e os seus direitos, especialmente na luta contra o racismo. Mas, para além disso, o que estes ataques ao cancelamento e à wokeness estão a tentar fazer é punir as novas sensibilidades dos jovens e adolescentes, criminalizando e infantilizando os seus comportamentos. E tentando bloquear as formas de solidariedade incipiente entre jovens negros e brancos. Sensibilidades e práticas que – sabem-no muito bem os dirigentes republicanos e os ativistas reaccionários – estão a caminho de se transformarem, a prazo, em viragens ideológicas militantes e profundas.

Almerinda Bento
Almerinda Bento

Politicamente correto?

19 de agosto 2016

Obviamente, a explicação das origens de um termo não esgota os sentidos possíveis que a palavra pode acabar por assumir. Por outro lado, e sobretudo quando estamos a falar de discursos que surgiram em grande parte em rede, não é possível atribuir uma vontade ou uma intenção monolítica a certos usos linguísticos. É importante sublinhar isto por razões metodológicas mas também por razões de honestidade intelectual, ética e política. Uma honestidade que, como veremos, falta a muitos dos proponentes destas polémicas, muitas vezes construídas a partir de uma má fé sistemática, ou de uma voluntária falta de compreensão de leitura. A controvérsia sobre o cancelamento, ou a publicação da carta na Harper's, não obedecem completamente a um estratagema conservador, republicano ou reacionário. Mas abriram um campo em que outras forças e significados começaram a entrar para colmatar a enorme lacuna, o vazio reflexivo e questionador que o Black Lives Matter tinha aberto na sociedade americana, na sua auto-perceção e no seu imaginário.

Depois das queixas sobre a cultura do cancelamento, passaram a articular-se em discursos em torno do woke e da wokeness, por vezes descritos como uma "agenda woke" ou toda uma "ideologia woke ", que se caracterizaria por possuir todo um projeto social definido e sustentado, ao que parece, pelo sistemático envergonhamento dos norte-americanos brancos. Nisto, mais uma vez, os media do centrismo imaculado, sensato e responsável (CNN, New York Times, Wall Street Journal, etc.) apressaram-se mais uma vez a abrir o espaço à extrema-direita, alimentando a viragem semântica do termo através do pânico moral.

Mas, seguramente, a frente mais articulada e premeditada da ofensiva reacionária tem sido o ataque à Teoria Crítica da Raça, frequentemente abreviada como CRT. Mais uma vez, temos de começar por falar de um conceito, do seu significado original e da forma como uma leitura incorreta interessada acaba por construir um enorme homem de palha. A Teoria Crítica da Raça é um conjunto de discussões e práticas académicas, principalmente nos domínios do direito e dos estudos legais, que, em termos gerais, procuram investigar e explicar a forma como o racismo e o supremacismo branco moldaram os quadros jurídicos e legais americanos ao longo da sua história. No seio desta corrente existem tradições e posições muito diversas que partilham obviamente um carácter progressista, devido à sua ênfase antirracista, mas é de facto uma corrente, uma série de debates e conceções de um campo académico, com as suas lógicas dissensões internas, como qualquer outro campo intelectual e académico. Ou seja, algo muito distante de um programa ou projeto definido.

Seria supérfluo assinalar isto, não fosse o facto de a forma como foi construído o espantalho da Teoria Crítica da Raça, a enésima fantasmagoria desta história, ter consistido precisamente em atribuir-lhe uma espécie de vontade sinistra e maligna, um projeto unificado mal dissimulado para quem souber ler os sinais. Em julho de 2020, o documentarista e ativista conservador Christopher F. Rufo publicou um artigo em que "desvelava" aos leitores do site City Journal (uma publicação do think tank conservador Manhattan Institute), através de fugas de informação escandalosas, que a cidade de Seattle estava a consagrar fundos públicos à doutrinação de funcionários municipais em workshops de antirracismo inspirados nos princípios desta teoria maligna. As fugas de informação retiraram obviamente do contexto frases utilizadas no workshop e o artigo descobriu a existência de uma espécie de cânone de doutrinação da CRT: os livros mais vendidos de autores como Ibram X. Kendi (How to Be an Antiracist) ou Robyn DiAngelo (White Fragility: Why It's So Hard for White People to Talk About Racism). Estes livros, para além do mais, não são muito suspeitos de radicalismo político. A partir dessa fórmula, começou a seguir-se uma onda de "fugas" alarmantes, tiradas de workshops semelhantes em empresas, em escolas secundárias, em reuniões de organismos e instituições educativas. Na realidade, pouco ou nada tinham de alarmante. Como salientou a jurista Kimberlé Crenshaw – que deu o nome ao conceito de interseccionalidade e é, precisamente, uma das figuras mais conhecidas da Teoria Crítica da Raça –, era frequente encontrar nesses documentos formulações algo questionáveis (uma tendência para uma certa simplificação moralista, por exemplo), mas isso era mais uma questão de experiência e de competências dos facilitadores de cada workshop, ou do contexto específico da sua realização (público e participantes, inexperiência e desconforto na discussão de tais temas), e não que fossem guiados por qualquer doutrina definida, e muito menos por uma doutrina inexistente, supostamente dedicada a espalhar a culpa e a auto-flagelação por toda a população norte-americana branca numa vasta operação de engenharia social.

Num perfil seu escrito por Benjamin Wallace-Wells para a New Yorker, o próprio Rufo explicou ao jornalista: "[Os conservadores] precisavam de uma nova linguagem para estas questões [...] O "politicamente correto" está ultrapassado e não explica o que se está a passar. Não é que as elites estejam a forçar algum tipo de modalidades e limites culturais, mas estão a tentar redesenhar (reengineer) os fundamentos da psicologia humana e das instituições sociais através da nova política da raça. É muito mais invasivo do que a simples "correção", que é um mecanismo de controlo social, mas não chega ao cerne do que realmente se passa. Rufo, graças a esta construção paranoica, encontrou o inimigo perfeito e rapidamente se tornou uma estrela em ascensão da direita reacionária, um ideólogo de última hora. O que é fascinante no próprio Rufo é a absoluta transparência das suas intenções e métodos. Assim, prosseguia, detalhando as virtudes da sua descoberta: "Os outros enquadramentos também estão errados: 'cultura de cancelamento' é um termo vazio e não se traduz num programa político; woke é um bom epíteto, mas é demasiado amplo, demasiado extremo, demasiado fácil de pôr de lado. A teoria crítica da raça é o vilão perfeito. As suas conotações condensam tudo o que é negativo para a maioria dos americanos da classe média, mesmo os das minorias raciais. Eles veem o mundo como "criativo", não "crítico", como uma realidade "individual" em vez de "racial", como algo "prático" em vez de "teórico". Tudo somado, a "Teoria Crítica da Raça" conota algo hostil, académico, divisivo, obcecado pela raça, venenoso, elitista, anti-americano".

Vale a pena incluir a citação completa porque aí se expressa o objetivo de Rufo e de toda a ofensiva reacionária. O homem de palha da Teoria Crítica da Raça tem como objetivo curto-circuitar a possibilidade de solidariedade inter-racial, estimulando o ressentimento branco e a vitimização. Cortar pela raiz com a reflexão e o diálogo social profundo iniciado com o Black Lives Matter e gera reações defensivas de encerramento. Também se pode ver como, sem ser necessariamente a mesma coisa, o debate em torno da "cultura do cancelamento" alimenta uma sequência que leva à construção desse inimigo perfeito. Um dos últimos objetivos de Rufo foi a campanha contra a presidente de Harvard, Claudine Gay. Primeiro, enganando-a para que comparecesse perante uma comissão do Congresso sobre crimes de ódio e discurso de ódio no campus. Uma campanha sionista cínica sob o pretexto de proteger os estudantes judeus de alegado assédio em protestos contra o genocídio em Gaza nas universidades americanas, explicada no CTXT por Sebastiaan Faber. Depois, através de acusações mais do que questionáveis de plágio, que acabaram por levar à demissão de Gay. Nas últimas semanas, Rufo dirigiu os seus esforços contra os programas DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), ou seja, como o nome sugere, programas de apoio ao aumento da diversidade, da igualdade de oportunidades e da inclusão nas instituições, empresas e locais de trabalho.

Dos debates às escolas

Pedro Filipe Soares
Pedro Filipe Soares

O insulto do politicamente correto

04 de janeiro 2019

Mas uma ofensiva ideológica não pode ser explicada apenas por uma figura individual, por mais cínica e oportunista que ela seja. O que é verdadeiramente relevante mede-se pelos efeitos que produz: a normalização de uns discursos e a marginalização de outros; a deslocação dos parâmetros da discussão pública; os afetos políticos que são convocados numa ou noutra ação e reações. Longe do que possa parecer, estas nunca são questões meramente discursivas: a mudança de paisagem que comportam gera o espaço para intervenções materiais e concretas. Neste caso, um ataque frontal e direto ao ensino público, tanto nas escolas primárias e secundárias como nas instituições universitárias. A ofensiva contra a CRT gerou um clima generalizado de desconfiança dos pais em relação às escolas e às autoridades educativas em todo o país que – convenientemente amplificado pelos meios de comunicação social – conduziu a uma longa série de protestos, muitas vezes falsamente espontâneos, outras vezes puramente estocásticos, nas assembleias dos distritos escolares locais e nos conselhos de educação (eventos normalmente abertos ao público), e a um clima de intimidação dos funcionários e agentes da educação, que conduziu a uma multiplicidade de demissões. Este enfraquecimento da escola pública facilita a entrada de novos membros nos órgãos de decisão locais dos serviços de educação e a adoção de novas regras. A saber: todo o tipo de facilidades para a abertura de escolas privadas e de escolas charter com todo o tipo de vantagens regulatórias, isenções fiscais e total falta de transparência curricular. Tudo em nome da luta contra o endoutrinamento e, como não, da sagrada liberdade de escolha.

A inspiração para esta campanha é também evidente nas táticas de figuras políticas como Ron DeSantis. O governador da Flórida, e até há pouco tempo candidato às primárias republicanas, implementou verdadeiras listas negras para censura de livros, implementou medidas como a sua lei "Don't Say Gay", que elimina a educação sexual das escolas, e tentou – com a ajuda de Rufo – tomar de assalto o New College of Florida, uma instituição pública de ensino superior modelo, e tradicionalmente muito progressista, mudando os seus órgãos diretivos, encerrando programas e transformando radicalmente a missão educativa do college.

Esta é a forma como a direita conseguiu bloquear o debate necessário e vital que o Black Lives Matter tinha aberto. E que – perante os detratores da direita, e alguns da esquerda que funcionam como idiotas úteis para a direita – foi muito além de uma exigência de identitária. Trata-se de repensar a história deste país, as suas estátuas e as suas narrativas coletivas. Mas também se trata da vida quotidiana e da segurança das comunidades nas ruas, para além da polícia. E as escolas, a educação, o futuro de todos. Não se trata de viver isolado, com medo do outro, preso a idealizações passadas e lutando contra fantasmagorias. Trata-se de descobrirmos juntos, falando em liberdade, sobre que sociedades e que vidas queremos.


Vicente Rubio-Pueyo é professor adjunto na Fordham University de Nova Iorque.

Texto publicado originalmente na CTXT. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.