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O insulto do politicamente correto

O género, a cor de pele, a etnia, a orientação sexual, ou a religião, são razões de discriminações que ainda grassam na nossa sociedade e a nível mundial.

“O pessoal é político”. Esta afirmação de Carol Hanish, uma feminista estadunidense, é absolutamente óbvia para quem tem a sua vida invadida ou os direitos negados pelas diversas formas de preconceito. No entanto, parece exagerada para quem a escuta de dentro dos cânones normativos da sociedade. Não é um caso de ver o copo meio cheio ou meio vazio, é o conservadorismo que nega o reconhecimento e impulsiona muitas discriminações.

O género, a cor de pele, a etnia, a orientação sexual, ou a religião, são razões de discriminações que ainda grassam na nossa sociedade e a nível mundial. Felizmente, muitas lutas identitárias têm ganho reconhecimento e visibilidade que permitiram avanços na luta contra o conservadorismo instalado, mas ainda há muito a fazer.

A lei pode ser o braço institucional do conservadorismo, como demonstra a realidade anterior à despenalização do aborto ou o impedimento ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ainda hoje, não é possível o recurso à PMA por mulheres sem que exista a tutela masculina. Mas o conservadorismo não se impõe só pelas leis. As normatividades sociais são os seus tentáculos, seja na estrutura da família, na constituição dos papéis sociais de género, na forma como o desejo é encarado. Esses “padrões” sociais podem ser o combustível de mecanismos mais ou menos subtis de discriminação, controle e humilhações.

Para combater esse conservadorismo e romper os muros que restringem direitos tem sido fundamental a criação de movimentos sociais. São estes os protagonistas das lutas identitárias, fundamentais para a transformar as relações de poder, que ao contrário do que é advogado por quem defende o status quo, não são nem neutras nem naturais.

As diversas lutas identitárias rumam para um mesmo objetivo: romper as relações de poder e eliminar a marginalização dos seus direitos. A luta pela igualdade de género, pelo fim da discriminação em função da orientação sexual, pela autodeterminação de género, contra o racismo confluem para somar direitos e criar inclusão.

A força dos movimentos identitários nasce da empatia criada num grupo de pessoas que sente a mesma discriminação ou preconceito. A criação de um coletivo proporciona solidariedade, identificação e fortalecimento de laços, e dá um impulso pela exigência coletiva de reconhecimento na sociedade. Possibilitam ainda um aspeto fundamental, o “lugar de fala”, que é permitir à pessoa que sofre o preconceito falar por si, como protagonista da própria luta e movimento.

Um dos desafios das lutas identitárias é o de serem movimentos inclusivos, criando pontes com outros atores ou movimentos sociais, criando agendas conjuntas e partilhando solidariedades. Essa abertura é essencial para alcançar a força capaz de romper as diversas barreiras do conservadorismo. Por outro lado, a criação de frentes sociais mais amplas permite chegar a setores da sociedade que não seriam mobilizáveis de outra forma. Veja-se como exemplo a campanha do referendo à despenalização do aborto, em 2007, onde a frente ampla que incluía diversos setores de esquerda e muitos liberais permitiu a vitória.

A visibilidade que as lutas identitárias ganharam forçaram a que muitas práticas sociais fossem revistas, a utilização da linguagem repensada, a lei mudada. Ainda bem. Contudo, os setores mais conservadores não tardaram a reagir a estes avanços, procurando novas formas para manter os preconceitos e as discriminações.

Foi assim, nos anos 80, que os conservadores estadunidenses cunharam o termo do “politicamente correto”. Pressupõe a existência de espaços ou ideias “acima” da política, tipicamente as ideias que servem à visão do estereótipo do homem branco, heterossexual, de classes mais elevadas.

Essa visão sente-se importunada quando é confrontada com os seus preconceitos. Veja-se, por exemplo, como Donald Trump se vitimizava dizendo “querem forçar-me a uma ditadura do politicamente correto”. Isto acontecia sempre que ele tinha frases machistas, homofóbicas ou racistas e era criticado por isso.

O politicamente correto é mais um insulto, um preconceito, de quem não aceita que a vida e a sociedade deve ser mais rica do que os seus horizontes tacanhos. Em 2019, quando ouvir esta expressão, fique alerta.

Artigo publicado no jornal “Público” a 2019

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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